O poder que todos têm

Rico ou pobre, culto ou inculto, todo cristão tem sua esfera de influência. Saiba como usá-la para o bem e potencializar o impacto do cristianismo na sociedade

o-poder-que-todos-tem-comportamento-RA-lightstock_121183 No trabalho, Antônio Tossin Gomes procura atender pessoalmente cada um de seus clientes. Sempre sorridente, entre uma conversa e outra, ele pergunta: “O senhor conhece a Novo Tempo?” Se a resposta for não, ele sai da loja e leva o cliente até o carro dele. Abre a porta, sintoniza o rádio na frequência da emissora adventista e diz: “Escuta que mensagem linda.” E tem mais, ninguém sai de seu estabelecimento com as mãos vazias. No balcão há folhetos evangelísticos, estudos bíblicos e revistas que Tossin distribui a todos que o visitam.

Essa e outras iniciativas do empresário gaúcho de 47 anos são propositais, porque, segundo ele, “não há como ser discípulo de Cristo, estar na igreja fundada por Ele e não fazer as coisas que Cristo fazia”. “Eu tenho que testemunhar de alguma forma. Então imagino que aquela pessoa que está vindo aqui [na loja] poderá ter apenas essa chance de ouvir sobre Jesus”, comenta.

Para Tossin, o mais importante é pregar para as pessoas que estão próximas dele, como amigos, funcionários e clientes. “Que Céu eu terei se lá não estiverem meus amigos e pessoas queridas? Um Céu só com estranhos? Um Céu solitário?”, justifica seu empenho missionário.

O poder do exemplo

O empresário parece ter entendido que são vários os métodos utilizados na pregação do evangelho, mas talvez o mais eficaz deles seja a influência pessoal. E, segundo Ellen G. White, o cristão deve utilizá-la em favor da humanidade. “Mediante Cristo, Deus conferiu ao homem uma influência que lhe tornaria impossível viver para si próprio. […] É propósito de Deus que cada um se sinta imprescindível ao bem-estar dos outros, e procure promover a sua felicidade” (Serviço Cristão, p. 26).

Rosa Ceconi, 59, e Sueli Spies, 43, também procuram fazer a diferença. Por gostarem de crianças, elas fazem trabalho voluntário em escolas públicas de Sapiranga, RS, onde contam histórias bíblicas e ensinam os pequenos a cantar hinos. Em suas visitas, as duas adventistas não falam sobre igreja ou religião. De acordo com elas, o objetivo é “plantar sementes” no coração dos alunos.

A estratégia já está dando resultado. A psicopedagoga Priscila Knak dos Santos, professora em uma das escolas que recebem o projeto, se diz tocada pela iniciativa de Rosa e Sueli, a qual transmite aos alunos valores morais utilizando a Bíblia. “Eu penso: elas são voluntárias! Mas e eu, o que tenho feito para ajudar os outros?”, pergunta a si mesma. “Jesus disse: Vão e preguem. A nossa forma é essa”, comenta Sueli.

Ninguém é uma ilha

Para a psicóloga Carolina Raupp, retidão moral ou pequenos gestos de gentileza são relevantes no círculo social de um indivíduo. “Exemplos positivos ou negativos não passam despercebidos. Podem servir de referência, gerar inveja, aproximação, motivação para mudança, etc. Depende do solo sobre o qual irão cair. Na maioria das vezes, produzem bons frutos”, explica Carolina. “Algumas vidas mudam por completo devido a gestos de bondade. E, às vezes, quem ajudou alguém a ver a vida sob uma nova perspectiva sequer toma conhecimento do efeito que seu gesto causou”, acrescenta a psicóloga.

A voluntária Rosa Ceconi ensina músicas e histórias bíblicas em escolas públicas de Sapiranga (RS). A iniciativa foi de sua amiga Sueli Spies Crédito: Arquivo pessoal de Rosa Ceconi
A voluntária Rosa Ceconi ensina músicas e histórias bíblicas em escolas públicas de Sapiranga (RS). A iniciativa foi de sua amiga Sueli Spies
Crédito: Arquivo pessoal de Rosa Ceconi

Carolina comenta que é possível identificar o tipo de influência que se está exercendo. “Devemos avaliar o seguinte: as pessoas sentem prazer em estar na nossa companhia? Nossas conversas estão focadas mais em necessidades próprias ou em ouvir quem nos procura?”, exemplifica.

Além disso, é necessário exercitar constantemente a disposição em servir. “Estar disposto a ser um agente de mudança, buscando e aproveitando oportunidades para isso, já é uma grande contribuição. Como diz um ditado popular, ‘uma ação vale mais que mil intenções’”, completa Carolina.

Mestre em Gestão de Pessoas, a socióloga Elna Pereira Nascimento endossa a opinião da psicóloga. Para ela, “a intencionalidade das ações deve ser uma prática do cristão”. Sendo assim, o indivíduo deve educar seu comportamento de modo a dar um testemunho eficaz. “Não há espaço para ações levianas por parte do cristão. Ele sempre deve saber aonde quer chegar com seu comportamento e influência”, destaca.

De acordo com Elna, cada ação tem reflexo no ambiente social em que se está inserido. “Muitas vezes, tomamos decisões egoístas, julgando que as consequências atingirão somente a nós, pois a decisão foi individual. ‘Isso só diz respeito a mim’, é o raciocínio de muitos. Esquecemos, porém, que não somos uma ilha e que vivemos em constante relação com outras pessoas”, lembra a especialista.

O impacto do cristianismo

O ponto é que, num mundo tão carente de boas referências, a sociedade espera bons exemplos, sobretudo dos cristãos. Medir a percepção que os norte-americanos têm sobre a contribuição social do cristianismo foi o objetivo de um estudo elaborado pela Grey Matter Research & Consulting, uma empresa especialista em pesquisas de mercado. Realizado em 2012, o levantamento analisou o impacto da fé cristã na sociedade norte-americana em 16 áreas diferentes, como ética, meio ambiente e sexualidade.

Os tópicos da pesquisa que mais chamaram a atenção se referem justamente a questões morais. Entre os americanos, 72% acreditam que a fé cristã tem um impacto positivo sobre a educação das crianças, enquanto 19% consideram que a fé não tem impacto real; e 8% acreditam que tem um impacto negativo nessa área. Já no campo de ajuda humanitária, 72% veem a fé cristã como tendo um impacto positivo, 20% não percebem nenhum impacto real e 8% sentem que há um impacto negativo.

Foi analisada ainda a influência do cristianismo em debates sobre racismo, aborto e criminalidade. No entanto, parece que o exemplo cristão ainda não chama tanto a atenção dos norte-americanos. Somadas as 16 áreas estudadas, a pesquisa revelou que só 13% das pessoas acreditam que o cristianismo tem um impacto fortemente positivo; 37% não veem impacto algum e 7% veem a religião cristã como algo negativo. Algumas das áreas em que os cristãos exercem menos influência são a sexualidade e o meio ambiente.

Religião no dia a dia

Para reverter esse quadro, a Igreja Adventista do Iguatemi, situada num bairro nobre de Porto Alegre, realiza um projeto diferente. A praça que fica próxima ao templo foi adotada pelos fiéis, que todos os domingos vão até lá para cortar a grama e recolher o lixo. A iniciativa desperta curiosidade nos moradores do entorno, que sempre se perguntam quem são aquelas pessoas e por que fazem isso de graça.

Quem faz parte do grupo de voluntários é Antonio Tossin, o empresário mencionado no início da matéria. Entre uma roçada com o cortador de grama e uma varrida, ele aproveita para ter um bate-papo com quem estiver pela praça. Quando surge uma oportunidade, ele convida o vizinho da igreja para visitar o templo.

Antonio demonstra ter entendido que a religião não pode ficar restrita à vida privada, nem limitada ao contexto da igreja ou às horas do sábado. Ela precisa ser o centro da vida e nortear o dia a dia do cristão. “Para os que não são religiosos (e para Deus), não há diferença entre minha influência como cristão e como pessoa. Existe apenas ‘influência’”, explica o pastor Harry Streithorst, sobre a importância da coerência.

O ministro traça um paralelo entre a experiência dos cristãos modernos e o exemplo da menina que servia a esposa de Naamã (2Rs 5). Estrangeira e escrava, as crenças da garota foram levadas a sério pelas pessoas mais influentes da nação pagã em que vivia. “Como? Não foi sua eloquência, seu conhecimento da Bíblia ou a força de seus argumentos que convenceu a família de Naamã, mas, com certeza, foi a maneira séria e responsável com que ela exerceu seus deveres”, argumenta.

Segundo Streithorst, assim como a garota judia, o cristão deve agir de maneira respeitosa e sábia no trabalho, na escola, onde conserta seu carro e corta o cabelo. “Então, quando esse cristão disser que na igreja dele há cura para a ‘lepra’, as pessoas lhe darão ouvidos”, conclui.

SAIBA MAIS

Luz meio apagada

Nos Estados Unidos, a percepção sobre o impacto do cristianismo na sociedade tem diminuído. Veja os dados da pesquisa de 2012:

13% acreditam num forte impacto

29% percebem algum impacto positivo

37% não veem impacto algum

7% enxergam o cristianismo como algo negativo

Fonte: “What Difference Does Christianity Make?”, disponível em http://greymatterresearch.com/index_files/Grey_Matter_Report_What_Difference_Does_Christianity_Make.pdf

Corrente do bem

Já que todos exercem influência, em maior ou menor grau, seria interessante você saber como utilizar melhor a sua. Seguem algumas dicas:

  1. Se a sua religião se limita ao sábado e à igreja, algo está errado.
  2. Seja intencional e aproveite cada oportunidade para servir alguém.
  3. Saiba que suas decisões, inclusive as egoístas, sempre afetarão mais pessoas.
  4. Procure ser um agente de mudança em sua comunidade.
  5. Atente para a coerência entre discurso e ações.
  6. Nos relacionamentos, ouça mais e fale menos.

Rafael Acosta é jornalista

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