Dominação cultural

Como Babilônia tentou influenciar a mente dos jovens hebreus e tenta fazer o mesmo hoje

dominacao-cultural-ideias-RA-Fotolia_62706048 O mundo vive um rápido processo de transformação cultural. E, diante dessa realidade desafiadora, os cristãos correm o risco de ser seduzidos pelos valores da Babilônia moderna. A experiência dos jovens hebreus na antiga Babilônia pode nos ajudar a entender esse processo.

Babilônia tinha o foco em dominar todos os povos. Uma dominação que ia além das guerras. O grande império dominava não só fisicamente as outras nações, mas também tratava de mudar a cultura delas, tornando antigos inimigos em fiéis agentes dos interesses babilônicos em suas respectivas nações.

O nome da cidade significa “o portão dos deuses”. A arqueologia mostrou que os babilônios tinham milhares de divindades: em torno de 2.500 deuses com suas respectivas funções. Havia desde o maior, Marduque, ao menor. Com isso, podemos já entender que a base de tudo o que acontecia ali era voltada à religião.

A conquista por Babilônia não se limitava ao plano horizontal ou histórico, mas abrangia também a dimensão vertical ou espiritual, ou seja, a conquista cultural. A Bíblia diz que os jovens deviam ser “mantidos por três anos”. A palavra traduzida por “mantidos” também serve para “educados”. Isso indica que eles deviam ser moldados pela cultura babilônica.

Os babilônios usaram três armas para aculturá-los. A primeira foi a alimentação, tema que se destaca no capítulo 1 de Daniel. “O objetivo da transformação cultural não se limitou ao domínio intelectual, mas afetou os aspectos mais íntimos da vida diária, incluindo a dieta”, comenta o Jacques Doukahn em seu livro Secrets of Daniel.

Esse aspecto vai muito além do simples ato de comer. O princípio implícito na ordem do rei era a submissão à sua autoridade. O verbo usado para dizer que o rei “determinou” o alimento dos rapazes sugere que o monarca tomou o lugar do Criador. E a expressão “carne e vinho” indicava uma refeição ritual. Participar de uma refeição assim implicava submissão ao culto babilônico e o reconhecimento do rei como “deus”.

A segunda arma foi a educação. O programa de estudos nas escolas de Babilônia era variado e exigente. Os jovens deviam aprender acadiano, que era a língua nativa dos babilônios; a língua suméria antiga, usada em práticas religiosas e na literatura técnica; e o aramaico, a língua do comércio internacional e da diplomacia. No entanto, seu currículo certamente incluía também o estudo da astrologia, da adivinhação e a leitura de oráculos, práticas condenadas no Antigo Testamento (Dt 18:10). Mas, por meio da oração e da dependência de Deus, os jovens conseguiram escapar da influência corruptora de seus estudos.

A terceira arma usada para modificar a estrutura deles incluía a mudança de nome. Daniel (“Deus é meu juiz”) tornou-se Belsazar (provavelmente “Bel protege sua vida”). Ananias (“Yahweh tem sido misericordioso”) tornou-se Sadraque (provavelmente “no comando de Aku”, a deusa Lua), Misael (“Quem é como Deus?”) foi alterado pela Mesaque (talvez “Quem é que Aku?”) e Azarias (“o Senhor ajuda”) foi chamado Abednego (derivado de “servo de Nebo”, um dos principais deuses da Babilônia).

Na cultura ocidental, essas mudanças podem parecer insignificantes. Contudo, no antigo Oriente Próximo, os nomes faziam parte da identidade do indivíduo. Por isso, em alguns casos, Deus mudou o nome das pessoas. O interessante é que houve também resistência quanto a esse ponto pelos jovens. Daniel escreveu os nomes de modo a alterar seu significado. Em vez de Belsazar, Daniel é chamado Beltsazar (com um “t”), para que o nome do deus Bel seja Belt, ou seja, nenhum deus. Em vez de “Sada Acu”, Ananias é chamado de Sadraque; assim, o nome do deus Acu foi reduzido em hebraico. E, em vez de Ardi-Nabu, Azarias adquire o nome de Abednego, deformando o nome do deus Nabu. Ao alterar os nomes, eles perderam a finalidade original.

No fim, as armas de aculturação que seriam usadas pelos babilônios contra os jovens hebreus foram utilizadas para mostrar que existia um Deus em Israel.

Hoje também Deus tem um povo fiel que está dentro de uma cultura dominante, relativista e pluralista. Cabe a cada um manter comunhão diária com o Senhor e crescer em fidelidade, a fim de evitar contaminação e mudança de pensamentos e hábitos.

Hebert Davi Liessi é pastor em Salvador

 

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