Obediência a longo prazo

As disciplinas espirituais podem tornar você sensível à presença de Deus, mas o essencial é mudar a estrutura do pensamento

obediencia-a-longo-prazo-sintonia_RA-lightstock_1885A espiritualidade precisa ser entendida como integralidade, sinônimo de vida, e não como um evento, uma experiência de êxtase ou conformidade com uma lista de crenças ou tradições com pouco ou nenhum sentido real. A vida espiritual é um processo de discipulado corretamente denominada como “obediência a longo prazo na mesma direção”,  frase cunhada Friedrich Nietzsche e utilizada por Eugene Peterson no título de um de seus livros.

Viver o texto no contexto é compreender que o mais importante não é onde ou como estou hoje na caminhada, e sim a direção ou o destino. O crescimento espiritual começa sempre de um ponto de partida, onde e como estou. A vida é uma jornada em direção a Deus, seguindo o caminho que é Jesus. Os tropeços e feridas, acertos e alegrias fazem parte dessa jornada.

Mudança de raciocínio

Um dos grandes empecilhos ao crescimento espiritual não está no executar ou não o que chamamos de práticas espirituais, como estudo da Bíblia, oração, culto e jejum, mas sim nos raciocínios fundamentais ao nos aproximarmos dessas práticas. Alguns se esforçam para “fazer” todas essas coisas, mas não percebem resultados significativos imediatos. Desiludidos, ficam confusos quanto à sua espiritualidade e questionam a eficácia das práticas.

Para algumas dessas pessoas, o diagnóstico parece ser simples. Isso acontece porque não encaram os exercícios espirituais como jornada em direção a Deus, mas como ferramentas de manipulação para alcançar o que se quer. Nesse sentido, as práticas espirituais passam a ser nada mais do que amuletos supersticiosos. Ao não produzir os resultados imediatos desejados, elas são abandonadas como algo que não funciona.

É como ir à academia fazer exercícios para ficar com o corpo bonito para o verão. Depois de alguns dias de suor e lágrimas, olhamos no espelho procurando a barriga tanquinho e desanimamos na primeira semana porque os exercícios não deram resultado. De fato, o exercício físico é um benefício de bem-estar a curto, médio e longo prazo. Não existe corpo “sarado” produzido em algumas semanas. Esse é um problema de raciocínio fundamental quanto à prática de exercícios.

A estrutura do nosso pensamento forma a base de nossas percepções e expectativas, além de determinar nossas práticas. Portanto, durante a jornada da vida, é preciso constantemente considerar nossos pensamentos mais fundamentais. Para alguns, isso pode representar uma desconstrução quase completa do pensamento relacionado à jornada cristã e ao papel das práticas espirituais. Para outros, é apenas uma questão de correção e ajuste, a fim de ter uma existência espiritual mais vigorosa e constante na mesma direção. Queiramos ou não, estamos presos aos nossos raciocínios fundamentais.

Percepção espiritual

Como as obras de Michelangelo, Picasso, Aleijadinho ou Niemeyer, essas estruturas espirituais, transformadas em sua base, serão admiradas por desafiar o tempo e ser sempre atuais. Uma força quase incompreensível, mas percebível! Uma beleza!

É como o texto milenar do livro de Romanos afirma: “Transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12:2).

Espiritualidade, ou viver o texto no contexto do século 21, não encontra aperfeiçoamento apenas com boa vontade e tentativas. Esses dois elementos poderão levá-lo, talvez, tão longe quanto a duração da palha seca no fogo. É a tal da resolução de início de ano de ler a Bíblia, mas que dura até o fim de fevereiro ou esbarra no livro de Levítico.

Amadurecimento espiritual não é tentativa fracassada de parecer religioso, mas determinação e oportunidade renovadas a cada manhã. É a chance diária de rever critérios fundamentais e tradicionais inculcados na mente. Esses fundamentos determinam como aproximamos, relacionamos e definimos o que é espiritualidade e o que esperamos dos exercícios espirituais.

O desenvolvimento de uma vida consciente e sensível à presença e ação real de Deus requer disciplina e persistência. Porém, o que dizer dos indisciplinados ou pouco persistentes? Quando a prática da disciplina espiritual é acompanhada de surpresa, novidade e encantamento, ela deixa de ser chata e monótona e passa a ser viva e excitante. A curiosidade tanto impulsiona o indisciplinado quanto a surpresa incentiva o pouco persistente.

As disciplinas espirituais têm o objetivo de tornar a pessoa sensível, com percepção aguçada da presença e da ação de Deus como companheiro inseparável de caminhada. Conforme Jesus afirmou, a vida espiritual com Ele é leve e suave (Mt 11:30). Então, relaxe e curta a existência espiritual, “porque Deus está operando em vocês o desejo de obedecer-Lhe e a realização daquilo que Ele quer” (Fp 2:13, Nova Bíblia Viva).

Você não precisa lutar sozinho, na tentativa de crescer na vida espiritual. O esforço é importante, mas sem Jesus nenhuma iniciativa funciona. Quem efetua a conversão e opera o crescimento é Deus.

Paulo Cândido é doutor em Ministério e missionário no Oriente Médio

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