Nascido para salvar

Ele ficou mundialmente conhecido pela precisão de suas mãos, mas sua história seria outra se Deus não o tivesse moldado

nascido-para-salvar-Perfil-Carson-RAOs corações são desligados. Como se fossem máquinas acionadas por alavancas, os músculos vitais dos gêmeos siameses são desativados. Restam apenas 60 minutos. Tempo para a vida ou a morte dos meninos.

O caso ali era raro. Na mesa de cirurgia estavam gêmeos xifópagos, ou siameses, nascidos com os cérebros coligados. Esse tipo de anomalia se dá no útero da mãe entre gêmeos idênticos e existem duas explicações. Uma diz que os embriões se unem durante um processo em que, na verdade, deveria haver a separação dos fetos, mas uma paralisia na função os deixa unidos, sem completar o processo. Nesses casos, as crianças ficam grudadas por uma parte do corpo em que pode haver ou não compartilhamento de órgãos. É comum nessas situações os bebês nascerem com quatro pernas e um tronco, por exemplo. Já a outra tese defende que a união ocorre de forma espontânea. Nessa hipótese, os óvulos já estão separados, mas se ligam em alguma fase da gestação. Geralmente, nesses casos os embriões unem partes semelhantes do corpo, tendo cada um dos pares todos os órgãos, sem compartilhamento.

E naquela sala de cirurgia tratava-se da segunda opção. Os pais dos bebês haviam procurado com esforço por uma junta médica que desse a esperança da separação com vida dos pequenos. Em sete meses de buscas, tempo de vida dos menores, eles encontraram uma luz no Hospital Johns Hopkins.

Porém, até 1987 nenhum procedimento médico havia sido feito com tal complexidade e que garantisse a vida das crianças separadas. Por isso, o maior desafio era transformar o uno em duo com a garantia da vida e da personalidade de cada um.

“Mas como? Como os dividirei? Ninguém fez isso antes. Será que sou capaz?” O desafio fez o neurocirurgião incumbido da função voltar aos livros. Nada incomum para um negro pobre que se formou em medicina na Universidade de Michigan. Naqueles tempos, quando procedimentos cirúrgicos lhe eram sonhos, e mesmo antes deles, quando ainda alimentava a utopia de usar um estetoscópio no peito, teve da mãe a influência principal.

Aquela sábia negra iletrada de Detroit, Estados Unidos, deixou à prole a herança da leitura. Ela mesma não sabia ler. Quiçá juntar algumas sílabas. Porém, nas casas dos mestres as quais limpou viu nos livros e nas bibliotecas sem fim os passos para o sucesso. Tanto que repetidas séries de “desligue a TV e estude” tornaram-se mantras.

Sem o pai, que o abandonara quando tinha oito anos, lhe restavam poucas chances de ter um futuro melhor. Ou o que mais restaria para um negro, pobre e morador da periferia naqueles tempos?

Mas isso eram lembranças.

Ali, na sala de cirurgia, sabia que guardava na memória o que precisava fazer quando parou os corações. Dos estudos prévios, entendeu que era preciso dividir as cabeças sem romper as veias, ou melhor, separá-las, para deixá-las independentes, e reconstruir a parte traseira da cabeça em tempo hábil para evitar uma hemorragia. Para isso, 60 minutos de morte.

Ao parar os corações, um processo cauteloso começou. Acompanhavam-lhe naquela hora sete anestesistas pediátricos, outros cinco neurocirurgiões, dois cirurgiões cardíacos e mais dezenas de enfermeiras e especialistas (70 ao todo), que, no momento fatídico, oraram.

“Agora é começar. Não vou olhar para o cronômetro. Vou apenas operar”, pensou o chefe da equipe.

Aquele abrir de coração a Deus era um desabafo. Coisa que só se tornou comum na meninice, no dia em que esfaqueou o amigo Bob. Uma discussão boba, uma intempérie que dividiu opiniões sobre música, fez o médico cirurgião que agora separava gêmeos xifópagos golpear de faca o amigo. Era ele um lutador desbocado, que nem a honra da mãe garantia quando contrariado.

Quando discutiu com Bob, a ira patológica subiu-lhe à cabeça e em um arco reflexo retirou o canivete do bolso traseiro e golpeou o amigo. Poderia ali ter jorrado sangue equivalente ao que os bebês siameses precisavam. Mas não. O coração do infantil doutor quase explodiu. Medo. Ansiedade. O menino à sua frente poderia morrer… pelas mãos dele! Fora difícil conter-se. Sua ira o levou longe demais.

Foram segundos de tensão o tempo em que ele observava Bob. Porém, a fatídica facada errou. Ou acertou. Pegou na fivela do cinto do menino, salvando-o.

Depois do incidente, correu ao banheiro e orou. Com a fé com a qual orava ao operar os bebês à sua frente, pediu para ser outro: “Senhor, eu não sou capaz de mudar. A menos que mudes meu coração, continuarei sendo o mesmo.” A fim de ouvir mais a voz daquele que clamava, no chão do banheiro da escola, abriu a Bíblia que levava consigo. E em Provérbios começou a entender a vontade dAquele que passou a considerar o verdadeiro Pai na Terra. Se tal prece não fosse atendida, talvez não teria operado duas crianças mais tarde.

Mas isso eram lembranças.

Agora, frente aos pares de corações desligados, sabia que o mesmo Deus que transformara seu temperamento rude guiaria a situação. Confiava ele que aqueles 60 minutos poderiam ser 60 minutos para um milagre.

Bisturi na mão, deu continuidade ao procedimento. A hora que se seguiu foi vital. Os seios venosos, única parte compartilhada entre os menores, havia sido cortada. Naqueles 60 minutos, as partes posteriores das cabeças precisavam ser reconstruídas. Sem fitar o cronômetro, o chefe da junta operou. Até que… “Oh, não! Por essa eu não contava!” Um sangramento inesperado acometeu os menores. Os 60 minutos converteram-se em apenas 40, porque os outros 20 seriam para conter o sangramento.

“Tragam mais sangue! Já!” A pontual ordem foi cumprida. Ao todo, 50 bolsas de sangue do tipo AB foram transferidas dos armazenamentos para as veias dos bebês. E, a um minuto do cronômetro zerar, outro pedido: “Liguem os corações!” Uma ordem que deixou a sala cheia de seres vivos.

A partir de então, os cirurgiões plásticos tomaram as rédeas. Mas aquele neurocirurgião, apesar das 22 horas de procedimento, não se saciou. Orou de novo. Agradeceu ao Pai. O talento, a paciência, o novo temperamento. Sem essas virtudes ele não conseguiria conduzir uma cirurgia como aquela.

Enquanto orava, entendendo que havia sido designado para aquele momento, a cirurgia acabou. Setenta profissionais, 22 horas e duas crianças com a oportunidade de viver pela primeira vez independentemente uma da outra, cada qual com sua personalidade. Um momento histórico.

Ao deixarem a sala, imprensa, equipe e demais médicos, dirigiram-se ao chefe da operação e lhe prestigiaram: “Parabéns, doutor Ben Carson. A cirurgia foi um sucesso.”

medalha-ben-carson-perfil-RA-000_Was1666136Ben Carson é diretor da Divisão de Neurocirurgia Pediátrica do Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland (EUA). E, de acordo com a CNN, é um dos 20 mais destacados médicos e cientistas do mundo, recebendo em 2008 a Medalha Presidencial da Liberdade pelo então presidente norte-americano, George W. Bush.

 

Isadora Stentzler é jornalista

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