Entre no enredo

Para que a leitura da Bíblia seja transformadora, você precisa se envolver em suas histórias e perceber Deus atuando ontem e hoje
Ler a Bíblia é entrar num universo de cheiros, cores, sons e personagens e perceber Deus ativo no cotidiano humano nada perfeito. Foto: Fotolia
Ler a Bíblia é entrar num universo de cheiros,
cores, sons e personagens e perceber Deus ativo
no cotidiano humano nada perfeito. Foto: Fotolia

É preciso trazer Deus de volta para o centro da vida. Não falo isso pensando somente nas pessoas não cristãs, mas, sobretudo, na igreja. Kenda Creasy Dean, pesquisadora do seminário da Universidade de Princeton, também parece pensar assim. Em seu livro publicado em 2010, Almost Christian: What the Faith of our Teenagers is Telling the American Church [Quase Cristão: O que a Fé de Nossos Adolescentes Está Dizendo sobre
a Igreja Americana], ela conclui que a maioria dos jovens norte-americanos não é “plenamente” cristã.

Com base num estudo nacional sobre a relação da juventude com a religião, Kenda mostra que a geração atual na América vive um tipo de cristianismo deísta-ético em que as crenças cristãs são até admiradas, mas têm pouca influência nas decisões diárias. A expressão “quase cristão” foi cunhada por John Wesley em um sermão apresentado em 1741, o que demonstra que esse problema não é exclusivo do nosso tempo. Porém, o que poderia ser feito para reverter o quadro atual?

Creio que o primeiro passo é ensinar a igreja, cada membro, a pensar biblicamente. Isso significa ler as Escrituras com um olhar renovado, procurando compreender sua mensagem e aplicação para nossa realidade. É ler o texto em busca de orientação para a transformação pessoal e do nosso contexto. Isso se faz necessário especialmente na sociedade contemporânea, marcada por uma realidade tecnológica e urbana, em que o relato bíblico soa como irreal.

O antigo Israel também precisou redescobrir a leitura da Bíblia. Depois de décadas no exílio babilônico, o povo havia perdido a capacidade de compreensão do texto bíblico, tanto pela linguagem quanto pela perda de identidade como nação. Quando as Escrituras foram novamente abertas em Jerusalém, um processo de reeducação foi necessário para que o povo, em seu contexto, compreendesse novamente sua relação com Deus (Neemias 8:1-12). O resultado foi tão positivo que os israelitas saíram para comer, beber, compartilhar e comemorar.

Embora a Bíblia não apresente uma didática específica para a prática da leitura, esse relato nos lembra de que o estudo significativo das Escrituras sempre vai gerar mudanças pessoais. Para que a leitura das Escrituras seja relevante hoje, o leitor precisa desenvolver a percepção da presença de Deus no cotidiano. E, para que isso aconteça, penso que são necessários três elementos: envolvimento, percepção e confiança.

Envolver-se

A Bíblia não é um livro de doutrina sistematizada para mera absorção de conhecimento, mas um livro de histórias que convida o leitor a entrar no enredo. Parece que esse é o meio favorito de Deus se apresentar à humanidade. Cristo, a revelação maior de Deus, usava histórias/parábolas para ensinar, encarnou-se na história, e o único registro que ele se preocupou em deixar foi escrito na memória dos que viveram as histórias dele ao lado dele. Por isso, como testemunhas das ações de Cristo, os discípulos foram comissionados a contar o que viram e ouviram (Atos 1:8; 1 João 1:1-3).

Apesar de os livros terem se popularizado nos últimos séculos, grande parte das sociedades continua transferindo oralmente sua cultura por meio de histórias. Portanto, nada é mais atual do que as narrativas bíblicas. É preciso, porém, deixar de abordá-las friamente, sem envolvimento, apenas como um conjunto de sintaxes e morfologias.

Ler a Bíblia, portanto, é ser convidado a entrar num universo de cheiros, cores, sons e personagens; é viver dramas e tramas; é emocionar-se diante do milagre; é revoltar-se com a indiferença e a injustiça; é também enojar-se das atrocidades descabidas de uma sociedade bruta; é questionar-se; enfim, é viver a história e perceber como Deus está intencionalmente ativo no cotidiano humano nada perfeito.

Perceber

Foto: Fotolia
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Ao ler a Bíblia envolvendo-se com o enredo, você percebe que Deus aparece nas festas, nas questões políticas, nas necessidades diárias, nos dramas de família, na angústia da doença, nas dúvidas filosóficas. O passado e o presente ensinam como reconhecer a presença e a atuação de Deus não apenas no contexto distante dos profetas bíblicos, mas em seu contexto, na sua casa, na sua cidade, no seu país.

Esse tipo de leitura da Bíblia nos desperta para a realidade de que muitas vezes o sagrado se manifesta nas ruas mal sinalizadas e barulhentas das cidades, nos caminhos quietos do interior, assim como aconteceu no distante Israel antigo. É no cenário das pessoas comuns, e até mesmo em seus costumes pagãos, que Deus aparece em ação, como nos escritos bíblicos. Dessa maneira, você pode redescobrir que a história bíblica tem continuidade hoje na vida do homem comum e que Deus continua vivendo (Mateus 1:23) e agindo entre nós (Efésios 4:6). O crescimento acontece quando entendemos as histórias bíblicas como um espelho da realidade atual. Assim, a experiência espiritual passa a ser real porque você estará sensível para enxergar Deus de modo presente, atuante, transformador, aqui e agora.

Confiar

Mais do que conhecimento, a Bíblia nos oferece contato com o Deus que se revela poderosamente por meio dela. Ao ler sobre as ações dele, compreendemos alguma coisa do mistério de sua existência. Por vezes, você ficará chocado com as ações divinas, positiva ou negativamente (João 8:1-8; Atos 5:1-11), sem palavras para explicar. Mas, seja qual for sua reação, será sempre um passo na direção do conhecimento de Deus e de si mesmo. Essa intimidade não ultrapassará a barreira do mistério porque jamais compreenderemos Deus completamente. A fé acontece não somente pelo conhecimento racional ou lógico, processo em que todas as dúvidas são resolvidas, mas pela confiança em resposta de amor.

A leitura da Bíblia proporciona a oportunidade de caminhar com Deus na história e redescobrir a caminhada com ele em nossa própria história. É experimentar uma jornada ampla de amadurecimento espiritual, processo que se inicia com a descoberta do significado do texto, de como Deus revela a vontade dele por meio da Bíblia e, por fim, como essa revelação transforma nossa visão da vida.

Dessa forma, Deus se apresenta real no cotidiano da vida da dona de casa, do trabalhador que enfrenta os ônibus mal conservados e lotados, do rico empresário em seu carro blindado, do artista e sua sensibilidade, do jovem em seu universo virtual, do lavrador e do skatista. A prática da leitura da Bíblia tem o potencial de sensibilizar o homem para a presença e atuação de Deus no cotidiano comum em que ele experimenta todas as grandes emoções de ser humano.

Paulo Cândido é doutor em Ministério e missionário no Oriente Médio

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