Novas fronteiras

Calebes vão usar rede social exclusiva para interagir e engajar novos voluntários

A Batalha da Normandia é um episódio marcante da II Guerra Mundial. Naquela ocasião, em junho de 1944, cerca de 155 mil homens dos exércitos dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá ­lançaram-se nas praias da Normandia, região francesa situada nas costas do Canal da Mancha. Eles iniciaram uma operação que culminaria com a liberação da França do domínio nazista e, posteriormente, daria fim a uma guerra que espalhou terror no mundo inteiro. A ação bemsucedida contou com o apoio de mais de um milhão de soldados, que deram suporte pelo mar e por meio de aviões.

Calebes vão usar rede social exclusiva para interagir e engajar novos voluntários. Foto: Cláudio Stering
Calebes vão usar rede social exclusiva para interagir e engajar novos voluntários. Foto: Cláudio Stering

No Brasil, 70 anos depois desse episódio, um novo exército com mais de 44 mil pessoas também se envolverá em uma batalha, no verão de 2015, na linha de frente contra o mal e a desesperança, e contará com mais de um milhão de apoiadores. Mas qualquer analogia entre o famoso Dia D e a Missão Calebe termina aqui. Há diferenças cruciais em outras comparações. Enquanto os soldados aliados usavam armas e bombas, os voluntários do projeto usam Bíblias, ações comunitárias e agora aplicativos de redes sociais. Os soldados pretendiam terminar uma guerra; os calebes estão participando de um conflito que já dura milênios e deve ter seu desfecho em breve.

Há dez anos …

A origem da Missão Calebe é contada a partir de Cordeiros, cidade baiana com 7 mil habitantes, a 662 km de Salvador. Foi deste município que partiu a ideia de reunir jovens estudantes para um projeto radical de evangelismo: trocar as férias por trabalhos comunitários e missionários. “Para muitos, o plano parecia uma loucura. Mas nós queríamos dedicar os primeiros dias do ano novo para Deus”, afirmou a voluntária Estatielma Caires, que teve a ideia com dois amigos.

A primeira turma reuniu 26 jovens de várias igrejas e a doação de alguns quilos de alimentos. A vontade de fazer a diferença levou os missionários, no começo de 2006, para Guanambi, BA, a 796 km de Salvador. “Foi surpreendente! Jovens que estavam espiritualmente desanimados encontraram um propósito para a vida e para o exercício da fé”, relembra a pioneira do projeto.

A iniciativa desses jovens chamou a atenção da liderança da Igreja Adventista. Logo o projeto foi abraçado pela organização, propondo que a juventude nordestina trocasse as férias pela evangelização e pelo serviço ao semelhante. E foi essa conexão entre a compaixão pelas pessoas e o propósito missionário que tem levado milhares de jovens do nosso subcontinente a se apaixonar pelo projeto.

“Estamos vivendo tempos revolucionários”, afirmou, em artigo recente na Revista do Ancião, o pastor Areli Barbosa, coordenador do projeto para oito países sul-americanos. “Os combatentes desta época são os jovens. Eles buscam um modelo de liderança para seguir e uma bandeira para abraçar.”

As palavras do pastor Areli encontram base em uma surpreendente estatística. Prestes a completar dez anos de movimento, a Missão Calebe consegue arregimentar anualmente quase 100 mil jovens sul-americanos dispostos a doar o tempo de férias escolares para salvar e servir. É um gesto que se materializa em limpeza de ruas, reforma e construção de casas, doação de sangue, ensino gratuito de idiomas,organização de atividades recreativas para crianças e outras iniciativas que encantam as comunidades.

Conectados

Esse espírito de doação e solidariedade é uma das características marcantes da juventude atual. Para isso, eles contam com recursos da tecnologia e da comunicação móvel, que dão a eles a sensação de poder mudar a realidade à sua volta. Uma pesquisa do Ibope para a Fundação Telefônica, divulgada recentemente, revelou que 70% dos jovens brasileiros fazem tudo na rede com a ajuda do celular. Mais que isso: os jovens têm se engajado cada vez mais pela web. Os dados mostraram que um em cada três jovens brasileiros conectados à internet usa a web em mobilizações sociais.

O perfil dessa juventude pode ser personalizado em voluntários como o baiano Diego Trindade. Formado recentemente em Direito, ele participou por três anos da Missão Calebe. Diego usa as redes sociais para mobilizar a juventude e convencer os jovens a se dedicarem a esse compromisso missionário. As redes são um meio de reunir jovens como a sergipana Lícia Silva de Carvalho, 20 anos, estudante de Medicina. Em sua primeira experiência como missionária, ela e mais quatro jovens foram a Paripiranga, cidade baiana sem presença adventista, vizinha a Sergipe, a 366 km de Salvador. Hoje existe uma igreja adventista nesse município. “Dedicar as férias para Deus e ver um resultado como esse é algo que não tem preço”, afirma Lícia.

O poder das conexões sociais pela web motivou a sede sul-americana da Igreja Adventista a lançar um aplicativo da Missão Calebe. Conhecida como Terra de Calebe, a primeira rede social adventista nasceu na plataforma mobile oferecendo vários meios de interação entre os voluntários da campanha. Eles podem acompanhar dados e compartilhar fotos e notícias, além de conhecer pontos da Missão Calebe espalhados pelo país. “O grande diferencial desse aplicativo é que ele conecta os calebes não só nas férias, mas também durante o resto do ano”, disse o gerente de estratégias digitais da denominação, Rogério Ferraz. Com o aplicativo, os calebes continuarão a ter experiências transformadoras na vida real e poderão compartilhar suas impressões e mobilizar novos voluntários por meio de uma ferramenta virtual.

Movimento missionário

O investimento da Igreja Adventista nessa experiência missionária da juventude tem levado a respostas impressionantes para outros desafios. Em 2011, a sede mundial delegou ao Ministério Jovem e ao Serviço Voluntário Adventista a criação de um projeto evangelístico de um ano inteiro, inspirando os jovens a dedicar esse período indo morar em outra cidade para lançar as bases para o surgimento de uma comunidade adventista. Foi dessa experiência que resultou o projeto Um Ano em Missão. Na América do Sul, 19 jovens sul-americanos foram a Montevidéu, capital do Uruguai, com o desafio de plantar duas congregações em 2014.

Estatielma Caires, pioneira da Missão Calebe, adiou o casamento para servir como missionária no Uruguai. Foto: Danieli Maciel
Estatielma Caires, pioneira da Missão
Calebe, adiou o casamento para servir como missionária no
Uruguai. Foto: Danieli Maciel

Entre os jovens estava Estatielma, pioneira da Missão Calebe. Ela foi escolhida em um momento especial de sua vida, quando se preparava para o casamento. Em conversa com o noivo, Leonardo Alves da Silva, resolveram adiar o casamento para depois do projeto. “A experiência foi incrível, porque senti o cristianismo na prática, sendo desafiada a aprender um novo idioma e me adaptar a uma nova cultura, e ainda assim pude testemunhar milagres de Deus acontecendo todos os dias”, disse Estatielma. Encerrada a experiência, ela conseguiu, enfim, realizar o sonho do casamento, no dia 30 de novembro, em uma bela cerimônia à beira-mar, em Porto Seguro, BA. Depois de mais um sonho realizado, Estatielma está pronta para voltar a se envolver em campanhas evangelísticas. “Vou continuar na missão, agora com uma família.”

Heron Santana é assessor de comunicação da Igreja Adventista para Bahia e Sergipe

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