Toque divino

Os relatos bíblicos sobre milagres descrevem curas reais ou mera restauração psicológica?
Os milagres registrados nos evangelhos combinam curas orgânicas e existenciais. Foto: Fotolia
Os milagres registrados nos evangelhos combinam curas orgânicas e existenciais. Foto: Fotolia

Há pouco tempo, o teólogo norte-americano Craig Keener, com seu estilo exaustivo e análises profundas, escreveu dois volumes sobre milagres, totalizando 1.172 páginas. No livro, intitulado Miracles: The Credibility of the New Testament Accounts (Milagres: A Credibilidade dos Relatos do Novo Testamento), ele defende a tese de que as testemunhas oculares de milagres são fontes dignas de credibilidade, o que nem sempre é levado em conta pelos eruditos. Para o autor, “as explicações sobrenaturais, embora não se apliquem a cada caso, deveriam ser bem-vindas no debate acadêmico”. Keener documenta dezenas de casos recentes de supostas curas milagrosas. Mas será que Deus realmente intervém na nossa realidade?

Médico de Israel

Nos tempos bíblicos, o papel singular de Yahweh, em contraste com os falsos deuses, se manifestou de modo especial na área da saúde. As divindades curadoras desempenhavam uma função significativa entre as nações vizinhas do antigo Israel, o que é atestado pela grande quantidade de orações pedindo curas físicas e restauração da fecundidade agrícola.

Nesse ambiente mágico-politeísta, Yahweh se apresentou como o único Deus curador, o verdadeiro médico divino de Israel (e do mundo). A pedra fundamental da teologia da cura na Torah (primeiros cinco livros bíblicos) é Êxodo 15:22-27, com destaque para uma frase do verso 26: “Eu sou o Senhor que te sara.” Note que, no contexto do êxodo, o assunto da cura aparece antes mesmo do tema do sábado.

Yahweh, que tinha ferido o Egito com poderosas pragas (inclusive suas águas), anuncia que é o único rôpe’ (curador/médico) de Israel, o Deus capaz de curar, manter o bem-estar e suprir as necessidades de seu povo obediente.

No cântico de Moisés, na fronteira da terra prometida, Yahweh novamente faz uma afirmação da sua singularidade/unicidade e absoluta superioridade em face dos deuses falsos e repete o motivo da cura: “Vede, agora, que eu sou, eu somente, e mais nenhum Deus além de mim: eu mato, e eu faço viver; eu firo, e eu saro” (Deuteronômio 32:39). No hebraico, o destaque ao “eu” divino fica ainda mais evidente.

Dando um salto no tempo, Asclépio (nome grego) ou Esculápio (nome romano) não era considerado apenas o grande deus da cura no panteão greco-
romano do tempo de Jesus, mas seus seguidores o cultuavam também como benfeitor, guia, libertador e salvador. Foi preciso um Iatros (Médico) e Soter (Salvador) real e maior do que ele para suplantar a sua influência.

As curas de Jesus tinham alguns paralelos com os relatos de sinais feitos por outros operadores de milagres da época, como o rabino Hanina ben Dossa e Apolônio de Tiana, mas as diferenças eram ainda maiores. O que distinguia Cristo era a sua natureza divinohumana. Ele não era o Messias porque fazia milagres, mas fazia milagres porque era o Messias. Basicamente, não são os milagres que explicam Cristo, mas ele é quem explica os milagres.

Cura real

“Será que Jesus curava mesmo?”, você pode se perguntar. “Suas curas eram físicas ou apenas psicológicas?” Essa mesma questão tem sido discutida pelos profissionais da antropologia médica. Em geral, eles fazem uma diferenciação entre os termos, em inglês, disease e illness – os quais não têm correspondentes com as mesmas nuances em português, mas poderiam ser traduzidos, respectivamente, como “doença” e “estado doentio”. O primeiro termo tem que ver com a parte orgânica, ao passo que o segundo envolve aspectos psicológicos, culturais e espirituais.

Essas duas palavras descrevem o problema. Porém, e quanto à terapia? Para indicar a recuperação da saúde, os antropólogos trabalham com os vocábulos curing (que faz par com disease) e healing (que faz par com illness). Enquanto curing (cura) significa uma resposta para um problema orgânico, healing (restauração/cura) é a solução para a ausência de bem-estar.

Pois bem, a crítica dos antropólogos é que a medicina ocidental moderna costuma focalizar apenas o lado biopatológico. Seu objetivo é levar o corpo a desempenhar bem suas funções. Ela oferece curing, mas nem sempre healing. Já a medicina do antigo Oriente Médio focalizava mais o significado da doença. Seu objetivo era levar a pessoa a um estado de bem-estar. Em síntese, se a medicina de hoje busca as causas, a medicina antiga tratava os sintomas.

Esses insights são importantes, mas, ao situar as curas de Jesus no contexto de uma medicina mais preocupada com o bem-estar, os antropólogos acabam por negar a real dimensão do milagre. Para eles, Jesus apenas trouxe restauração emocional, mas não cura física. Os evangelhos, porém, não dão essa opção. Os milagres neles registrados combinam curas orgânicas e existenciais. Jesus fez mais do que restaurar doentes, reintegrando-os ao seu ambiente; ele ressuscitou mortos, reintegrando-os ao mundo dos vivos. Se Cristo era quem ele dizia ser, não há por que negar o que fez; e, se fez o que reivindicou ter feito, não há por que negar quem ele era e é.

Jesus fez muitos milagres. Cerca de um quinto dos evangelhos é dedicado às suas curas ou às discussões que elas provocaram. Na parte narrativa, essa porcentagem é ainda maior: 38,5%. Os apóstolos deram continuidade ao ministério de cura iniciado pelo seu Mestre. Estudos mostram que o cristianismo primitivo tinha um interesse maior pelo assunto da doença/cura do que as religiões rivais da época, o que tornava a nova fé atrativa e ajudou em sua expansão. Além dos evangelhos, esse nível de interesse se reflete nos documentos cristãos do 2° ao 4° século.

Será que, numa época em que a ciência se tornou o grande oráculo do mundo, numa sociedade em que a medicina consegue trabalhar com células no nível do DNA, ainda podemos falar sobre cura sobrenatural? Sem dúvida, Deus ainda pode curar, se ele quiser. Tendo poder sobre a vida e a morte, ele é a solução para tudo. E o melhor é que o milagre divino é pleno: traz cura orgânica e restauração emocional/espiritual. Ainda hoje, você pode pedir seu toque curador.

Marcos De Benedicto é editor da Revista Adventista

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