Deus não está morto

A questão crucial não é se Deus está vivo ou se está morto. O ponto é: você está vivo ou morto?
Imagem: capa do filme God´s Not Dead (2014)
Imagem: capa do filme God´s Not Dead (2014)

Mais de 130 anos se passaram desde que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche escreveu em A Gaia Ciência, um de seus livros mais lidos, que “Deus está morto. Deus permanece morto. E nós o matamos”. Ao longo desse período, surgiram diversas reações à ideia da “morte” de Deus, desde frases estampadas em camisetas, como a que apresenta na frente “Deus está morto, assinado Nietzsche” e atrás “Nietzsche está morto, assinado Deus”, até decalques para carros, a exemplo da afirmação do conhecido pregador Billy Graham: “Deus não está morto. Falei com ele esta manhã”.

Recentemente, o filme Deus Não Está Morto, lançado no Brasil em agosto de 2014, revisitou a ideia do filósofo alemão, embora sua crítica não estivesse diretamente ligada a ela. A inspiração para o filme veio de relatos e casos legais de diversos jovens cristãos universitários perseguidos por causa de sua fé. Ao refletir sobre as questões propostas pelo enredo, fiquei pensando que talvez aquilo que alguns estão chamando de ateísmo cristão seja mais preocupante do que o “decreto” da morte de Deus. Enquanto ateus dizem que Deus não existe e agnósticos admitem a possibilidade de sua existência, os chamados ateus cristãos vivem como se ele não existisse.

Essas questões me fizeram lembrar duas histórias bíblicas, ambas ocorridas após a ressurreição de Jesus. A primeira é contada com mais detalhes por Lucas (24:13-35; ver Marcos 16:12, 13) e trata sobre os dois discípulos na estrada de Emaús. A segunda é relatada por João (20:11-18), que narra o encontro de Maria Madalena com o “estranho” jardineiro (v. 15). O que existe em comum nos dois relatos é algo que me deixa perplexo: de algum modo, os três personagens dessas histórias estavam se relacionando com um Deus vivo como se ele estivesse morto!

Isso leva meu pensamento para outra direção. A questão crucial não é se Deus está vivo ou se está morto. Absolutamente, não. A Bíblia sequer chega a tocar nesse assunto. Ao contrário, a primeira afirmação bíblica pressupõe a existência de Deus: “no princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1:1). E só existe uma explicação para que Deus estivesse presente no princípio: ele é anterior ao princípio. Mais do que isso, ele é a causa de todas as coisas. O ponto é: você está vivo ou morto? A situação de Maria Madalena e dos dois discípulos era a mesma: embora Jesus tivesse ressurgido dentre os mortos, ele ainda não havia ressurgido no coração deles. Esta é uma questão de vida ou morte.

Finalmente, esses três personagens se depararam com a realidade de um Deus vivo, e alegria indizível explodiu de dentro para fora, como água a jorrar de uma fonte inesgotável. “Verdadeiramente, ressurgiu o Senhor” (Lucas 24:34), disseram eles; “vi o Senhor” (João 20:18), assegurou ela. Ao iniciarmos este novo ano, que a realidade de um Deus vivo faça toda a diferença. De modo mais específico, que a afirmação cristã de que ele está vivo não seja fruto meramente de nossas palavras, mas que se reflita nas nossas ações.

Adenilton Tavares de Aguiar, mestre em Ciências da Religião, é professor de Grego e Novo Testamento na Faculdade de Teologia da Bahia

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  • Karlla Tathiana

    Da primeira vez em que me deparei com a afirmação de Nietzsche de que Deus está morto fiquei chocada e triste. Porém depois passei a refletir no teor de suas palavras e realmente concordo com ele, mas com uma diferença: o tempo do verbo. Deus estava morto sim, Ele morreu, mas foi pra me salvar. Por sua morte tenho vida, e vida eterna. Sem sua morte eu jamais teria esperança. Depois disto, desta conclusão tão simples, mas importante, as palavras do filósofo alemão não me incomodam mais, pois a morte do meu Deus, que eu mesma causei, me mostra como Ele me ama a ponto de me presentear com sua graça. Além do mais, Ele vive eternamente e em meu coração.