Um legado de fé

No ano em que se lembra o centenário da morte de Ellen White, seu legado de fé pode ser fruto de especial reflexão pela igreja
Ilustração: Thiago Lobo
Ilustração: Thiago Lobo

Em 2015, a Igreja Adventista do Sétimo Dia relembra o centenário da morte de Ellen G. White, ocorrida em 16 de julho de 1915. Esse acontecimento suscita uma oportunidade singular para refletirmos sobre a origem, o propósito e a importância de seu legado de fé deixado aos membros da igreja remanescente, conforme Apocalipse 14:12.

A despeito da pouca educação formal, Ellen White foi uma pessoa de notáveis talentos espirituais, que viveu a maior parte de sua vida durante o século 19 (1827-1915). Contudo, por meio de seus escritos, ela continua exercendo um extraordinário impacto sobre milhões de pessoas ao redor do mundo.

Sua primeira visão ocorreu em dezembro de 1844. Durante os 70 anos de seu ministério profético, Deus lhe concedeu cerca de 2 mil sonhos e visões que resultaram em mais de 100 mil páginas de manuscritos, totalizando 25 milhões de palavras. Além disso, ela escreveu mais de 5 mil artigos e 49 livros.

Atualmente, incluindo compilações de seus manuscritos, já foram publicados mais de 150 livros em inglês e cerca de 90 em português. Como parte de seu extenso ministério literário, Ellen G. White é a escritora do gênero feminino mais traduzida em toda a história da literatura humana. Sua obra-prima Caminho a Cristo, que trata da plenitude do viver cristão, já foi publicada em mais de 160 línguas e dialetos.

Seus escritos abrangem uma ampla variedade de temas, incluindo religião, educação, saúde, aconselhamento familiar, relações sociais, evangelismo, profecias, ministério de publicações, nutrição, liderança e administração, entre outros. A experiência dela como escritora revela sua dedicação à tarefa de registrar as orientações divinas. Muitos de seus manuscritos foram produzidos sob as mais desafiadoras circunstâncias e debilidades físicas. Ela escreveu a bordo de navios e trens, em casa e no exterior, sob o frio ou calor intenso, abatida pela falta de sono e, por vezes, debilitada com dores profundas.

Ela possuía uma familiaridade incomum com a voz de um anjo do Senhor que, com frequência, lhe dizia: “Escreva as coisas que lhe são reveladas”. “Obedeci; e, como resultado, não demorou muito para que pudesse escrever com relativa facilidade”, ela relatou. “Quem me disse o que devia escrever? Quem me firmou a mão direita, possibilitando que eu usasse a pena? Foi o Senhor” (3 Mensagens Escolhidas, p.34). No exercício de seu ministério, Ellen G. White esteve em comunicação permanente com mensageiros celestiais a fim de conduzir pessoas aos pés de Jesus.

Ao longo da história do povo de Israel, Deus se comunicou com ele por meio de profetas e apóstolos. No entanto, nestes últimos dias, tem falado por intermédio dos testemunhos do seu Espírito. É importante destacar que “nunca houve um tempo no qual Deus instruísse mais seriamente seu povo a respeito de sua vontade e da conduta que este deve ter do que agora” (Testemunhos para a Igreja, v. 5, p. 661).

Quando analisamos a amplitude do conteúdo de seus escritos, podemos identificar cinco importantes propósitos:

1) Exaltar as Escrituras e conduzir a atenção do povo de Deus de volta à sua Palavra. “Por meio dos testemunhos o Senhor se propõe advertir, repreender e aconselhar seus filhos, e impressionar-lhes a mente com a importância da verdade de sua Palavra” (Testemunhos para a Igreja, v. 5, p. 664).

2) Esclarecer e aplicar os princípios bíblicos para a vida diária. “Se tivessem feito da Bíblia o objeto de seus estudos, com o propósito de atingir o padrão bíblico e a perfeição cristã, não necessitariam dos Testemunhos” (Testemunhos para a Igreja, v. 5, p. 664).

3) Repreender o pecado e chamar o povo para obedecer a Deus e seus mandamentos. “Mas o Senhor reprova e corrige o povo que professa guardar sua lei. Aponta-lhes os pecados e manifesta-lhes a iniquidade, porque deles deseja separar todo pecado e impiedade, a fim de que aperfeiçoem a santidade em seu temor. […] Deus os repreende, reprova e castiga, de modo a serem purificados, santificados, elevados, sendo afinal exaltados a seu próprio trono” (Testemunhos para a Igreja, v. 5, p. 662).

4) Conduzir o povo a Jesus, apresentando-lhes conforto e esperança. “Falo ao nosso povo. Se vos aproximardes de Jesus e procurardes honrar vossa profissão mediante uma vida bem ordenada e conversação santa, vossos pés serão guardados de se desviarem para as veredas proibidas. Se tão somente vigiardes e continuamente estiverdes em oração, se fizerdes tudo como se estivésseis na presença imediata de Deus, então estareis livres de ceder às tentações, e podereis esperar ser conservados puros, imaculados e santos até o fim” (O Lar Adventista, p. 338).

5) Preparar um povo para os últimos dias da história visando à segunda vinda de Jesus Cristo. “Sou instruída a dizer aos adventistas do sétimo dia em todo o mundo: Deus chamou-nos como um povo para sermos-lhe particular tesouro. Ele designou que sua igreja na Terra esteja perfeitamente unida no Espírito e conselho do Senhor dos exércitos até o fim do tempo. […] Sou animada e beneficiada ao compreender que o Deus de Israel ainda guia seu povo e que continuará a ser com ele até ao fim” (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 397, 406).

Como ser humano, Ellen G. White também teve fraquezas. Mas, ao olharmos para trás, podemos comprovar, por meio de sua vida e ministério, que ela foi uma pessoa extraordinária, de grande fibra espiritual, uma mensageira que trouxe conhecimento para o benefício de milhões de pessoas a fim de encontrarem o caminho da salvação e da vida eterna.

Ao vislumbrar o desfecho de sua vida, ela afirmou: “Abundante luz tem sido comunicada a nosso povo nestes últimos dias. Seja ou não poupada a minha vida, meus escritos falarão sem cessar, e sua obra irá avante enquanto o tempo durar. Meus escritos são conservados em arquivo no escritório, e, mesmo que eu não deva viver, essas palavras que me têm sido dadas pelo Senhor terão vida ainda e falarão ao povo. […] E, quando ele achar conveniente deixar que eu descanse, suas mensagens terão ainda mais força vital do que quando vivia a débil instrumentalidade por meio de quem elas foram transmitidas” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 76, 77).

Renato Stencel é diretor do Centro White no Unasp, campus Engenheiro Coelho, SP

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