Memória

Data lembra os 70 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz

Relembrar a história é uma forma de evitar novos extermínios, especialmente num contexto em que ganha força uma nova onda de antissemitismo na Europa
27 de janeiro foi instituído como o Dia da Memória das Vítimas do Holocausto. Foto: James Ackerley/Flickr
Há 15 anos foi instituído o Dia da Memória das Vítimas do Holocausto. Libertação de prisioneiros em Auschwitz, no dia 27 de janeiro de 1945, se tornou um marco do fim do extermínio perpetrado pelo nazismo. Foto: James Ackerley/Flickr
“Havia um cheiro tão forte que era impossível aturar por mais de cinco minutos. Meus soldados não conseguiam suportá-lo e me imploraram para que fôssemos embora. Mas tínhamos uma missão a cumprir”. As palavras de Anatoly Shapiro, oficial do exército soviético que abriu os portões do principal campo de extermínio nazista em 27 de janeiro de 1945, foram relembradas nesta terça-feira em reportagem especial publicada pela BBC Brasil. Os 70 anos da libertação de prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, foram marcados por celebrações ao redor do mundo, que lembraram o fim do Holocausto e os horrores praticados durante a 2ª Guerra Mundial pela Alemanha nazista. Há 15 anos, o dia 27 de janeiro se tornou o Dia da Memória das Vítimas do Holocausto.

Em 2015, a data adquire um significado ainda maior diante do novo cenário que vem se desdobrando na Europa com a crescente onda de antissemitismo e intolerância contra os judeus. Na abertura do 4° fórum “Let My People Live”, organizado em Praga, na República Tcheca, por ocasião do 70º aniversário da libertação do complexo de Auschwitz-Birkenau, o presidente do Congresso Judaico Europeu (CJE), Moshe Kantor, advertiu que “a comunidade judaica da Europa está muito próxima de um novo êxodo” e que os judeus estão assustados com o islamismo radical. Segundo divulgou o jornal português Diário de Notícias, ele classificou o ‘jihadismo’ como um movimento “muito próximo do nazismo”.

Números da barbárie

O nazismo deixou marcas indeléveis na história. Estima-se que somente em Auschwitz tenham sido assassinadas 1,6 milhão de pessoas – a maioria judeus. As instalações foram preservadas para que a memória do Holocausto leve as futuras gerações a não repetir a barbárie. Hoje esses palcos de extermínio são populares destinos turísticos. Somente o campo de concentração de Auschwitz recebe mais de um milhão de visitantes todos os anos. Imagens feitas com um drone e que foram publicadas pela BBC nesta semana mostram como está hoje o antigo campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau.

Já foi pauta

Visitar os antigos campos de concentração é uma experiência marcante. É impossível não ficar sensibilizado diante das provas que mostram um pouco do que foi o Holocausto. A seção “Já foi pauta”, uma nova editoria que será oferecida ao leitor do site da RA, resgata um relato publicado na edição de novembro de 2004 da Revista Adventista, no qual o teólogo Alberto Timm – diretor do Centro de Pesquisas Ellen G. White no Unasp, campus Engenheiro Coelho, na época, e atualmente diretor associado do White Estate – fala sobre as impressões que teve ao conhecer alguns campos de extermínio nazistas na Polônia.

“Eu participava de uma conferência bíblica para os pastores adventistas daquele país, e os organizadores do evento levaram-me no dia 10 de setembro de 2004 para conhecer os enormes complexos onde funcionaram, entre 1940 e 1945, esses terríveis campos de concentração nazistas. Durante toda a visita, eu simplesmente não conseguia controlar a profunda tristeza que de mim se apossou ao contemplar com meus próprios olhos evidências tão tangíveis do que seres humanos podem fazer quando se transformam em agentes satânicos.

Após assistirmos a um documentário sobre a história e as atrocidades lá praticadas, chegamos ao portão de entrada, acima do qual ainda aparece a irônica inscrição em alemão “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta). Só que aquele portão não conduzia à liberdade, e sim, ao sofrimento e à morte. Grande parte dos prisioneiros levados para Auschwitz era morta nas câmaras de gás, logo ao chegarem, sob a promessa de que apenas tomariam um ligeiro banho coletivo para serem desinfetados de possíveis contaminações ocasionadas pela viagem de trem que os levara àquele lugar. Os corpos dos mortos eram, então, incinerados em grandes fornos, e suas cinzas eram jogadas em um rio ou usadas como fertilizantes na agricultura. A maioria dos prisioneiros não executados nas câmaras de gás morria lentamente em decorrência da fome e do trabalho escravo.

Além de muitas torturas físicas e de outras formas de execução, experiências genéticas desumanas eram realizadas tanto com mulheres judias, para descobrir uma forma rápida de tornar estéreis as mulheres eslavas, quanto com crianças gêmeas, com o propósito de encontrar uma forma de levar a “raça superior” ariana a se multiplicar através de filhos gêmeos. Drogas nocivas eram testadas em prisioneiros vivos. Corpos de mortos eram vendidos para uso didático em instituições de pesquisas médicas. Toneladas de cabelo de mulheres mortas eram vendidas às indústrias têxteis. Cerca de 90% das vítimas eram judeus, mas muitos poloneses, ciganos, soviéticos, iugoslavos e pessoas de outras nacionalidades, de outros grupos étnicos e religiosos também foram mortos nesses campos de concentração”, descreve Alberto Timm.

Para ele, “Auschwitz é um símbolo de orgulho étnico, de inveja, de ódio e de vingança, bem como uma das mais dramáticas expressões históricas do grande conflito cósmico entre o bem e o mal”.

“Nesse conflito, não podemos continuar apáticos e indiferentes. A plena dedicação nazista aos ideais satânicos deveria nos desafiar, como indivíduos e como Igreja, a uma dedicação plena aos ideais divinos. Num mundo em que Satanás e seus anjos possuem tantos agentes humanos que lhes são leais, não seria este o momento oportuno de você e eu nos dedicarmos incondicionalmente à proclamação do ‘evangelho da graça de Deus’ (Atos 20:24)? No início de 1945 os exércitos soviéticos libertaram Auschwitz, e Deus deseja usar-nos hoje como Seus soldados na importante missão de libertar os pecadores ‘do império das trevas’ e transportá-los ‘para o reino do Filho do Seu amor’”, conclui. [Márcio Tonetti, equipe RA / Com informações da BBC Brasil, Diário de Notícias, portal R7 e Reuters]

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    Este é um assunto que ainda nos toca profundamente e de forma tão dolorida quanto há 70 anos. Outro dia, lendo O Diário de Anne Frank, fiquei a imaginar como seria viver prisioneira, escondida, com medo, mas com esperança… Pensando bem é assim que vivemos neste mundo: o diabo nos fez prisioneiros do pecado e de todo mal que ele acarreta em nossas vidas. Mas há uma esperança que se faz certeza na tão sonhada volta de Jesus. Não tenho dúvidas de que o nosso Deus está ansioso para nos libertar deste campo de concentração que se tornou nosso mundo, para nos levar para um lugar maravilhoso de vida e alegria. Oh, que chegue logo este dia!