Dois anos depois

Sobreviventes do incêndio na Boate Kiss ainda tentam se recuperar do trauma

Para Débora Parode de Assumpção, está sendo um recomeço mais perto de Deus  

Foto: ASN
Foto: ASN
Diversas homenagens e manifestações na cidade de Santa Maria lembraram nesta semana os dois anos do incêndio que deixou 242 mortos e mais de 630 feridos na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013. Ao longo da última terça-feira, os moradores do município gaúcho se uniram aos familiares e amigos das vítimas em caminhadas, orações e cultos. Dois anos depois do ocorrido, cerca de 400 sobreviventes ainda necessitam de acompanhamento médico e psicológico. Para a maioria, é difícil falar sobre aquela que foi considerada uma das piores tragédias registradas nas últimas décadas no país.

Débora Parode Assumpção, de 26 anos, foi uma das sobreviventes. A estudante conta que precisou se afastar das atividades acadêmicas por conta do tratamento. Hoje, embora tenha retomado o curso de Estética e Cosmética que realiza na Ulbra (Universidade Luterana do Brasil), alguns traumas ainda permanecem. “Esquecer não tem como. Às vezes escuto barulho de ambulância e já fico apavorada”, disse em entrevista ao site da RA nesta quarta-feira.

Mas a jovem, que recentemente também perdeu a mãe, vítima de câncer, tenta encontrar na fé a motivação para prosseguir. Débora é adventista do sétimo dia, fé que também era professada por dona Sonia Assumpção.

Já foi pauta

Como TCC, Rafael Acosta escreveu livro-reportagem baseado em histórias de sobreviventes do incêndio da Boate Kiss.
Livrorreportagem, apresentado como trabalho de conclusão de curso, narra a história e o drama de sobreviventes e familiares das vítimas da tragédia em Santa Maria.
A história da sobrevivente adventista foi contada pelo jornalista Rafael Acosta na edição de fevereiro de 2014 da Revista Adventista. Acosta, que também é natural do Rio Grande do Sul, acompanhou de perto o contexto pós-tragédia. Ele é autor do livrorreportagem 242 – O Quarto Vazio, apresentado como trabalho de conclusão de curso em 2014. A obra, ainda não publicada, traça o perfil de algumas vítimas fatais e sobreviventes do incêndio, procurando mostrar as causas do acidente, o drama das famílias, bem como as implicações da tragédia no cotidiano da comunidade de Santa Maria.

A despeito de o livro não ter um viés religioso, Rafael diz que um dos episódios mais marcantes para ele, ao longo dos cerca de 12 meses que passou levantando dados, foi quando entrevistou uma mãe evangélica que perdeu um filho no incêndio. “No mesmo momento do incêndio, sem saber o que se passava, ela orou pedindo que Deus cuidasse do filho. O rapaz, que já havia estudado em um colégio adventista, não costumava frequentar aquele tipo de ambiente, mas acabou indo por curiosidade naquele dia na Kiss. Duas horas depois ela receberia a notícia de que o filho tinha morrido na tragédia. Aquilo foi muito marcante para mim”, relembra.

Foi durante esse período de investigação e coleta de informações que Rafael conheceu Débora Parode Assumpção. Embora ela não seja citada no livro, sua história chamou a atenção do jornalista, a ponto de ele retratar a história na RA. Segundo observa no texto, naquela madrugada fatídica, Débora não era a única adventista no local do incêndio.

“O cenário era de guerra. Corpos nas calçadas, gente passando mal, pessoas desesperadas. No meio dos mortos, uma garota fazia massagem cardíaca numa loira estendida no chão. As duas se conheciam da Igreja Adventista do Sétimo Dia, mas apenas Débora Parode Assunção, que estava inconsciente, ainda frequentava os cultos. A outra havia sido desbravadora quando mais nova, porém não mais ia à igreja. Casualmente, as duas foram à balada mortal e acabaram se encontrando ali, no chão do estacionamento, em frente à casa noturna”, narra o jornalista, autor do livro-reportagem 242 – O Quarto Vazio, desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso no ano passado.

Moradora de uma cidade universitária em que mais de 16% da população têm entre 15 e 34 anos, Débora era uma jovem ativa na igreja. Ela frequentava uma pequena congregação onde cuidada de uma classe da Escola Sabatina para crianças, “tarefa que cumpria com dedicação, pois gostava dos pequenos e conhecia a importância do cargo”, segundo menciona o texto.

Débora afirma que só foi àquele lugar porque estava passando por um momento difícil. “Recentemente, havia terminado o namoro. Estava triste com o fim do relacionamento, e as amigas, com o propósito de ajudá-la naquele comento difícil, a convidaram para ir à festa da Kiss. Débora se sentia dividida. Sabia que a danceteria não era o tipo de lugar apropriado para cristãos. Mesmo assim, teve vontade de ir. Depois da insistência das amigas, cedeu e aceitou o convite. Já na balada, por volta das 3 horas da manhã, enquanto se divertia, o incêndio começou. Ela estava longe do palco e não viu o fogo. Mas, quando notou a fumaça, tentou escapar. Durante a fuga, ficou presa entre a multidão. Os frequentadores que estavam à sua frente foram barrados à saída, impedindo a passagem dos outros, e os que vinham atrás a espremiam. A pressão foi tão grande que ela sentiu como se suas costelas fossem quebrar. Não tinha como se movimentar, estava presa. ‘Jesus, tira-me daqui, eu não quero morrer!’, gritava, enquanto a fumaça se espalhava pelo prédio. Sem perceber, inalou a substância tóxica e desmaiou.

Ela foi salva pelo segurança Rodrigo Moura Ruoso, que a tirou do meio da aglomeração. Do lado de fora da boate, após recobrar a consciência, sofreu uma parada cardiorrespiratória. A ex-desbravadora que estava por perto realizou os primeiros socorros. Débora sobreviveu”, descreve a reportagem.

Assista também ao vídeo:

Desde a repercussão da matéria publicada no periódico, a universitária tem sido convidada para contar o seu testemunho em várias regiões do Brasil. Ela já visitou dezenas de igrejas nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Bahia, a fim de contar a sua experiência e alertar outros jovens: “Prazeres temporários não valem a pena”. “Deus me concedeu uma segunda chance. Tudo o que eu puder fazer para ajudar outros com meu testemunho, eu vou fazer”, conclui. [Márcio Tonetti / Equipe RA]

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