A ditadura da velocidade

O imperativo da velocidade na sociedade e na cultura. Para pesquisador da área de cibercultura, longe de ser algo isento e imune, a aceleração da vida se perpetua como uma espécie de “neodarwinismo”
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Há décadas tornou-se comum uma incômoda sensação de impotência diante do forte ritmo diário determinado pela dinâmica da sociedade contemporânea. Como afirmou o sociólogo Zygmunt Bauman, em Medo Líquido, essa cultura da pressa “estimula os caminhantes a correr e os corredores a aumentar a velocidade”, nos assediando de todos os lados, seja ao cobrar mais produtividade no trabalho – e ao mesmo tempo dar conta das responsabilidades domésticas –, seja ao exigir mais dinamismo nas interações através das redes sociais. Mesmo em países considerados mais lentos, a exemplo do Brasil, como classificou o psicólogo social norte-americano Robert Levine, em A Geography of Time (Uma Geografia do Tempo) – fruto de um estudo que comparou as noções de tempo em 31 países na década de 1990 –, temos a impressão de estar constantemente lutando com o relógio. Em nações mais desenvolvidas, como os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão, esse frenesi, evidentemente, é ainda maior.

Embora esse mundo veloz tenha trazido avanços em várias áreas (no âmbito dos transportes, das comunicações, da medicina, da astrofísica etc.), a aceleração da vida também veio acompanhada de efeitos colaterais. Longe de ser algo isento e imune, a velocidade surge como uma nova forma de violência, que, embora silenciosa, é implacável, conforme acredita Eugênio Trivinho, professor e pesquisador da PUC-SP e coordenador geral do Centro Interdisciplinar de Pesquisas em Comunicação e Cibercultura (CENCIB) nessa Universidade. Uma evidência disso é que muitas patologias típicas desses novos tempos, entre as quais podemos citar o estresse, a depressão, a ansiedade crônica, a Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), entre outras, vem enchendo consultórios, principalmente nas metrópoles e cidades médias adjacentes. É o que o autor chama de dromopatologias, na obra A dromocracia cibercultural: Lógica da vida humana na civilização mediática avançada (Editora Paulus, 2007).

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As exigências da lógica dromocrática (“dromos” é um prefixo grego que significa “veloz”, em tradução livre) também levaram a uma explosão do número de livros, plataformas virtuais, aplicativos e consultorias que prometem ajudar as pessoas no gerenciamento do tempo e da vida, de modo a que conciliem trabalho e lazer e sejam mais felizes.

Na entrevista a seguir, Eugênio Trivinho faz uma leitura crítica daquilo que chama de dromocracia cibercultural, desdobrando alguns de seus efeitos, e aponta caminhos alternativos para não sucumbirmos diante do ritmo frenético exigido pelas novas tendências da época.

O que é a dromocracia cibercultural?

É um conceito que abrange a época em que vivemos. Trata-se de um regime invisível, articulado pelo uso diuturno das tecnologias digitais e interativas no espaço da produção e de lazer. Essas tecnologias e seus modos de utilização regram um mundo marcado pela lógica da velocidade. Nesse sistema, que vivemos sem ter muita consciência do que se passa, ser veloz, portanto “dromoapto”, é uma condição imperativa para se alcançar resultados que são apreciáveis pelo mundo ordenado segundo essa lógica.

É crescente o número de aplicativos, sites, livros e consultorias que prometem ajudar as pessoas a gerenciar melhor o tempo. Esse “mercado do tempo” é um dos reflexos da dromocracia cibercultural?

Não há dúvida. Mas, para entender como surge essa necessidade social, precisamos compreender algumas questões de fundo, que se referem à origem última, ao “útero” fenomenológico, digamos assim (com a licença da palavra) – que é sempre social-histórico –, das realidades vigentes. Como é que surge um processo, uma tendência ou valor que acaba por se colocar como necessidade objetiva – no caso, a necessidade de ter mais tempo, de ser veloz, de fazer tudo com competência, de articular trabalho e lazer e ser feliz? Essa é uma indagação que diz respeito àquilo que chamarei de forja do flagelo humano – forja no sentido da criação, da origem de um fenômeno ou de uma tendência, não no sentido pejorativo.

Para contextualizar isso e chegarmos depois à dromocracia cibercultural, talvez sejam interessantes alguns exemplos práticos. Como princípio, consideremos, antes de tudo, para todos os casos, a vigência de uma determinada condição de vida que é transformada num flagelo humano (material ou imaterial) “explorável” e que, por isso, gera um conjunto de soluções capitalizadoras para resolvê-lo. Evoquemos a distribuição de alimentos danosos à saúde, como os burgers e fast-foods. Todos esses alimentos de consumo ligeiro fomentam uma necessidade social que será explorada por outra indústria: a dos orgânicos. Estes alimentos formam uma tendência de mercado baseada legitimamente no discurso do bem ou ganho para a saúde, enfim, de que as pessoas precisam e merecem ser mais saudáveis.

Um segundo exemplo é o caso de uma metrópole estressante, como São Paulo, cujo cenário leva à multiplicação do número de spas. Contextos assim, produtores de elevados índices de saturação mental e cansaço crônico, influenciam claramente o surgimento ou distribuição social de vários tipos de consultórios e psicoterapias que passam a ser comumente vistos como esperança de um antídoto que contribua para as pessoas trilharem um caminho de alívio, de neutralização mínima do incômodo.

Diante de um conjunto desfavorável de fatores, o capital e sua subjetividade institucionalizada sempre inventam uma compensação para solucionar e, assim, “esconder” o fato de que eles estão – concordemos ou não com isso – “explorando” ou, melhor dizendo, extraindo o máximo de divisas e horizontes do flagelo humano socialmente estabelecido.

Da mesma forma, se a aceleração da vida social se coloca como ameaça de perdição psíquica, não apenas de perda de tempo; se ela ameaça a perda do fio condutor do equilíbrio das ações, tendo em vista resultados que é preciso atingir e não se consegue porque a vida está mais acelerada do que a capacidade de ordená-la, então surgem cursos, consultorias, sites, aplicativos e todo um conjunto de soluções estratégicas e práticas para ensinar as pessoas a se concentrar e ter foco contínuo, bem como a ser mais seletivas, rápidas e produtivas na utilização do tempo diário. Todos esses fatores têm a ver com a aculturação típica de um “novo tempo”, um novo “espírito de época”, com treinamento numa condição dromocratizada, em correspondência a uma necessidade de mercado, de ensinar às pessoas um caminho de habilitação que as capacite a serem mais competentes no trabalho e satisfeitas na vida individual e familiar.

Quanto mais desenvolvido é um país, mais ele é afetado também pela lógica dromocrática?

Com certeza. Essa relação é direta e depende apenas de uma pesquisa empírica para obtermos resultados mais precisos sobre a realidade nacional de que estejamos tratando. Embora a dromocratização seja planetária, podemos considerar que ela ocorre de modo contextualizado e específico tendo em vista a cultura em jogo. Não há como confirmar que a natureza das exigências dromocráticas feitas aos sujeitos nos Estados Unidos seja a mesma da Alemanha ou do Japão, embora todos sejam países industrializados (no caso dos Estados Unidos e da Alemanha, bastante pós-industrializados até). Ainda que a dromocratização ocorra como um fator atinente à aceleração da vida em todos os setores, ela depende muito da cultura peculiar do espaço nacional.

No livro A dromocracia cibercultural: Lógica da vida humana na civilização mediática avançada, o senhor considera a velocidade com uma forma de violência. Como essa nova modalidade de violência se manifesta?

A época diz assim: se você quer ser um sujeito à altura das exigências da época, deve incorporar os ingredientes compatíveis com a satisfação das tendências majoritárias. Essas exigências vêm de todos os lados (do supervisor de RH, do vizinho, do colega de faculdade, da alteridade virtual etc.). Tornou-se normal que as pessoas e sistemas “cobrem”, por exemplo, qual é o seu perfil no Facebook ou se você tem uma conta no Skype; como antes pediam (e ainda pedem) seu e-mail e outros dados digitais de contato. Ou seja: é como se você precisasse necessariamente tê-los, para ser considerado alguém incluso e atualizado. Como requisito para a contratação de uma pessoa, as empresas cobram capital cognitivo expresso e domínio de certas plataformas, conhecimentos que, às vezes, nem serão utilizados no exercício da função. Silenciosamente, essas pressões incentivam que incorporemos aquilo que a época disponibiliza em seu mainstream tecnológico, e com isso nos tornamos fios condutores dela. O livro fala justamente disso, a saber: que o “ser veloz” significa, na verdade, a incorporação de uma violência invisível, que é a desse regime dromocrático objetivo e espargido, uma violência caracterizada por uma lógica imperativa, onde a velocidade consiste numa forma de sobrevivência. O ser veloz, portanto, não é uma condição isenta, imune ou impune. Ele é a moeda de troca, como introjeção de violência, para que alguém consiga ser considerado um sujeito “válido”, que fala a mesma linguagem do “mundo”, do mercado, da cidade dromocratizada, onde tudo tem que ser baseado na urgência, no imediato, para a pessoa ter o direito de um lugar ao sol nesse cenário. E isso se projeta diretamente para o futuro: a época diz que é assim que você precisa educar os seus filhos.

A dromocracia cibercultural seria uma nova forma de exclusão?

Suas vítimas são preconceituadas, objeto de um novo tipo de depreciação pública. Trata-se de um bullying pouco notado. O lento é desprezado, posto no ostracismo, jogado para a margem, exceto aquele que é voluntário para isto, o ser lento como modo de confronto politizado com o sistema dromocratizado da metrópole [a exemplo de movimentos como o Slow Food, o Devagar etc.]. Mas quem tem um metabolismo mais lento (sejam as pessoas fora do mercado de trabalho ou as motivadas por razões de estilo vida) ou um metabolismo psíquico mais “vagaroso”, é preconceituado até na família. Essa estigmatização advém, sobretudo, dos mais jovens, mais propensos ao frenetismo, que são hiperativos, não raro com déficit de atenção e, familiarizados com tablets e smartphones (já “nascem” digitais, como se diz), apreciam ficar gerenciando perfis. Há, assim, um confronto de temporalidades e velocidades. Ou seja, esse enorme contingente que está se escolarizando na dromoaptidão cibercultural para que, quando chegar a idade de entrar no mercado de trabalho, não sofra um choque, tende, de alguma forma, a entrar em “confronto” com aqueles que não têm por que – e fazem questão de dizer isso – ser rápidos conforme a violência dromocrática preceitua.

Isso explica por que, nas situações mais cotidianas, vemos pessoas sendo estigmatizadas pelos mais jovens. Como, por exemplo, quando um idoso “demora” no caixa eletrônico…

Quando isso acontece, essas pessoas são vistas com um olhar de exclusão, de impaciência. Mas o gap delas, que é totalmente legítimo, haja vista que cada um tem seu tempo, deveria ser respeitado.

No mesmo livro, a dromocracia cibercultural é considerada uma nova forma de darwinismo social. Como essa “seleção” dos mais aptos acontece?

O neodarwinismo social típico da cibercultura, conforme descrevo no livro, é o regime invisível no qual estamos. Ele seleciona de forma imperativa. Embora seja invisível, tem uma reverberação acachapante no sistema mental das pessoas e em seu arcabouço corporal. O corpo humano, sobretudo tendo em vista nosso precário regime de sono, sempre menor que oito horas, somado a uma alimentação quase sempre desbalanceada e a um estilo de vida sedentário, não está preparado para responder a um regime dromocrático assim, por mais que o cérebro humano seja plástico e o corpo, adaptativo. Nós não formamos o conjunto de habilidades necessário para dar conta dessas exigências sem desenvolver doenças, uma vez que esse fenômeno aconteceu de maneira muito rápida, explodindo no século 20.

Quais são algumas das patologias (ou dromopatologias) típicas da era da velocidade?

O estresse, a Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) são algumas delas. Podemos incluir nesse rol a depressão, quando, entre outros fatores, é também motivada por não se conseguir atingir metas estabelecidas, seja na esfera do trabalho, seja na do tempo livre. Temos ainda a ansiedade crônica, se a considerarmos uma chaga ligada ao futuro vivido desde já como drama, o que pressupõe antecipação de que você também possa não atingir as metas previstas. Assim, se constrói uma síndrome de ansiedade prévia como modo de defesa para não se chegar a um resultado negativo. Essa ansiedade crônica é muito comum e povoa consultórios. Tudo isso tem a ver com o que falamos no início, sobre o novo flagelo humano, na forma de um conjunto de patologias correspondentes à época da dromocracia cibercultural. Essas doenças serão, evidentemente, objeto de tratamento e tentativa de cura pela medicina alopática, pela psiquiatria, pela psicanálise e pela psicologia, com base tanto em medicamentos de tarja preta, quanto nos procedimentos psicoterápicos da medicina alternativa.

As tecnologias criadas pelo homem para que as pessoas tivessem mais tempo estão produzindo, então, um efeito contrário, ao invés de garantir mais tempo para o lazer, para a vida pessoal e a família?

Uma coisa é o discurso que promete e a outra é a realidade que, envolvendo o sujeito, exige dele um conjunto de atividades que contrariam completamente o discurso. Faz parte da sedução da época o fato de haver tecnologias, cursos e consultorias para que as pessoas possam otimizar o tempo quando, no fundo, elas serão mais atraídas para o centro do furacão, de onde não vão sair senão esgotadas.

É possível seguir outro caminho, e sobreviver, que não seja esse marcado pela pressa, pelo frenesi?

Ir para o centro da metrópole dromocrática e satisfazer todas as exigências que a vida dromocratizada nos coloca, significa um suicídio corporal e mental em vida. Por outro lado, a tecnofobia, a recusa voluntária e total a essas condições perfaz um caminho infrutífero porque pode levar o sujeito a simplesmente evitar aquilo que ele poderia e deveria enfrentar com um comportamento flexível e racionalmente mais adequado. O caminho mais pleno para mim não é o do meio, mas o de encontrarmos um horizonte que possibilite viver as exigências segundo preceitos autônomos, ou que se subordinam à nossa autonomia, de tal modo que isso contemple a serenidade na relação com os elementos infotecnológicos, com os fatores interativos, com os cenários em rede. Essa é uma seara que o sistema escolar, as instituições, os cursos e as consultorias ainda não diagnosticaram com profundidade, a ponto de gerarem um conjunto de sinalizações competentes, diretrizes consolidadas e comprovadas como formadoras de um capital cognitivo necessário para melhor resultado social no que diz respeito à instauração da serenidade de que falei antes, inspirado na argumentação de Heidegger sobre a relação com a técnica.

Estou desenvolvendo uma pesquisa que passa muito pela formação de elementos teórico-epistemológicos capazes de fundamentar o que seria essa serenidade de espírito (espírito no sentido filosófico) em relação ao mundo dromocratizado. Nesse momento, eu só poderia indicar um conjunto limitado de horizontes, que se concentra no fato de termos a necessidade de desenvolver uma serenidade comportamental, procedimental, mental e espiritual como uma “resposta” (à falta de melhor palavra) não estressada e não estressante, que envolva a dimensão consciente e inconsciente e, ao mesmo tempo, não comprometa o sistema parassimpático do próprio corpo, ou seja, uma capacidade de estabelecer “respostas” serenas a condições hostis.

Embora eu ainda esteja construindo a fundamentação teórica dessa perspectiva, é possível afirmar, sem dúvida, que o horizonte alternativo não é o esgotamento do frenetismo, nem o caminho infrutífero da tecnofobia, isto é, da deserção completa do edifício dinâmico da dromocracia cibercultural. Seria, de alguma forma, o desenvolvimento de um conjunto de conhecimentos que, ao mesmo tempo fazendo parte de uma convicção identitária do próprio sujeito, o levasse a admitir que ele possa, mesmo dentro da dromocracia cibercultural, responder com serenidade de espírito, ponderando aqui e acolá quanto às exigências advindas de todos os lados, a fim de não cair refém de dromopatologias. Essa explanação pode ser insuficiente por ora, mas admito como sendo o diagnóstico empírico de um caminho viável, sem prejuízos para a saúde e de respostas adequadas, bem como sem prejuízo da crítica como instrumento vital de trabalho na dromocracia cibercultural.

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