Criacionismo para os pós-modernos

Teólogo mostra porque é importante prestar atenção às pressuposições filosóficas
Fernando Canale decidiu ir ao cerne da questão: analisar a maneira pela qual cientistas e teólogos chegam às suas conclusões.
Fernando Canale decidiu ir ao cerne da questão: analisar a maneira pela qual cientistas e teólogos chegam às suas conclusões. O livro pode ser adquirido no site unaspstore.com.br.
A maioria das publicações criacionistas segue um padrão semelhante, discutindo argumentos específicos, como evidências de um dilúvio global ou o significado do registro fóssil. Embora esses temas sejam importantes, eles são apenas a ponta do iceberg. O filósofo e teólogo adventista Fernando Canale decidiu ir ao cerne da questão: analisar a maneira pela qual cientistas e teólogos chegam às suas conclusões. Essa é a proposta do livro Criação, Evolução e Teologia: Uma Introdução aos Métodos Científico e Teológico (Unaspress, 2014).

Canale aposentou-se recentemente, depois de ter atuado durante 30 anos como professor de teologia e filosofia na Universidade Andrews (EUA), uma das mais importantes instituições educacionais da igreja. Ele é um filósofo pioneiro no meio adventista, tendo dedicado sua carreira a mostrar como corretos princípios bíblicos e filosóficos são fundamentais para o pensamento e a vida cristã.

Criação, Evolução e Teologia tem apenas 130 páginas, mas é uma obra ambiciosa. Nela, Canale argumenta que, diferentemente do que supõe a maioria das pessoas, o debate entre criação e evolução não tem que ver com o conflito entre fé e ciência, mas com as diferenças entre dois empreendimentos científicos: a teologia cristã e as ciências naturais. O autor conclui que, da perspectiva da filosofia, nem a criação nem a teoria da evolução podem ser consideradas “irracionais” ou “não científicas”. Ambas são interpretações racionais, mas se baseiam em diferentes pressuposições filosóficas. Somente por meio de outros critérios, não estritamente científicos, podemos fazer uma escolha consciente entre uma teoria e outra.

Uma das contribuições mais significativas do livro é sua abordagem da filosofia pósmoderna. A partir de renomados pensadores como Martin Heidegger, Thomas Kuhn, Paul Feyerabend e Richard Rorty, Canale vê a emergência do pós-modernismo como uma oportunidade sem precedentes para os cristãos. Para isso, ele desfaz equívocos frequentes sobre o tema, esclarecendo que a compreensão pósmoderna sobre a razão humana “não implica total relativismo” (p. 13), mas apenas derruba o “mito da razão como o árbitro absoluto do que é a verdade” (p. 44) e o mito de que a ciência “produz conhecimento seguro e absoluto” (p. 13). A razão humana sozinha não é capaz de alcançar a verdade universal e final.

Alguns leitores poderão achar a leitura densa, mas duas coisas facilitam a compreensão dessa obra essencial. Em primeiro lugar, conheça os fundamentos do criacionismo. O melhor livro popular sobre o assunto em português é Mistérios da Criação (CPB, 2013), organizado por L. James Gibson e Humberto M. Rasi. Em segundo lugar, familiarize-se com os conceitos teológicos e filosóficos nos quais Canale se baseia. Uma excelente introdução ao pensamento do autor aparece em seu livro O Princípio Cognitivo da Teologia Cristã (Unaspress, 2011), p. 71-104, 203-243.

É difícil superestimar a relevância de Criação, Evolução e Teologia. Embora partes da discussão já tenham sido abordadas por autores criacionistas e, sobretudo, por adeptos do design inteligente, essa é uma obra inovadora e sem precedentes. Para se ter noção da singularidade desse livro, basta conferir a resenha sobre ele escrita por Ervin Taylor, professor emérito de antropologia na Universidade da Califórnia e veemente defensor da teoria da evolução. Embora discorde de vários argumentos e das conclusões de Canale, Taylor afirma que, entre as publicações criacionistas, “esse volume é incomparável”. De acordo com ele, muitos veem aqueles que defendem a moldura conceitual apresentada nesse volume como despreparados e desinformados intelectualmente; porém, “esse livro erudito densamente argumentado deveria pôr fim a esse mito” (Andrews University Seminary Studies, v. 46 [2008], p. 83, 89).

A tarefa de “traduzir” o conteúdo de Criação, Evolução e Teologia para um público mais amplo pode ser desafiadora, mas é imprescindível. Especialmente jovens cristãos encontrarão nesse livro uma sólida base intelectual para sua fé. Canale delineia o que, sem dúvida, é o melhor rumo para a (re)construção e apresentação do criacionismo numa sociedade secular e pós-moderna.

Matheus Cardoso é graduado em Teologia e tradutor freelancer

TRECHOS

“A fronteira intelectual, no século 21, permanece um território a ser explorado pelos cristãos. Desafios intelectuais precisam ser defrontados com instrumentos e soluções intelectuais.”

“Os princípios e as regras da ciência são em si mesmos o produto de intrincadas e complexas interpretações que mudam com o passar do tempo.”

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