Sonho de liberdade

Para quem não sabe o que é ser livre, o evangelho pode ser a porta para uma nova vida

Os cristãos têm o dever de levar a liberdade aos que só conhecem algemas. Imagem: Fotolia

Se você está livre, observe as flores, ouça o canto dos pássaros, dê um abraço nos filhos, tome um copo de suco de uva branca, aprecie um pêssego aveludado, ande pelo prazer de andar, contemple as estrelas e dê graças a Deus pela liberdade. Muita gente não conhece essas bênçãos.

De acordo com o International Centre for Prison Studies, há mais de 10,2 milhões de pessoas encarceradas ao redor do mundo. A proporção varia muito de região para região. Mas o que os dados mostram com clareza é que, nos últimos 15 anos, o total de presos cresceu entre 25 e 30%, enquanto a população mundial aumentou 20%.

Em números absolutos, a China tem muita gente atrás das grades (1,7 milhão). No Brasil, em 2014, havia 715 mil detentos, na proporção de 358 por 100 mil habitantes. Porém, o sistema mais brutal é o dos Estados Unidos, com mais de 2,2 milhões de presos e a média de 716 detentos por 100 mil habitantes. Isso fora os mais de 7 milhões de ex-presos que são supervisionados pelo sistema criminal. Um em cada 100 americanos adultos está detido. O país tem 4,4% da população mundial e quase 25% dos prisioneiros do planeta.

Obviamente, a prisão é uma experiência terrível para qualquer um, e para sentir o cheiro nauseante da morte nesse ambiente não é preciso habitar as celas de Guantánamo (prisão americana em Cuba), Campo 22 (Coreia do Norte), Gitarama (Ruanda), Tadmor (Síria), Ilha Petak (Rússia) ou Diyarbakir (Turquia), alguns dos piores presídios do mundo, onde frequentemente ocorrem massacres, tortura, selvageria e até canibalismo.

Nossa tendência é manter uma distância segura do submundo carcerário e de seus sombrios habitantes. Contudo, até por uma questão social, alguém precisa se aproximar dos presos. Se milhares de pessoas são detidas diariamente, muitos milhares voltam para as ruas todos os dias. Portanto, a relação dos prisioneiros com a sociedade não é tão distante como parece. Quem irá preparar esse contingente para viver no meio do povo?

No entanto, o cristão tem outro motivo para ministrar aos encarcerados. Nosso Salvador, que foi preso, torturado e morto em nosso lugar, como se fosse um criminoso, disse que o Espírito do Senhor o ungiu “para proclamar liberdade aos presos” (Lucas 4:18), incluiu-os entre os que devem receber um toque de carinho dos seus seguidores (Mateus 25:31-46) e até se identificou com eles (v. 36).

Os cristãos têm o dever de levar a liberdade aos que só conhecem algemas

Creio que Cristo não estava se referindo apenas a bons cidadãos injustamente aprisionados, como José do Egito, João Batista, Pedro, Paulo, Mahatma Gandhi, Dietrich Bonhoeffer, Aleksandr Solzhenitsyn e Nelson Mandela, para citar uns poucos. Nem somente aos milhões que, ao longo da história, foram encarcerados por causa de sua fé. Por certo, ele pensou também nos piores pecadores.

Hoje, milhares de cristãos ministram fielmente aos presos. E as histórias de transformação pelo poder do evangelho continuam a nos assombrar. O trabalho feito por dedicados membros da nossa igreja nas prisões do Brasil, como mostra a ótima matéria de capa, escrita pelo editor Márcio Tonetti, é nada menos do que impressionante.

Do ponto de vista psicológico, segundo um estudo de Shadd Maruna, Louise Wilson e Kathryn Curran, a “narrativa” possibilitada pela conversão cria uma nova identidade social, reveste a experiência na prisão com um senso de propósito, dá ao prisioneiro um sentimento de poder como agente de Deus, provê a linguagem do perdão e permite um senso de controle sobre o futuro desconhecido.

O trabalho de ressocialização de presos é polêmico. Porém, não podemos deixar de levar a liberdade aos que só conhecem algemas. Dentre os muitos tipos de liberdade (econômica, política, civil, religiosa, de opinião, de ir e vir), nenhuma é tão profunda como a espiritual. Se o Filho libertar, as pessoas “de fato serão livres” (João 8:36).

Atualmente, as prisões e penitenciárias contam com um aparato sofisticado para dificultar a fuga, incluindo sensores, alarmes e sistema de monitoramento. Contudo, mesmo para os que não conseguem escapar nem em sonho, Cristo pode conceder um novo senso de liberdade.

Marcos De Benedicto é editor da Revista Adventista

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