Harmonia perfeita

A história do músico adventista que utiliza seu violino como instrumento para levar alegria, conforto e esperança aos que ocupam leitos hospitalares

Imagens: Acervo pessoal / Fotolia

“Milhares de pessoas cultivam a música, mas poucas têm a revelação dessa grande arte.” Essa frase, expressa por Ludwig van Beethoven, famoso compositor e pianista dos séculos 18 e 19, traduz o sentimento frustrado de um icônico músico que visualizava as peças musicais com um propósito muito mais profundo do que a maioria. O bom da história humana é que sempre há renovações de pessoas, intelectos e correntes filosóficas, fazendo com que surjam, vez ou outra, novas cabeças capazes de perceber e desmistificar de forma coerente, profissional e missionária as revelações mais dicotomizadoras que a música pode promover na existência humana.

Paulo Sérgio da Graça Torres Pereira (conhecido como Paulo Torres) nasceu no dia 28 de novembro de 1954 em Castro (PR). É o terceiro filho de quatro irmãos, o único menino. Morou parte da infância em uma chácara juntamente com os pais, onde levava uma vida simples, sem muitas posses. “Lembro-me de quando chegou a luz elétrica pela primeira vez. A TV, a Copa do Mundo no México em preto e branco… Cara, sou velho, hein!”, brinca de forma nostálgica. Aos 60 anos, aparentando pelos menos uns dez a menos, Paulo reconhece que teve uma influência muito forte da família em sua formação musical. Seu tio-avô, Bento Mossurunga, foi um famoso músico do Paraná (os hinos oficiais do estado e da capital são de sua autoria, além de muitas outras obras); os pais também dominavam instrumentos musicais; e suas irmãs estudavam com muito afinco as melodias tocadas no piano que havia em sua casa.

Cultura

Toda essa cultura musical visualizada de maneira muito forte entre seus parentes ajudou a construir o atual músico, que, quando criança, ficava um pouco irritado com a repetição exaustiva das notas tocadas pelas irmãs dentro de casa. Mas, com toda essa vivência, era praticamente inevitável que ele também entrasse no universo musical. Assim, começou a estudar na escola adventista no período em que um professor de violino chegou ao colégio para trabalhar. Foi nesse contexto que Paulo iniciou a carreira como violinista. Após pouco tempo, entrou na Escola de Música Belas Artes, vinculada à Universidade Estadual do Paraná.

Nesse período, desenvolveu uma paixão muito grande pelo inglês. Procurava literaturas escritas nesse idioma e sempre que via um americano na cidade dava um jeito de interagir com ele. Não imaginava que conhecer o idioma seria extremamente importante para o futuro que o esperava. O tempo passou e ele foi se aprimorando cada vez mais no estudo do violino. Aos 17 anos já era primeiro violinista da orquestra de óperas e, na sequência, teve a mesma função na orquestra da cidade paulista de Campos do Jordão.

Em um evento internacional, alguns maestros americanos acompanharam a desenvoltura brilhante de Paulo com o violino e o convidaram a estudar nos Estados Unidos com todas as despesas pagas. Em solo estadunidense teve várias oportunidades, tocou em diversos grupos musicais e se graduou como bacharel em Educação Musical na Universidade Tecnológica do Tennessee. Na sequência, engatou um mestrado e, na época, teve uma oportunidade “de ouro” em uma seletiva em Nova York para ingressar na Orquestra Filarmônica de Caracas (na Venezuela). “Em 1979, eles estavam pagando muito bem. Cerca de 24 mil dólares”, observa Paulo. Ele fez o teste, foi aprovado e viajou para a Venezuela, onde ficou por seis anos. Numa visita que fez à família, Paulo participou de um concurso para a Orquestra Sinfônica do Paraná. Obviamente, foi aprovado como primeiro violinista.

Voltou para o Brasil e, tempos mais tarde, retornou aos Estados Unidos, onde cursou mestrado em Música na Universidade Andrews. Ingressou paralelamente no doutorado em Artes Musicais na Universidade do Estado de Michigan, ficando quatro anos em solo americano, período em que sempre demonstrou excelência acadêmica, o que lhe conferiu diversos prêmios de “honra ao mérito”. Paulo guarda em seu escritório todos os diplomas e medalhas. Cada um deles (e são inúmeros) tem um espacinho especial naquela sala que acerva também centenas (talvez milhares) de livros.

Prestígio

Após essa trajetória acadêmica, Torres voltou ao Brasil e reassumiu sua vaga na sinfônica. Começou a trabalhar em universidades públicas e ajudou a criar o curso de música numa das universidades mais tradicionais do Paraná, a PUC-PR. Seu prestígio na área sempre lhe rende convites dos mais diversos para se apresentar e reger grandes orquestras na Europa, Estados Unidos e Brasil afora. “Em todos esses lugares tenho dado testemunho do sábado. As pessoas têm respeitado e compreendido essa questão”, destaca.

Mas nem sempre foi assim. Tempos atrás, mesmo tendo feito um acordo informal com seus chefes, Paulo enfrentou um processo da Corregedoria do Estado do Paraná por não cumprir seu horário de trabalho no sábado, já que o contrato previa atividade no dia. O processo foi analisado durante três anos.

Colegas de Paulo foram chamados pelo governo para falar sobre sua conduta e todos sublinharam que era um profissional comprometido e indispensável para a orquestra. Esse comprometimento é facilmente notado ao se dialogar com ele. O interlocutor percebe a simpatia, o bom humor, a naturalidade com a língua e a boa articulação das palavras, que adicionam ao seu discurso uma credibilidade ímpar. Por providência divina, nesse meio-tempo também aconteceu um movimento entre os componentes da orquestra solicitando ao governo, por meio de um abaixo-assinado, que os ensaios não acontecessem no último dia da semana. No fim das contas, o processo contra Paulo foi arquivado.

Diversas outras situações relacionadas ao sábado podem ser ressaltadas. “Certa vez, eu preparava a orquestra para a apresentação do famoso tenor italiano Andrea Bocelli. Chegamos ao Rio, faríamos o ensaio geral na arena HSBC para um concerto com público estimado em 15 mil pessoas. Era 17h45 e me perguntaram se poderíamos iniciar as atividades. Foi quando eu expliquei que o pôr do sol seria às 18h e, por isso, teria de esperar”, conta Paulo. A produção optou então por aguardar o período para que o maestro pudesse participar do ensaio. Tratava-se de um evento que custou mais de 1 milhão de dólares, com 140 pessoas no palco.

É óbvio que a vontade de Deus ao conduzir todos os passos do músico foi um fator determinante para seu sucesso, mas a dedicação, o desejo pelo conhecimento e o comprometimento com a profissão sempre abriram portas muito promissoras para ele. Aos olhos mundanos, o fato de Paulo guardar o sétimo dia é um mero detalhe frente à sua referência profissional, artística e acadêmica. Contudo, aos olhos de Deus, é um detalhe fundamental.

A última de suas importantes conquistas foi a cadeira 16 de um dos postos mais respeitados do seu estado: a Academia Paranaense de Letras. Com o intuito de reunir os mais respeitados nomes da literatura paranaense, a instituição foi fundada em 26 de setembro de 1922. Em 92 anos de existência, nomes como o da poetisa Helena Kolody e o do próprio Bento Mossurunga (tio-avô de Paulo) frequentaram a entidade com cadeiras cativas na instituição. A nomeação de Torres foi unânime entre os componentes da academia e veio para preencher uma vaga dedicada a um compositor de renome do estado. Paulo ocupa o lugar que anteriormente pertenceu a Alceo Bocchino (músico que foi aluno de Villa-Lobos, além de um dos criadores da Orquestra Sinfônica Nacional).

No dia 4 de junho de 2014, em seu discurso de posse, Paulo declarou: “Primeiramente, quero agradecer a Deus, aquele que é o autor de toda a verdade e sabedoria, pois todo conceito brilhante, todo pensamento de sabedoria, toda capacidade, todo talento dado aos homens, é dom de Deus.”

Testemunho

Atribuir ao Criador suas conquistas é uma das grandes prioridades desse músico. Sua agenda é lotada. Sempre tem que organizá-la de modo a atender sua rotina profissional, encontros da academia de letras, família (procurando ser um esposo atencioso e um pai presente), estudo (está sempre se atualizando), exercícios físicos, projetos sociais, ensaios e trabalho missionário. Sim, trabalho missionário!

Assista também

Há mais ou menos 20 anos, Paulo foi ao hospital fazer uma visita e tocar para a tia que estava ali internada. A sonoridade bem afinada do seu violino ecoou naquela unidade de saúde, e pacientes de outros quartos foram ao corredor para entender o que estava acontecendo. Paulo sinalizou para todos que posteriormente passaria em suas acomodações. Foi o que aconteceu.

Quando estava finalizando as visitas, tocando no último quarto, a jovem internada dormia profundamente. Após pouco tempo, ela acordou. Demonstrou reações como se quisesse falar algo, mas não conseguia. “Foi quando eu vi a mãe que acompanhava a moça se emocionando muito. Ela me explicou que a filha tinha estado em coma por muito tempo e acabava de acordar naquele momento”, recorda Paulo. A partir de então, ele passou a visitar semanalmente diversos hospitais da capital paranaense com o intuito de levar o amor de Deus através da música.

Em todos esses anos, inúmeras situações marcaram a vida do violinista. Ele se lembra de uma vez em que passou no quarto de um velhinho que tinha câncer. Ao final, Torres se despediu com um “fique com Deus”, e o senhor lhe respondeu afirmando: “Deus me fez uma visita hoje!” Em outra ocasião, uma moça chamada Elisabete estava com profunda depressão e fazia muito tempo que não se levantava da cama. Ao ouvir a música “Primavera” (do compositor Vivaldi), começou a se alegrar e se movimentar.

São muitas histórias. Certa vez, Paulo estava acompanhado de uma equipe de televisão que registrava seu trabalho. Uma senhora o abordou e contou-lhe que estivera por muito tempo em coma, mas, mesmo inconsciente, ela ouvia sua música e aquilo lhe fazia muito bem. Quando acordou, sentiu no coração que deveria encontrar o violinista. O encontro aconteceu e foi carregado de muita emoção, gratidão e conforto de ambas as partes.

Em meio à sua agenda lotada, o músico arruma tempo para consolar pessoas hospitalizadas

Além de música, Paulo deixa também literatura da igreja para seus visitados. Esse gesto é retribuído com presentes e afeto que alimentam uma esperança. “Espero um dia encontrar alguém no Céu que vai me bater nas costas e dizer: ‘Você é Paulo Torres? Pois é, uma vez você me entregou uma revista e eu fui convertido por isso’”, sonha.

Perfil-Paulo-Torres-Harmonia-perfeita-creditos-Marcio-TonettiMuito mais do que suas conquistas, Paulo carrega consigo uma missão: transformar o talento num testemunho de profissionalismo, cidadania e cristianismo aos cinco filhos, à esposa Eliseane, aos parentes, amigos e todos os que, em algum momento, têm contato com ele. Independentemente de sua atual posição social, como um ícone da música no Brasil, ele conserva o objetivo maior de levar a mensagem de esperança a toda criatura, fazendo, assim, parte dos “poucos” apontados por Beethoven na frase que inicia este texto. Paulo cultiva a música e consegue tornar palatável aos seus espectadores a maior revelação que essa arte pode manifestar: Jesus Cristo. [Imagens: Márcio Tonetti / Fotolia]

Thiago Basílio é jornalista

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