Vida em comunidade

No espaço coletivo, você pode experimentar a presença, o propósito e o poder de Cristo

Sintonia-Vida-em-comunidade-lightstock_60033_medium_fmt Compreender o conceito de comunidade como elemento fundamental do discipulado de Jesus pode nos proporcionar uma renovada visão sobre o discipulado em nossos dias. A genuína experiência de comunidade, centrada em relacionamentos autênticos de amor cristão, é o ambiente ideal para o processo de discipulado.

Quando participamos da vida uns dos outros, participamos igualmente da vida do Mestre, que é a mais apropriada referência para o discípulo em todos os tempos. Foi o próprio Cristo quem disse que seremos reconhecidos como discípulos se, e tão somente se, nossa comunidade tiver a credencial do amor fraternal (João 13:34, 35).

É na comunidade de discípulos que reconhecemos a presença, o propósito e o poder de Jesus.

Presença

A presença de Jesus na comunidade é o que a torna relevante. Cristo participa do processo de discipulado por meio da comunidade porque está presente nela. Em Mateus 18:20, Jesus disse que onde estivessem dois ou três reunidos em seu nome, ele estaria no meio deles. No contexto da Grande Comissão, o Mestre garantiu: “Eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mateus 28:20).

Discipulado sem a presença de Jesus por meio do encontro coletivo é uma impossibilidade, pois ele mesmo escolheu estar conosco em comunidade. Foi assim quando se associou aos 12, tem sido assim durante toda a história e deverá permanecer assim até o fim de todas as coisas.

Sem a presença de Cristo na comunidade, o processo de discipulado perde seu propósito, o ensino não o revela e a adoração não passa de um exercício inútil. Sem a presença dele, a comunidade se torna apenas um encontro social e a busca por crescimento mostra-se manchada por vaidade e orgulho.
Portanto, a primeira marca do discipulado de Jesus é a promessa de sua presença. Afinal, seu nome é Emanuel, Deus conosco. De fato, o Mestre trabalha por meio da comunhão dos discípulos, em que ele sempre se faz presente. Percebi isso durante um acampamento de verão.

Era sexta-feira à noite, já quase madrugada de sábado. Eu e mais três amigos nos levantamos e nos dirigimos até o jardim do sítio em que nossa igreja havia escolhido para o acampamento. Planejamos ficar em oração particular por quase uma hora; a seguir, nos reuniríamos para um último momento de oração juntos. Embaixo de um limoeiro, abraçados, nós quatro oramos, cada um por sua vez, para agradecer o período de comunhão que Deus havia nos proporcionado. E, quanto mais nos apertávamos naquele abraço, mais sentíamos a presença de Jesus. Foi naquele retiro espiritual que descobri o poder da comunidade unida a Cristo. Nossa experiência motivou os outros acampantes e, no sábado à noite, quase todos estavam no jardim em oração.

Propósito

Não é por simples capricho que Jesus escolheu a comunidade como o ambiente ideal para a formação do discípulo. Ao dar o novo mandamento, ele explicitou o propósito da associação entre os discípulos: praticar o princípio do amor a partir de seu próprio exemplo.

Na Bíblia, comunidade é sinônimo de congregação, de assembleia, de igreja. Entretanto, somos forçados a reconhecer um desgaste deste último termo e suas implicações para a experiência de comunidade. Atualmente, igreja está mais para o prédio e a instituição do que para o testemunho amoroso dos discípulos, o que nos enfraquece.

Quando olhamos para a primeira comunidade de cristãos, vemos uma interação social maravilhosa. O testemunho do livro de Atos (2:1, 42, 46, 47) é fantástico. Em comunidade, os discípulos oravam e suplicavam, comiam e celebravam.

A igreja era a vida em comunhão com Deus e uns com os outros, no amor de Jesus Cristo. Seis vezes, pelo menos, o Novo Testamento descreve a convivência fraterna e espiritual dos primeiros cristãos. Eles viviam assim porque Jesus havia dedicado seu ministério a formar discípulos numa associação com ele e entre si.

Foi por meio da experiência em comum que Jesus os preparou para receber a promessa de seu poder. Em sua sabedoria, o Mestre idealizou a comunidade como um catalisador espiritual. Sozinhos, os discípulos eram fracos; mas, em comunhão, estavam habilitados a cumprir a missão. Deixar de reconhecer o propósito da comunidade corresponde a validar o ascetismo ­egoísta que leva as pessoas a desistir umas das outras em nome de Deus.
Em minha primeira experiência ministerial, fui confrontado pela comissão da principal igreja do distrito a resolver um problema que se arrastava por anos. Tratava-se de um irmão que ficava do lado de fora da igreja com o celular na mão conversando com um amigo imaginário sobre cada pessoa que se aproximava. Os irmãos se sentiam ofendidos pela atitude daquele irmão maluco. Ninguém tinha coragem de conversar com ele e apenas o ignoravam. Ele os agredia com conversas ao telefone e eles revidavam com indiferença.

Cristo intencionalmente escolheu a comunidade como solo fértil para o cultivo de discípulos saudáveis

A sugestão da comissão era a disciplina, preferencialmente a remoção, em virtude da reincidência. Mas a solução não era tão simples. No fim das contas, mesmo removido, ele ainda teria o direito de ir às reuniões públicas da igreja e continuar na calçada “conversando” pelo celular. Precisávamos de uma solução real. Perguntei quando tinha sido a última vez que alguém havia conversado com o irmão por simples amizade, convidado para uma refeição ou feito um culto de pôr do sol com ele. A resposta surpreendeu todos. Fazia tempo que não havia amor entre a comunidade e aquele irmão. Abrimos a agenda, e cada pessoa marcou um compromisso de amor fraterno com o difamador. Em poucas semanas, eu tive um problema a menos e uma igreja nova. O amor da comunidade reintegrou aquele irmão, que se mostrou um excelente promotor de saúde.

Poder

Em comunidade, finalmente, reconhecemos a bênção do poder de Jesus. Paulo se referiu à coletividade de discípulos como o corpo de Cristo. Essa figura metafórica indica que precisamos uns dos outros, pois ninguém tem todos os dons que a comunidade recebeu do Espírito. O poder que Jesus concedeu à sua igreja está compartilhado entre os membros de seu corpo.

A experiência da comunidade oferece aos discípulos mais do que eles podem experimentar sozinhos. Demonstrações de fraternidade, como compaixão, justiça, amor, fé, hospitalidade, sabedoria e apoio, são manifestações do poder de Deus, coisas que edificam a igreja.

Certo dia, ao visitar um irmão, descobri que ele estava decidido a mudar de igreja devido a um desentendimento. A história da conversão dele era tão especial que eu não podia admitir que isso o tiraria de nossa comunidade. Após a conversa, ele decidiu permanecer. Para minha surpresa, alguns dias depois, ele contou que havia reconhecido seu orgulho ferido e resolvido tudo com o outro irmão. Aquela situação me fez perceber que sem a convivência de uns com os outros o processo de discipulado fica muito limitado.

Todos nós precisamos ser ajudados para chegar à maturidade. Nesse sentido, a vida em grupo é crucial para o desenvolvimento saudável do processo de discipulado. Os primeiros discípulos compreenderam esse modelo de maneira muito clara. Se quisermos estar prontos para o fim, devemos buscar a experiência do começo.

Na vida em comunidade, nosso discipulado ganha legitimidade e eficácia. Seguir Jesus sem se envolver com as pessoas significa alienação do poder do evangelho. Você pode ter uma experiência incomum ao investir na vida em comum. [Foto: Lightstock]

Fabiano Mendes é pastor da igreja Nova Semente

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