A chave certa

Livro responde a 107 perguntas desafiadoras sobre a Bíblia, usando o texto sagrado como seu próprio intérprete. Obra será lançada em abril
Livro_Interpretando-as-Escrituras
A obra exalta a Bíblia como intérprete de si mesma e revela a ineficácia de pretensas chaves hermenêuticas, como o relativismo e a cultura, na tarefa de “abrir” os tesouros da Palavra de Deus.
Fundamentada no princípio sola Scriptura (só a Escritura), a Reforma Protestante abalou a hegemonia católica no século 16. O livro sagrado foi popularizado, o clero começou a perder o monopólio sobre a interpretação das Escrituras, e a tradição foi deixando seu protagonismo para que a Bíblia reassumisse o posto de única chave hermenêutica de si mesma.

O adventismo surgiu no século 19 na mesma esteira histórica. O movimento emergiu do estudo das Escrituras. Usando apenas uma concordância como apoio, Guilherme Miller passou a estudar a Bíblia, verso por verso, decidido a não passar para a próximo texto até que compreendesse satisfatoriamente o que havia lido. Foi assim que ele se deparou com Daniel 8:14 e deu início a um dos maiores reavivamentos da história. O efeito foi o estabelecimento de uma denominação com forte apego às Escrituras e impregnada com a visão restauracionista da verdade.

O princípio da tota Scriptura (toda a Escritura) também está no DNA adventista. Ao reconhecer a vigência da lei de Deus e ao sistematizar suas crenças a partir da Bíblia, os adventistas se singularizam por valorizar o livro sagrado como um todo.

Com essa visão em mente, Gerhard Pfandl, ex-diretor associado do Instituto de Pesquisa Bíblica (BRI, na sigla em inglês) da sede mundial adventista, mergulhou fundo numa tarefa monumental: responder às principais perguntas sobre textos difíceis da Bíblia. Ele reuniu 49 eruditos, versados no estudo e ensino das Escrituras, e distribuiu entre eles 107 perguntas sobre textos controvertidos do Antigo e Novo Testamentos. O desafio foi aceito, e o resultado tomou a forma em um livro de fôlego, indispensável para quem deseja conhecer com profundidade a Palavra de Deus.

Interpretando as Escrituras é o segundo volume de dois livros produzidos pelo BRI. O primeiro, Compreendendo as Escrituras (Unaspress, 2007), trata dos princípios fundamentais da hermenêutica adventista. O segundo aplica esses parâmetros na elucidação de textos controversos. Interpretando as Escrituras será lançado em abril pela Casa Publicadora Brasileira e reforça o catálogo teológico da editora.

Com quase 400 páginas, a obra é dividida em três seções. Na primeira, autores como Richard Davidson e Ekkehardt Mueller respondem a perguntas relacionadas à confiabilidade e interpretação do texto sagrado. Questões como “Quem decidiu quais livros seriam incluídos na Bíblia?” e “Existem erros na Bíblia?” são respondidas com erudição, assertividade e linguagem acessível.

Na segunda parte, teólogos como Jiri Moskala, Roy Gane e Ángel Manuel Rodríguez esmiúçam passagens do Antigo Testamento em busca de respostas claras para perguntas como “Onde Caim encontrou esposa?” e “Quem eram os ‘filhos de Deus’ e as ‘filhas dos homens’?”.
O livro é complementado com a seção sobre o Novo Testamento, na qual questões sobre o pecado imperdoável, divórcio e novo casamento são respondidas satisfatoriamente.

Segundo Ángel Manuel Rodríguez, ex-diretor do BRI, o objetivo é que o livro “se torne uma obra de referência para qualquer pessoa interessada em compreender passagens difíceis da Bíblia”. O teólogo ressalta, entretanto, que o material não foi escrito para ser a palavra final sobre os textos analisados. Com honestidade, ele reconhece: “É possível que, em alguns casos, os leitores discordem da resposta apresentada. Isso é natural. A Bíblia é profunda demais para ser compreendida em sua totalidade por um grupo de teólogos.” Além de sanar as dúvidas, os leitores poderão usar o livro para explicar a Palavra de Deus aos outros.

Uma das grandes contribuições dessa obra também é o incentivo para que as pessoas não se contentem com explicações rasas e enviesadas, adotando pressuposições dogmáticas. Além disso, o livro é mais uma arma eficaz no enfrentamento da ameaça secularizadora que bate à porta da igreja. A obra exalta a Bíblia como intérprete de si mesma e revela a ineficácia de pretensas chaves hermenêuticas, como o relativismo e a cultura, na tarefa de “abrir” os tesouros da Palavra de Deus.

TRECHOS

“A Bíblia às vezes se expressa antropomorficamente, isto é, refere-se a Deus em termos humanos. […] O arrependimento humano traz como consequência mudança de caráter e conversão em direção a Deus; porém, o ‘arrependimento’ divino leva a uma reintegração do elemento humano no plano geral da salvação.” Martin Klingbeil

“Como cristãos, é nosso dever respeitar todas as pessoas, heterossexuais ou homossexuais, e reconhecer que todos os seres humanos são criaturas do Pai celestial, amadas e valorizadas por ele. Repudiamos qualquer forma de homofobia. […] Somos chamados a trabalhar na prevenção da homossexualidade e no apoio aos homossexuais de diversas maneiras […] a fim de salvá-los para o reino de Deus (1Co 5:1-5).” Ekkehardt Mueller

VINÍCIUS MENDES é editor de livros na Casa Publicadora Brasileira

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