O caminho da libertação

A pregação integral do evangelho mostra uma alternativa à falência do combate às drogas

O-caminho-da-libertacao-Fotolia_24589909Quando Christiane, aos 6 anos, deixou um vilarejo rural no interior da Alemanha para morar em Berlim, seus pais desejavam ascender socialmente e alcançar prosperidade. Porém, um apartamento de três cômodos, no 11º andar, em um conjunto residencial com 45 mil pessoas, foi toda a ascensão que conseguiram. Em lugar das conquistas imaginadas, violência doméstica e desintegração familiar marcaram a nova fase da vida.

Na escola, Christiane se cansou de fazer o papel de boa aluna e expressou sua revolta matando aulas para fumar e beber com novos amigos. Aos 12 anos, desejando ganhar o “respeito” do grupo, fumou maconha. O ato de rebeldia logo se tornou um hábito. Fumava todas as tardes. Da erva para outras drogas foi questão de pouco tempo. Ela também experimentou as viagens alucinantes do ácido lisérgico (LSD) e a calmaria dos ansiolíticos vendidos em farmácias, como o Valium. Quando a mistura dessas drogas se tornou rotineira, ela deu o passo que a afundou definitivamente no vício: a heroína. Aos 14 anos, prostituía-se para sustentar o vício.

Em seu julgamento num tribunal destinado a lidar com menores, Christiane conheceu os jornalistas Kai Hermann e Horst Hieck. Uma entrevista que deveria ser de duas horas se estendeu por dois meses. Como resultado, um livro, posteriormente transformado em filme, foi lançado na década de 1980 contando sua história. O relato comoveu a opinião pública na época, mas a vida de Christine Vera Felscherinow continua até hoje marcada por tentativas de reabilitação e recaídas.

De lá para cá, a realidade global do combate às drogas também parece pouco animadora. Milhares de casos como o de Christiane se repetem diariamente por todo o mundo, mas despertam pouco ou nenhum interesse. O poder paralelo do tráfico, quase institucionalizado, parece insuperável como a metástase de um câncer. O combate às drogas tem se assemelhado a uma fogueira à qual se tenta apagar com gasolina. Para cada traficante preso, dois ou três surgem para lutar pelo poder.

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FRACASSO DA LEGALIZAÇÃO

Nesse contexto em que as drogas aparentam ter a vitória na guerra contra a sociedade que vive de cara limpa, há representantes sociais que propõem a lógica da rendição: “Se você não pode vencê-los, junte-se a eles.” Em 2014, foram protocolados na Câmara dos Deputados dois projetos de lei, de autoria de Eurico Júnior e Jean Wyllys, que preveem a regulamentação do uso medicinal e “recreativo” da maconha, abrindo espaço para o plantio e a comercialização da droga sob amparo legal. Argumenta-se que essa descriminalização tiraria os ganhos dos traficantes, permitindo ao Estado retomar o controle da situação. Por trás dessa conjectura está a ideia de que a maconha seria tão inofensiva quanto um cigarro de palha, e os efeitos do tráfico seriam muito piores do que as consequências do uso da droga.

O que as pesquisas têm apontado, porém, é que a descriminalização costuma ser seguida de aumento no consumo de drogas e seu consequente impacto social. O acesso ao narcótico é facilitado, os preços tendem a ser mais baixos e o uso se populariza. É o que indica um estudo publicado em agosto do ano passado, analisando a liberação da maconha no estado norte-americano do Colorado, nos Estados Unidos. Desde o ano 2000, a erva teve o uso medicinal aprovado nesse estado. Em 2012, o uso considerado recreativo foi liberado para maiores de 21 anos. Na prática, qualquer um acaba tendo acesso à droga e passa a usá-la livremente.

Como resultado, em 2012, havia 39% mais adolescentes viciados em maconha no Colorado em comparação à média norte-americana. Suspensões e expulsões escolares aumentaram 32% nesse mesmo ano em comparação aos cinco anos anteriores. Adultos com mais de 26 anos consumidores de maconha superavam em mais de 50% a média do país. Dentre os adultos presos, 48% foram identificados como usuários da erva. As mortes no trânsito envolvendo usuários de maconha aumentaram 100% em relação aos cinco anos anteriores. E as internações relacionadas à maconha cresceram mais de 80%. Um dos coordenadores dessa ampla pesquisa foi o sociólogo Kevin Sabet, diretor do Instituto de Política de Drogas e professor-­assistente no Departamento de Psiquiatria da Universidade da Flórida. Ele ainda cita um levantamento que indica um decréscimo de 7%, entre 2013 e 2014, no apoio à liberação da maconha. “A legalização não funcionou como se esperava”, afirma Sabet.

Em Portugal, a política de descriminalização das drogas foi instituída em 2001. Uma pesquisa realizada pelo Instituto da Droga e Toxicodependência revelou que, seis anos após essa nova abordagem, o consumo de maconha havia crescido 37% e o de cocaína havia saltado para 215%. Na Califórnia, onde o uso medicinal da maconha está disponível para tratar supostas doenças como ansiedade e até bloqueio criativo, há mais lojas que vendem maconha do que cafeterias Starbucks, uma das mais populares no país.

Tratar viciados como criminosos, encarcerá-los e deixá-los na cadeia se drogando enquanto fazem escola no crime não parece uma solução das mais inteligentes. Por outro lado, aceitar a droga como um fato da vida, liberando o uso dos entorpecentes como um passatempo inofensivo, é tão seguro como divertir-se em um ninho de serpentes.

Enquanto os defensores de políticas liberacionistas e os partidários da abordagem policialesca se digladiam sobre o papel do Estado no controle das drogas, um dos fatores importantes da questão é muitas vezes deixado de lado. Pesquisas revelam que o consumo de drogas entre jovens não começa normalmente com um traficante que atua na porta da escola.

O problema costuma estar muito mais perto: dentro de casa. Estudos do Instituto Nacional para o Uso de Drogas, nos Estados Unidos, indicam que jovens viciados costumam agir com base no exemplo de pais e familiares. Por meio do cigarro, da bebida ou dos fármacos encontrados no próprio lar, adolescentes e jovens dão os primeiros passos no vício.

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ATUAÇÃO ADVENTISTA HISTÓRICA

Embora não exista uma fórmula fácil para resolver um problema tão desafiador, os adventistas do sétimo dia podem fazer parte da solução, inspirados em uma longa história de combate aos vícios. O aprendizado com os acertos e também com os erros do passado pode ajudar a igreja do presente a retomar o desafio do combate às drogas lícitas e ilícitas.

Ainda no século 19, época em que o tabaco era prescrito por médicos para o tratamento de algumas doenças, os adventistas já recomendavam a completa abstinência não só do cigarro, mas também de bebidas alcoólicas, drogas e estimulantes como a cafeína. Inspirada em visões recebidas a partir de 1848, Ellen G. White instruiu os integrantes do movimento adventista a abster-se completamente dos vícios. Ellen tinha em vista não apenas a saúde física, mas sobretudo o bem-estar espiritual. Ela afirmou: “Se o corpo é saturado pela bebida alcoólica e contaminado pelo fumo, não é santo nem aceitável a Deus” (No Deserto da Tentação, p. 73).

Essa recomendação aproximava os adventistas de alguns ensinos de movimentos de temperança que atuavam nos Estados Unidos. Na década de 1870, a denominação adventista passou a se manifestar publicamente em campanhas contra o fumo e o álcool, em parceria com movimentos de temperança que agrupavam diversas denominações e setores da sociedade.

Nesse período, a atuação adventista não foi maior porque as organizações promotoras da temperança também se tornaram partidárias de leis dominicais. Desse modo, a parceria foi retomada somente no início do século 20, quando o movimento dominical havia perdido apoio. A atuação de Charles Smull Longacre foi importante nesse período. Ligado à Associação Geral, ele representou os adventistas em diversas iniciativas protestantes que advogavam a proibição da fabricação e venda de bebidas alcoólicas. Em 1920, esse movimento interdenominacional, que teve importante participação adventista, conseguiu a aprovação da Lei Seca nos Estados Unidos. Em 1933, porém, a pressão popular pela legalização do álcool levou à revogação da lei. Nesse contexto, os adventistas se concentraram principalmente em instruir crianças e jovens da igreja quanto aos males do vício.

Com a criação da Associação Internacional de Temperança, em 1947, os adventistas demonstraram sua preocupação em estender a luta contra o cigarro e o álcool para todo o globo. Nessa campanha, William August Scharffenberg foi a voz mais destacada do adventismo. Ele visitou líderes políticos de diversos países, apresentando a causa da temperança, e criou diversas estratégias para a conscientização da sociedade. Uma revista direcionada ao público jovem, Listen (Escute), alcançou mais de 200 mil exemplares de tiragem. Também lançou o filme Um em Vinte Mil. Disponível em 14 idiomas, a produção alertava o público sobre a relação entre o cigarro e o câncer do pulmão. Acredita-se que tenha alcançado mais de 75 milhões de espectadores. Com cenas fortes e impactantes, o filme chegou a ser censurado durante dois anos na Austrália.

Além de atuar na esfera da política e da comunicação, Scharffenberg também trabalhou em outras importantes iniciativas. Uma delas foi a criação do Instituto de Estudos Científicos para a Prevenção do Alcoolismo, em Loma Linda. Conferências e seminários com especialistas alertavam sobre os riscos do alcoolismo e os custos sociais trazidos pela bebida. Com amplo apoio entre cientistas e políticos, o instituto chegou a ter o rei da Arábia Saudita como presidente de honra. Outra iniciativa encampada pelo líder de temperança da Associação Geral, em 1962, foi o curso Como Deixar de Fumar em Cinco Dias. Desenvolvido pelo médico J. Wayne McFarland e pelo pastor Elman Folkenberg, o projeto foi realizado inicialmente na Nova Inglaterra e depois se espalhou pelo mundo.

No Brasil, o curso Como Deixar de Fumar se tornou uma iniciativa popularizada ainda na década de 1960. Nesse período também foram organizadas diversas escolas de recuperação de ­alcoólatras e fumantes, que funcionavam geralmente no prédio das igrejas adventistas. O médico Ajax Walter César da Silveira, cirurgião da Santa Casa de São Paulo, foi um dos personagens de destaque na promoção da temperança no Brasil. Já na década de 1950, ele organizou a Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo. Em 1975, ganhou destaque na comunidade médica internacional como representante brasileiro em um congresso mundial sobre alcoolismo, realizado em Acapulco, no México, com apoio da ONU. Também atuou com destaque na prevenção contra o tabagismo e na recuperação de fumantes.

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Os programas adventistas voltados à libertação dos vícios eram geralmente associados a campanhas evangelísticas. Desse modo, a proclamação do evangelho integrava a restauração física e espiritual. A partir dos anos 1980, as campanhas evangelísticas gradualmente se separaram desses projetos de saúde, e aos poucos essas iniciativas foram perdendo espaço no programa da igreja. Retomar a estreita parceria entre evangelismo e promoção da saúde é o desafio lançado pela Associação Geral para toda a igreja no ano de 2015.

INICIATIVAS VOLUNTÁRIAS

Hoje, a atuação adventista em favor da recuperação de dependentes químicos, no Brasil, é levada avante principalmente por líderes voluntários. Isaac Catarino é um líder remanescente das escolas de recuperação de alcoólatras e fumantes. Evangelista apaixonado, ele viu no trabalho de recuperação de dependentes químicos um amplo ministério. Há mais de 30 anos, ele dedica as noites de sexta-feira às reuniões com dependentes químicos na Igreja de Vila Ré, na zona leste de São Paulo. Como resultado, Catarino coleciona testemunhos de vidas transformadas por Deus: mais de 250 pessoas conquistaram a libertação dos vícios por meio desse trabalho, e várias famílias foram restauradas pelo evangelho.

Histórias de superação dos vícios também são encontradas na cidade de Igaratá (SP), onde funciona a Clínica Temperança e Saúde, sob a liderança de Roberto Guarda. Em um ambiente campestre, dependentes químicos são recebidos para um processo de desintoxicação e reorientação pessoal. Diferentemente de outras clínicas, o tratamento prevê a abstinência de todo tipo de drogas, inclusive álcool e cigarro. “Não queremos acabar trocando uma compulsão por outra. Num prazo mais longo, toda dependência é destrutiva. Não se deve viver em um estado de escravidão”, afirma Guarda.

A libertação é construída por meio de confiança no poder divino e em um dia a dia cheio de atividades. O tempo dos participantes é dividido em sessões de aconselhamento e orientação espiritual, trabalho e exercícios físicos. De acordo com Guarda, “é necessário estabelecer um ciclo virtuoso. Precisamos pensar em uma restauração completa, resgatando em cada pessoa a imagem moral de Deus”.

Com uma experiência de atendimento a mais de 3 mil dependentes químicos, e uma taxa de recuperação superior a 60%, Roberto Guarda vê a participação da família e da igreja como um elemento indispensável no processo de reabilitação. “Com a colaboração de familiares e o amparo de membros da igreja, a reabilitação tem chance de sucesso. A pessoa precisa fazer a parte dele, mas tem que encontrar uma contrapartida de aceitação.”

Em seu trabalho, além de levar diversos internos ao batismo, Roberto acaba resgatando grande número de fiéis que haviam se afastado dos caminhos de Deus. Ele revela que mais de 80% daqueles que o procuram são adventistas. Nesse contexto, a participação da igreja é decisiva. Seu desejo é ter mais parcerias com líderes e membros da igreja em oficinas, palestras, acompanhamento terapêutico, de modo que os internos sintam o interesse e o carinho da família adventista.

A pregação do evangelho realizada de modo integral, conforme se vê na história do adventismo e no exemplo de voluntários da atualidade, é um caminho de sucesso comprovado na restauração de dependentes químicos. Os milhares de vidas presas aos vícios, dentro e fora da igreja, demonstram que esse é um campo missionário dos mais desafiadores.

GUILHERME SILVA é editor na Casa Publicadora Brasileira

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