Os valores de Marina

Eleita pelo Financial Times a mulher do ano de 2014, Marina Silva baseia sua filosofia de vida na fé, determinação e proteção do meio ambiente

Perfil-Os-valores-de-Marina SilvaCerta vez, Jesus disse para os discípulos que, se eles tivessem fé como um grão de mostarda, conseguiriam até mover montanhas. A busca por esse tipo de confiança vibrante se tornou o lema de vida para a acreana nascida em Breu Velho, região do Seringal Bagaço, Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima, hoje com 57 anos, pelo menos 16 deles vividos como senadora e cinco como ministra do Meio Ambiente. Conhecida simplesmente como Marina Silva, ela mantém igualmente firme outro valor: a determinação. Para ela, a fé é necessária para remover as montanhas de obstáculos, e a determinação para avançar sobre os empecilhos.

E Marina precisou mesmo desses ingredientes em sua singular história de vida. Quem vê hoje essa mulher eleita pelo jornal Financial Times a personalidade feminina mais importante de 2014 não imagina como a aparentemente frágil ativista escalou montanhas altíssimas de lutas pessoais para chegar até esse ponto.

Analfabeta até os 16 anos, sobrevivente de doenças como malária e leishmaniose, Marina tinha tudo para não dar certo como pessoa. Da avó, que a criou a partir dos quatro anos de idade, garante que aprendeu os rudimentos do cristianismo que fazem toda a diferença na sua maneira de enxergar a vida, o trabalho e o futuro. “Lá no seringal não tinha igreja, não tinha padre, não tinha juiz, não tinha médico, não tinha nada”, afirma entre risos. A mulher que já dirigiu o Ministério do Meio Ambiente do Brasil pensou até em ser freira, mas logo se tornou obstinada lutadora pelos ideais ambientais, outra crença muito forte na sua trajetória, bandeira que defendeu Chico Mendes, um amigo e ícone da causa no Brasil.

Do pai, seringueiro, aprendeu a determinação. “Eu via meu pai, nos fins de semana, ajudar as pessoas da comunidade a cuidar dos seus gastos e vendas, depois de andar 14 quilômetros mata a dentro para extrair látex. Fazia isso para que o pessoal pudesse receber certinho seu dinheiro. Ele era o único que sabia fazer contas naquela localidade”, lembra.

SUSTENTABILIDADE

A relação próxima de Marina Silva com o meio ambiente é muito evidente. Ela pode não mais residir na floresta, mas a floresta ainda está dentro dela. Para Marina, a interação íntima com o ecossistema é real e permanente. “Nasci no meio da floresta, onde nossa existência social, material, econômica, simbólica e cultural dependia da floresta. Isso fazia parte da minha vida. Depois, fazendo algumas conexões, percebi que é muito incoerente você dizer que ama o Criador, mas não cuidar da criação”, comenta.

A entrevista de quase uma hora para a Revista Adventista foi concedida na residência de uma das suas filhas, em Brasília, em uma sala decorada com referências que remetem imediatamente ao lugar em que Marina nasceu. As cores da mobília, os artefatos indígenas pendurados, as plantas que ornamentam, tudo provoca uma viagem mental à Amazônia.

Pouco depois de iniciar a entrevista, um gostoso suco de maracujá foi servido a todos na sala. “Esse maracujá foi plantado aqui, é daqui mesmo”, anunciou Marina, orgulhosa de poder dizer que ali se bebe do que a natureza oferece. No fim da entrevista, a primeira coisa que ela fez questão de mostrar foi de onde tinha vindo a fruta.

Essa é Marina Silva. Alguém que, para sobreviver numa região sem qualquer atendimento básico de saúde, aprendeu tudo sobre plantas medicinais com um tio que viveu 25 anos entre povos indígenas.

A conexão entre fé e sustentabilidade veio um tempo depois na vida da professora de história, que fez especializações em terapia psicanalítica e psicopedagogia. De memória, Marina Silva cita diferentes textos bíblicos e os aplica ao conceito de preservação do que ela considera a criação de Deus. A ambientalista enfatiza que, conforme o livro de Gênesis, Deus colocou o homem no jardim do Éden para o cultivar e guardar. “Esse domínio da terra e de tudo o que há, em Gênesis, não é com os nossos referenciais de um jugo pesado. É um domínio amoroso, respeitoso”, interpreta.

POLÍTICA

Os exemplos de sua família humilde, mas extremamente devotada ao trabalho e à justiça social, foram ensinamentos tão fortes que ainda norteiam sua carreira. A mãe, que era costureira, tinha um forte espírito de serviço na comunidade. “Ela fazia desde roupas de batismo até vestimentas para funerais. Tudo isso de graça. Servia no que era necessário. A ideia de serviço e de solidariedade eu aprendi no contexto em que é mais propícia: a escassez. Contexto em que você sobrevive apenas se houver solidariedade”, explica.

Engajada desde cedo na política e religião, Marina tem um pensamento ao qual resume assim: “Nunca faço do púlpito um palanque e nem do palanque um púlpito”. Seus valores pessoais e os defendidos como pessoa pública se combinam bem, mas ela ressalta a necessidade de respeito à liberdade de expressão religiosa dos outros. É uma defensora assumida do Estado laico, que assegure os direitos dos que creem e dos que não creem.
Defensora do diálogo, ela admite que existe preconceito dos dois lados: tanto dos que demonstram sua fé quanto dos que afirmam não professar fé nenhuma. “Às vezes, há uma pressa muito grande em rotular, quando deve haver abertura para o diálogo, inclusive para que se possa entender melhor o ponto de vista do outro e colocar o seu”, esclarece.

Marina enxerga uma contribuição importante da comunidade cristã para a sociedade e mesmo para a política, mas chama a atenção para a instrumentalização da religião para favorecimento de apenas determinados grupos. Apesar de ser membro de uma igreja e frequentar sempre que possível os cultos dessa denominação, a ex-candidata ao Palácio do Planalto foge do estereótipo de ativista política evangélica. Em campanhas para cargos eletivos, sempre evita convocar reuniões ou comícios em congregações religiosas e dá preferência a espaços neutros. Ela entende seu papel como alguém que precisa trabalhar para favorecer não apenas os evangélicos ou cristãos, mas toda a sociedade.

SAÚDE INTEGRAL

A relação com a Igreja Adventista surgiu desde cedo. Suas duas filhas, a advogada Moara Silva e a jornalista Mayara Lima, estudaram durante cinco anos em internatos adventistas. Ambas são membros da igreja. E seu marido, Fábio Vaz de Lima, foi batizado no ano passado.

Uma das características que a ambientalista mais admira na denominação é a preocupação com a saúde das pessoas. Ela elogia também o perfil dos colégios adventistas. Mas, ao mesmo tempo, espera que os adventistas falem e ajam mais para promover a saúde do ecossistema, pois não se pode falar de estilo de vida saudável em um planeta doente.

O recado especial é de quem não apenas conhece o tema teoricamente, mas que aprendeu que o meio ambiente é fonte de sustento, de ensino e de fortalecimento de dois princípios muito importantes que a fizeram ser uma referência internacional: a fé e a determinação. [Fotos: Fotolia / Alexandre Severo]

FELIPE LEMOS é jornalista

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