Radical x Fiel

Fundamentalismo não deve ser confundido com fidelidade

Radical-x-fiel-lightstock_35311_578947Desde 11 de setembro de 2001, quando um grupo de terroristas coordenou o ataque às torres gêmeas, o tema do fundamentalismo religioso passou a ter destaque na agenda mundial.

Nas últimas semanas, porém, com o atentado ao jornal satírico francês Charlie Hebdo e as execuções brutais do Estado Islâmico, o tema voltou com força à tona. Milhões foram às ruas para protestar, líderes políticos e religiosos esqueceram suas diferenças e se uniram contra o terrorismo, o assunto ocupou manchetes diárias, os processos de segurança foram reforçados e o medo se espalhou.

A grande maioria dos jornalistas, comentaristas, governantes e líderes religiosos tem consciência de que não devemos generalizar ao fazer qualquer análise. Afinal, a atitude de alguns não pode ser colocada na conta de todos. Por outro lado, não há como ignorar o aumento do ódio mundial contra essas pessoas e suas organizações.

Não é a primeira vez que movimentos assim acontecem. Na Idade Média, a religião cristã dominante também obrigava as pessoas a aceitar suas crenças e tradições. O pior é que, naqueles dias, o movimento era oficial. A Bíblia foi retirada das mãos do povo, e muitas cruzadas foram realizadas para matar impiedosamente os “infiéis”. Quantos foram queimados, assassinados brutalmente, entregues às feras, enterrados vivos ou mortos por afogamento? Isso só para lembrar alguns métodos. Famílias foram divididas, cristãos sinceros foram silenciados e mentes brilhantes foram exterminadas aos milhares. O que vemos hoje é uma versão moderna das mesmas atitudes.

Todas essas barbaridades, além de provocar um sentimento de ódio, acabam lançando sementes para iniciativas futuras. A profecia nos indica que nos últimos dias outra vez haverá perseguição, condenação e morte em nome da religião. Todos serão obrigados a ser parte de um movimento apresentado em nome de Deus, mas construído por interesses humanos.

“A confusão criada pelos radicais acaba em discriminação contra quem deseja exercer seu direito de ser leal a Deus”

Em meio a tal cenário se aprofunda a confusão entre fundamentalismo e fidelidade. A questão não é o significado das palavras em si, mas o comportamento envolvido. Podemos ver os fundamentalistas como pessoas fiéis às suas crenças, porém de forma egoísta, fanática e desequilibrada. Estabelecem seus princípios e os impõem a qualquer preço. Já a fidelidade se manifesta em pessoas que não negociam princípios, mas também não os impõem. Creem na verdade absoluta, no Deus verdadeiro e na Palavra revelada, mas entendem que a crença é uma decisão pessoal.

O problema é que a fidelidade tem recebido o rótulo de fundamentalismo. Cada vez que alguém diz: “Estou disposto a perder meu emprego, um concurso ou um ano escolar para permanecer fiel às orientações de Deus”, aparecem pessoas para dizer: “Cuidado com gente radical! É por causa dessas pessoas que o mundo está enfrentando todas essas crises”. A confusão acaba em discriminação contra quem simplesmente deseja exercer seu direito de ser fiel.

Quando olhamos para o exemplo de Cristo, temos uma visão perfeita de fidelidade e liberdade. Ele foi completamente fiel, mas para isso não apoiou o uso de armas, não buscou poder, não incitou luta de classes e não viveu para si. Sua vida foi usada para demonstrar e compartilhar amor. Morreu por aqueles que não o amaram nem o aceitaram.

Precisamos seguir seu exemplo e nos manter fiéis a toda prova, sem temer pressão ou discriminação. Contudo, vamos fazê-lo com respeito e amor, sendo um testemunho vivo da real diferença entre fundamentalismo e fidelidade. [Foto: Lightstock]

ERTON KÖHLER é presidente da Igreja Adventista para a América do Sul

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Créditos da imagem: Fotolia

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