Tempo de vacas magras

Tesoureiro da Igreja Adventista para a América do Sul analisa o cenário brasileiro e dá dicas de como agir em momentos de turbulência econômica

MG_3557Em 2015, o Brasil está mais consciente de sua dura realidade. Nos últimos anos, a economia não tem ido bem e a inflação bate à porta, especialmente na conta de luz, nos combustíveis e nos alimentos. Quase todos os indicadores mostram que a economia brasileira está desequilibrada, passando pela forte desvalorização do real, o aumento do desemprego e dos juros e a queda da produção industrial. Num contexto mais amplo, a desaceleração da economia chinesa, a fragilidade dos bancos centrais, as mudanças climáticas, os conflitos internacionais, o aumento de impostos e a corrupção desenham nuvens bem mais escuras. Além dos reflexos na indústria, no comércio e no bolso do brasileiro, quais são os possíveis desdobramentos de uma crise financeira para a igreja?

Para entender essa questão, a Revista Adventista entrevistou o pastor Marlon Lopes, tesoureiro da Igreja Adventista para a América do Sul (Divisão Sul-Americana). Como administrador por vários anos, ele viu a igreja enfrentar (e superar) períodos como o da inflação galopante nas décadas de 1980 e 1990.
Numa leitura do cenário atual, Lopes compara a realidade econômica do Brasil com a de outros países sul-americanos e fala sobre as precauções que a organização tem tomado para que a missão continue avançando mesmo em situações de turbulências. Como bônus, ele também oferece dicas de economia doméstica que podem ajudar as famílias a manter o saldo positivo em tempos de “vacas magras”.

Como o senhor enxerga o panorama econômico nacional no médio prazo?

Vejo como um sinal de alerta. Existem motivos para preocupação, ainda mais com os anúncios frequentes ajustando para baixo as previsões econômicas. Quando isso é feito pelo governo, significa que vêm tempos de ajustes que podem ser bastante significativos.

Qual é sua avaliação da saúde econômica do Brasil em comparação com a dos demais países sul-americanos?

Alguns países têm enfrentado crises econômicas que nos preocupam. Contudo, quando vemos a economia do Brasil sofrer forte desaceleração, isso nos preocupa mais ainda, pois a contribuição financeira de dízimos e ofertas do Brasil representa 84% dos recursos da Divisão Sul-Americana.

Tendo em vista essa participação expressiva do Brasil, uma crise nacional poderia alterar as previsões de expansão da igreja

Uma crise pode alterar as previsões de expansão. Porém, o que temos visto em outras crises, não só no Brasil, é que a igreja cresceu até mesmo nessa situação. Isso não significa que podemos nos “deitar em berço esplêndido”, pensando que Deus resolve tudo, mas que, tomando as ações corretivas e fazendo os ajustes necessários, a igreja sai ainda mais forte.

Previsões mais pessimistas indicam que o país pode voltar às condições anteriores ao Plano Real. Como o senhor resumiria os tempos de hiperinflação?

Nessa época (antes de 1994), quando o país vivia seu período inflacionário mais agressivo, eu era tesoureiro do IAP [Instituto Adventista Paranaense]. Num ambiente assim, a visão de futuro é quase zero. Isso é ruim para as pessoas, que desaprendem a fazer poupança de longo prazo, para as organizações, que necessitam vender bens e serviços, e, claro, para a igreja, que tem seus projetos e planos de pregação do evangelho executados com os recursos provenientes dos dízimos e ofertas. Nos anos anteriores ao Plano Real, os produtos eram vendidos e os serviços oferecidos a preço de custo porque o dinheiro era aplicado no overnight. O over era uma preocupação maior até do que o cliente [no caso das instituições], pois era essa aplicação diária que fazia o resultado da organização. O dinheiro parado apenas um dia perdia muito poder de compra. No entanto, como o dinheiro precisa ser o meio e não o fim, esta regra não estava na ordem correta.

Essa memória pode nos ajudar no caso de uma possível crise?

Creio que isso precisa ser relembrado, pois foi amargo. Porém, os ajustes atuais são necessários em toda a cadeia de consumo, começando com o orçamento familiar e chegando até as organizações, independentemente de sua natureza. A igreja aprendeu muito com aquela época e ajustou seus índices financeiros para que, diante de episódios semelhantes, estivéssemos ainda mais sólidos.

Que tipo de precauções a igreja tem tomado?

A igreja trabalha sempre com uma precaução bastante rigorosa com os recursos financeiros que administra. Seguimos regras e elas nos impedem de nos expor facilmente ao risco. Sendo assim, neste cenário econômico, nosso plano é reavaliar projetos de investimentos que exijam valores expressivos, mas mantendo todos que estejam focados na essência da igreja: “comunhão, relacionamento e missão”. Na prática, significa que os recursos destinados a livros missionários, manutenção dos pastores, construção de igrejas, preparação de materiais evangelísticos, cursos bíblicos, aplicativos, compra de Bíblias e evangelismos de colheita serão mantidos.

É possível que, num cenário de crise mais aguda, a igreja sofra dificuldades financeiras em algumas regiões. Nossa organização está preparada para a cooperação?

Algumas regiões podem não ter o suficiente para a manutenção. Nesse caso, as organizações superiores necessitam ajustar seus recursos para auxiliar e manter as atividades das demais. A igreja é uma só, e sempre andamos juntos. O mais forte ajuda o mais fraco.

Seria prudente que os membros também adotassem precauções? O que o senhor recomendaria?

Em um relatório que li recentemente sobre a crise econômica brasileira, o consultor orientava as pessoas a colocar seu dinheiro no fundo mais conservador possível. Por quê? Pelas incertezas. Minha sugestão é sermos ainda mais prudentes nos gastos, evitando dívidas novas e tentando eliminar dívidas anteriores, especialmente as de cheque especial e de cartão de crédito.

Como a situação de endividamento familiar pode se agravar num período de alta de juros e restrição ao crédito?

Existem riscos de agravamento da situação financeira se o período de crise perdurar. Dentre vários, cito apenas três: (a) perda do emprego ou diminuição de receitas, se o salário for variável; (b) dívida com taxas de juros elevadas, tornando o saldo devedor impagável; (c) nível de endividamento acima de 30% da receita familiar líquida. Qualquer dessas alternativas oferece riscos de desestruturação financeira. Havendo a combinação de duas ou mais, a falência financeira familiar pode ser iminente.

Em sua opinião, quais são as prioridades financeiras de uma pessoa que acredita na volta de Jesus?

Ellen White declara que Deus dá os recursos para que sejam colocados a serviço dele (Conselhos Sobre Mordomia, p. 220), e essa deve ser nossa prioridade. Quando esse valor se perde, é invertido ou esquecido, você se expõe a um risco desnecessário. No ideal de Deus, o eu deve estar sempre em segundo plano, e a igreja, em primeiro. A pregação do evangelho deve ser a primeira preocupação de um adventista.

O que nenhuma crise financeira pode tirar do cristão e que oportunidades momentos difíceis oferecem?

Em João 16:33, Jesus afirma: “No mundo tereis aflições”. Enquanto vivermos aqui, as necessidades não estarão ajustadas aos recursos, mas temos muitas promessas que nos tranquilizam quanto ao futuro. Creio que Deus não faz nada que cabe a nós. Temos crise financeira no país? Administremos as finanças, pois esta é nossa parte. Deus faz aquilo que não conseguimos fazer. Ele não se limita a uma crise, mas move-se através dela. Em algum momento, a mensagem da salvação continuará a ser pregada sem dinheiro. A crise pode ser um pequeno exercício para esse tempo futuro.

CARREIRA PROFISSIONAL

Natural de Porto Alegre, Marlon Lopes é casado com Leni dos Reis Lopes e tem três filhos e dois netos. Graduado em Ciências Contábeis, cursou estudos em Teologia e completou a pós-graduação em Gestão Empresarial. Iniciou sua trajetória em 1978 como caixa e, depois, foi contador do Instituto Adventista Cruzeiro do Sul. Desde então, foi eleito tesoureiro em várias associações, no Instituto Adventista Paranaense e na União Sul-Brasileira. Foi diretor da Rede Novo Tempo e, na época, também apresentou o programa Saldo Extra. Desde 2010, exerce a função de tesoureiro da Divisão Sul-Americana. No momento, está lendo o livro Geração Perdida, de David Kinnaman, e indica três livros sobre finanças: Conselhos Sobre Mordomia (CPB), de Ellen White, Casais Inteligentes Enriquecem Juntos (Gente) e Como Cuidar do seu ­Dinheiro (Bei). [Foto: Victor Trivelato]

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    Entrevista consistente, logo, realista. O pastor Marlon eram tesoureiro do IAP quando minha saudosa filha Renata Correia lá estudava, nos anos 1991 e 1992. Ela morreu em um acidente automobilístico em 13/01/1994 próximo a Várzea Grande, MT. Dormiu em CRISTO pois O amava e procurava fazer Sua vontade. Logo nos veremos e para sempre. As influências e lembranças do IAP são duradouras. Quanto a crise mencionada, preparemo-nos porque “dias piores virão”, mas há DEUS em Israel. Como diz o Espírito de Profecia, se olharmos para o que o SENHOR já fez por nós, nada temos a temer. A Igreja não é nossa, é do SENHOR e a ela nos juntamos para partilhar de suas bênçãos e testemunhar, portanto, já surgiu vitoriosa. Quando alguém pergunta (é comum) qual é sua igreja? Já digo, não tenho igreja e desconfio de quem tem. DEUS tem a Sua Igreja e por ELE fui convidado a dela fazer parte. Uma honra sem precedentes! Se perguntam se sou evangélico, já digo: “Não, da Bíblia toda, pois somente os quatro evangelhos não a constituem, mas dela fazem parte”. Se perguntam se sou crente (termo ainda muito usado pela Igreja), digo, crentes até os demônios são, sou cristão, portanto, discípulo de CRISTO. Concluindo, se a Igreja é de DEUS, se toda a Bíblia é nossa única regra de fé e prática e se somos cristãos, porque temer as crises financeiras? DEUS é o dono do Universo e de tudo o que nele há. Lamento quando fecham escolas, por exemplo, reduzindo o atendimento ao maior número de adventistas e construindo verdadeiras e caras obras de arte em alguns centros maiores, como aconteceu em meu Estado. Qual é a explicação? Às vezes procede, mas não cabe em minha mente que “DEUS faliu”, e sim que “nós falimos”. Como diz o pastor Marlon, prudência e clamor pela sabedoria e intervenção do Céu.
    Ir. Milton Chicalé Correia
    Alto Araguaia (MT)