Cerimônia de casamento é produzida pensando em noivo com deficiência visual

Programa realizado em templo adventista chamou a atenção da imprensa em Campo Grande (MS)

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Cada momento da programação foi narrado para que Bruno não perdesse nenhum detalhe da cerimônia. Foto: Deivison Pedrê
Uma cerimônia de casamento pensada para um noivo com deficiência visual chamou a atenção da imprensa na cidade de Campo Grande (MS) nesta semana. O evento, realizado no último domingo, 26 de abril, na Igreja Adventista Alvorada, possibilitou que o advogado Bruno Duarte Mello vivesse a experiência de maneira mais significativa. Para facilitar a percepção dele, toda a programação foi narrada nos mínimos detalhes por um amigo do casal.

“Queríamos algo que não fugisse às características de uma cerimônia de casamento, mas que fosse o mais próximo possível do contexto do Bruno”, explicou a noiva Juliana Peruzzo Mello em entrevista à Revista Adventista. Com esse objetivo em mente, cada parte do programa foi planejada levando em conta o mundo de Bruno. No momento da entrada da noiva, por exemplo, ele foi conduzido por uma dama à porta da igreja onde, protegido por um gazebo e cortina, foi o primeiro a “vê-la” por meio da descrição do narrador: “Juliana usa um vestido de corte evasê que vai se alargando para formar a calda… É de cetim com renda, tem 2,5 mil pérolas que garantem o brilho, 3m de comprimento tem o véu e a ternura do rosto é marcada por uma maquiagem leve…”.

O sermão também foi personalizado, conforme conta o pastor que oficiou a cerimônia. “Foi algo único em meu ministério. As palavras tinham um peso maior, pois através delas precisava fazer o Bruno sentir cada detalhe do casamento. Escolhi palavra por palavra e me preocupei em levar as pessoas presentes ao mundo do Bruno e não o Bruno ao mundo delas”, explica Eliandro Gonçalves.

Foto: O advogado Bruno Duarte Mello, que perdeu o visão aos 6 anos de idade, descobriu o mundo e o amor por Juliana através das mãos. Foto:
O advogado Bruno Duarte Mello, que perdeu a visão aos 6 anos de idade, descobriu o mundo e o amor por Juliana através das mãos. Foto: Deivison Pedrê
Bruno e Juliana se conheceram em dezembro de 2013, quando participavam de um casamento. Na ocasião, ele tinha sido convidado para tocar guitarra e ela, para cantar. A paixão de ambos pela música foi o ponto de partida para uma amizade que, cerca de um mês depois, virou em namoro. “No início, eu tinha medo de não saber lidar com ele porque era a primeira vez que estava convivendo com uma pessoa cega. Mas ele foi bastante compreensivo e, com o tempo, descobri que ele era uma pessoa extraordinária, alguém sensível, atencioso, carinhoso”, relata a noiva.

Bruno perdeu a visão aos 6 anos de idade depois que o olho direito foi atingido por glaucoma congênito e o esquerdo, oito meses depois, sofreu descolamento de retina num acidente de bicicleta. “Mesmo cego, Bruno nunca usou isso como justificativa para não fazer qualquer coisa. Pelo contrário, sempre encarou a limitação como um motivo a mais para dar sempre o melhor de si”, afirma Paula Maciulevicius, que conheceu Bruno quando estudaram na mesma escola.

A perda da visão até mudou o sonho que ele tinha de ser piloto, mas não limitou sua força de vontade. Aos 10 anos, Bruno começou a pensar em cursar Direito. Focado nesse sonho, ele se tornou o advogado com deficiência visual mais jovem do Brasil. Passou no exame da OAB quando estava no 9° período do curso e recebeu sua carteira profissional em 2013, com apenas 21 anos de idade. Na época, ele também se tornou membro da Comissão Temporária de Acessibilidade (Comace) da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de Mato Grosso do Sul (OAB-MS), desempenhando um importante papel na luta por direitos da pessoa com deficiência.

“Ainda há muitos estereótipos no Brasil quanto à pessoa com deficiência visual. Somos vistos por alguns como coitadinhos. Por meio do meu testemunho, no entanto, procuro mostrar que, com Deus, nada é impossível”, afirma o advogado, que hoje atua em um escritório de advocacia em Campo Grande e é membro da Comissão dos Idosos, das Pessoas com Deficiência e da Acessibilidade da OAB no estado. [Márcio Tonetti, equipe RA / Com informações do site Campo Grande News]

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