Memórias da Guerra do Vietnã

Fuga de Saigon

Reportagem especial publicada pela Adventist Review lembra a fuga histórica de um grupo de adventistas do Vietnã, fato que completou 40 anos nesta quinta-feira, 30 de abril.

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Poucos são os que sabem do contexto terrível em que viviam os adventistas no Vietnã, especialmente próximo ao fim da guerra. Perto do aeroporto Tan Son Nhut, havia o Hospital Adventista de Saigon, doado à Igreja Adventista, mas sob coordenação do Exército dos Estados Unidos. O local ainda contava com a ajuda da Universidade Adventista de Loma Linda. Muitos funcionários do governo estavam bem familiarizados com o hospital, especialmente após a queda de um avião de transporte militar (C-5 Galaxy), em 4 de abril de 1975, carregado com órfãos e seus responsáveis ??como parte de uma operação chamada Babylift. Na ocasião, o hospital prestou cuidados a todas as vítimas do acidente trágico. Por estarem associados aos americanos, os servidores do hospital e membros da igreja ficaram com suas vidas ameaçadas pelo perigo iminente, uma vez que os comunistas entravam país a dentro, rumo a Saigon.

Reportagem-Saindo-de-Saigon-2 O ex-presidente da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA), Ralph S. Watts, foi o presidente da União Sudeste da Ásia para as igrejas da Divisão do Extremo Oriente, com sede em Cingapura. Na semana que antecedeu o dia 30 de abril daquele ano, ele foi encarregado de ir para Saigon para fechar o hospital e facilitar a evacuação dos missionários, equipe médica e líderes de igrejas vietnamitas. Era um trabalho quase impossível.

De fato, a facilidade se transformou em dificuldade. Watts ficou extremamente preocupado quando percebeu que centenas de americanos ou dependentes de cidadãos americanos e vietnamitas que tinham ligação com os EUA estavam deixando o país, enquanto os funcionários do hospital e líderes da igreja permaneciam correndo risco de morte. Em contato com um dos oficiais, foi confessado que os servidores estavam longe de estar no topo da lista de saídas do país e que Watts deveria encontrar por si mesmo uma maneira de tirá-los de Saigon.

Diariamente, centenas de pessoas se aglomeravam na entrada da base aérea, esperando que algum grande milagre pudesse acontecer. Isto fez com que a vigilância por oficiais do governo aumentasse, além da inserção de grandes barricadas de arame farpado para impedir a entrada. A menos que as pessoas tivessem os documentos ou autorizações apropriadas, não havia nenhuma maneira de pegar vôos. A essa altura, as orações de Watts pareciam não ser ouvidas, a ponto de ele escutar duras críticas da equipe do hospital por não haver cumprido a promessa de evacuá-los do local da guerra.

A última esperança tinha um nome: senhor Johnson, que, até onde Watts sabia, era um importante elo para que a evacuação realmente acontecesse. A atribuição de auxiliar na saída do país foi concedida diretamente pelo presidente americano da época, Gerald Ford. Encontrá-lo se tornou a prioridade máxima. Numa quarta-feira à noite, Watts seria informado de que Johnson estaria na base aérea e lá, foi encontrado saindo de um automóvel preto. Sua aparência não condizia com a de alguém em um cargo tão importante: camisa e calças amarrotadas, cabelo despenteado e barba por fazer, mas realmente, era ele.

Johnson revelou conhecer o trabalho do Hospital Adventista de Saigon e quis saber de Watts quantas pessoas ele acharia que deviam ser evacuadas, no caso de existir uma autorização para tal. “Não mais que 175”, Watts diria. No entanto, Johnson afirmaria que, até aquele momento, nenhum grupo tão grande havia saído de lá, de uma só vez, e que não podia prometer nada, por enquanto.

De volta ao hospital, veio a tarefa mais difícil. Ralph Watts delegou a tarefa ao pastor Le Cong Giao, presidente da Missão, de fazer uma lista com nomes de 175 pessoas até às 8h da manhã do dia seguinte. “Você está nos pedindo para decidir quem vai viver e quem vai morrer!”, disse o pastor Giao, frase que Watts nunca esquece. Enquanto a lista era feita (incluindo nomes de servidores não adventistas por seu valoroso trabalho), Watts tentou descansar, mas em vão, pois sabia que inúmeras lágrimas seriam derramadas em breve. Já na madrugada, ele seria interrompido por uma diretora de evangelismo para crianças, clamando, em prantos, pela salvação de seus filhos. O que restou foi pedir a Deus que concedesse aos homens sabedoria para fazer suas escolhas.

O fato é que quando amanheceu, a lista de nomes não veio com apenas 175 nomes e sim, 225. Watts não ficaria satisfeito, já que o oficial tinha deixado claro que a primeira quantidade informada já era grande demais em caso de evacuação. Foi então que o pastor Giao confrontou Watts com algumas palavras que ele havia dito em uma meditação feita no dia anterior. “Pastor Watts, deixe-me fazer-lhe uma pergunta. Você se lembra da passagem da Escritura que você leu para nós? ‘Eis que eu sou o Senhor, o Deus de toda a carne . Há alguma coisa demasiada difícil para mim? ‘ Pastor Watts, tudo o que estamos pedindo é por favor, por favor, tente”, apelou Giao.

Por volta de 13h30, ocorreria a reunião com o oficial Johnson. Quando perguntado da quantidade de nomes, Watts tentou justificar, mas logo foi interrompido com a mesma pergunta. “Quantos nomes estão na lista?”. Engolindo seco, respondeu: “senhor, há 225 nomes”. A mudança fez com que Johnson precisasse consultar o general, a embaixada, o departamento de Estado e até o Pentágono.

Reportagem-Saindo-de-Saigon-1Três horas depois, o que parecia ser um pedido certamente negado, se tornou a maior das bençãos vindas através da incansável fé dos servidores do hospital. O general foi convencido por Johnson a ajudar os servidores do Hospital Adventista de Saigon justamente pelos amplos serviços prestados à comunidade ao longo dos anos. Comovido com a situação, o general enviaria a seguinte carta à embaixada americana:

Embaixada dos Estados Unidos da América
Escritório do Adido de Defesa
24 de abril de 1975

Para quem possa interessar:

Os manifestos em anexo são dependentes de indivíduos que estão intimamente associados com o governo dos Estados Unidos. Devido a esta estreita associação com a gente, suas vidas podem estar em perigo.

H.D. Smith, Jr.
Major General, Exército dos Estados Unidos

No fim das contas, não foram apenas 225 pessoas que deixaram Saigon, e sim 410. Eles deixaram o país em oito vôos. O aeroporto foi totalmente desligado e muitas das evacuações foram feitas de helicóptero e de barco. Em seguida, a Universidade de Loma Linda alojou todas as 410 pessoas até que pudessem ser feitos novos acordos para o início de uma nova vida na América. Watts estava lá quando eles chegaram, vendo um êxodo inacreditável, que já resultou em uma forte base de vietnamitas adventistas do sétimo dia na América do Norte. [Equipe RA, Willian Vieira / Com informações e fotos da Adventist Review Online / Diálogo Universitário]

REENCONTRO

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No último dia 25 de abril, um encontro especial relembrou os dias vividos por adventistas durante a Guerra do Vietnã. O evento aconteceu na Igreja Adventista Grove Garden, no sul da Califórnia, e contou com a participação de alguns sobreviventes que estavam no último vôo que retirou adventistas do país em 1975. Ralph S. Watts estava lá para lembrar dos tenebrosos dias vividos durante a guerra.

sobreviventes-guerra-do-vietna-2Centenas de vietnamitas, incluindo alguns que não se viam há 30 e até há 40 anos, se reencontraram. Aqueles que não estão mais vivos, foram representados por pessoas de segunda e terceira geração, sedentos por histórias e autógrafos de quem viveu o drama na pele. O hospital é hoje um museu militar. Na ocasião, Watts também sugeriu um novo reencontro, mas com a intenção de ocorrer em Saigon em, no máximo, dois anos. [Informações e Fotos: Adventist Review]

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