Quem está frio: o louvor ou o cantor?

Alguns confundem adoração com solenidade formal, enquanto outros confundem o espaço do templo com sua sala de estar. O louvor não precisa ser feito nem com notas de funeral nem com sons de carnaval

Coluna-Joezer-site-RA-Fotolia_81385523_Subscription_XXLQuantas vezes você já ouviu dizer que os momentos de adoração musical na sua igreja têm uma temperatura que varia entre morno e frio? E quantas vezes você ouviu uma resposta rápida dizendo que isso é “falta de Jesus no coração do povo”?

De uma forma geral, a adoração precisa ser mais calorosa? Sim. O povo vai à igreja sem espírito de adoração? Também. No entanto, colocar a culpa na mornidão do louvor e na falta de comunhão nos leva a um beco sem saída: a adoração é fria por causa do povo ou o povo é frio por causa da música?

Pensando bem, nem a monotonia do serviço de louvor nem a frieza espiritual da congregação são “culpadas” isoladamente por essa situação.

Por um lado, a adoração pode estar sem vigor na sua igreja por causa da forma como o louvor está sendo conduzido. Muitas vezes, as igrejas têm tentado tapar a desorganização usando a música como peneira. É quando se ouve expressões do tipo: “enquanto o culto não começa, vamos cantar o hino …”. É verdade que, às vezes, há uma emergência: o pregador não chegou a tempo, o diácono contou errado o número de cadeiras na plataforma, a porta de acesso à plataforma emperrou e por aí vai. Mas, se todo culto tem uma emergência, das duas, uma: ou acabam com a emergência ou a emergência acaba com o culto.

Por outro lado, as músicas escolhidas para os momentos de louvor da congregação às vezes são inadequadas. Isso inclui hinos antigos e cânticos modernos. Pense com franqueza: por que tantos hinos do hinário não entusiasmam uma boa parcela da congregação? Você acha mesmo que é falta de comunhão do povo?

Alguns pensam em resgatar velhos hinos que deixaram de ser cantados. Ora, se um hino deixou de ser muito cantado é porque ele se tornou pouco preferido. Vários hinos suportaram a passagem do tempo, mas outros não envelheceram muito bem.

Há líderes de louvor que procuram estimular o canto congregacional por meio de canções contemporâneas. Não há problema nessa atitude. Afinal, os hinos do século 19 não nasceram tradicionais. Eles eram a linguagem musical contemporânea dos crentes de sua época. Mas, em algumas ocasiões, o louvor não empolga a igreja porque, enquanto alguns adotam novos modelos litúrgicos de forma irrefletida, outros não aceitam novidade alguma.

Hinos vibrantes e outros solenes, alguns alegres e outros mais reflexivos. Quem dirige o louvor precisa levar em conta a unidade congregacional e não somente a diversidade musical. Porque, dependendo do repertório escolhido, o dirigente da música pode auxiliar na criação de uma atmosfera de adoração e contentamento, mas também pode entediar ou constranger uma congregação.

Muitas vezes, estamos pensando somente em nosso gosto musical e no senso comum sobre adoração. Alguns confundem adoração com solenidade formal, enquanto outros confundem o espaço do templo com sua sala de estar. Por que se apegar a um extremo ou outro? O louvor não precisa ser feito nem com notas de funeral nem com sons de carnaval.

Não existem soluções mágicas para fazer as pessoas cantarem “em espírito e em verdade” (João 4:23). O regente poderá levar um repertório da maior excelência e apreciação do povo, mas de nada adiantará se as pessoas não suspirarem por Deus como a “corça suspira pelas correntes de águas” (Salmos 42:1). A música poderá ser a mais contemporânea, mas se eu não me alegrar quando me disserem “vamos à casa do Senhor” (Salmos 122:1), o louvor será incompleto. O hino poderá ser o mais tradicional, mas se eu não celebrar com júbilo nem servir com alegria, não haverá adoração.

Nosso louvor não existe para que Deus nos ame. Nós o louvamos porque ele nos amou primeiro (1João 4:19). Nossa adoração também não serve para mostrarmos que somos bons. Nós o adoramos porque “Ele é bom e a Sua misericórdia dura para sempre” (Salmos 136:1). [Imagem: Fotolia]

Joêzer Mendonça, doutor em Música (UNESP), é professor da PUC-PR e autor do livro Música e Religião na Era do Pop

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  • Ricardo Oliveira Luz

    A qualidade do louvor na adoração reflete o conceito que temos de Deus e de Sua vontade. Se esta concepção é mais influenciada pela cultura pós-moderna do que por uma experiência pessoal com a Palavra de Deus, isto certamente se refletirá em nosso gosto musical e nas escolhas que fazemos.

  • Milton Chicalé Correia

    No tocante à música na Igreja, observo positivamente as palavras de Joêzer Mendonça, com ressalvas. Preocupo-me com o desfecho do que vemos atualmente. Estamos nos aproximando demais do estilo pentecostal, quando devemos ser mais criteriosos entre o que se reputa “velho”, “tradicional” e o “moderno”. Não é a primeira vez que vejo “censuras” veladas ou explícitas quanto a alguns hinos antigos. Deve ser porque seus autores eram menos espirituais que nós, ou quem sabe, menos “dinâmicos”? Que seria da Obra se fôssemos os pioneiros da Igreja! Alguns já vêem a Bíblia como “antiquada” em certo sentido. E o Espírito de Profecia? Escreveu para aquela época. Estamos vendo muito bem nossa trajetória. Não houve elogios à Igreja de Laodicéia, mas censuras e conselhos. É a prática contumaz de se olhar velhos como ultrapassados, em quase todos os aspectos. O consolo que me resta, porque sou um deles, retirado pelo ALTÍSSIMO de uma origem bastarda para chegar ao doutorado em educação e advogado, é que, sem ELE nada sou e felizmente “ELE é o mesmo, ontem, hoje e eternamente”.

    • Helia Vasques Mascioli

      Concordo plenamente, com o Dr Milton Chicalé Correia. O Nosso Deus não muda, porque haveremos de mudar os hinos, ou o jeito de se expressar , quando louvamos e adoramos ao Senhor??!!