Remédios para o mundo

O médico que popularizou as feiras de saúde fala sobre a importância dessa mensagem para a evangelização
Por Márcio Gomes Basso

viriato-ferreira-credito-Pedro_Soares_Photography Viriato Emanuel Pinheiro de Pina Ferreira conhece na prática a estreita relação entre missão e saúde. Nascido em Angola e filho de portugueses, ele cursou medicina na África do Sul, onde conheceu a esposa, Judith. Com ela, Viriato compartilhava a profissão e o sonho da juventude de servir no campo missionário.

Eles se casaram enquanto cursavam a faculdade, e em 1994 aceitaram o chamado para trabalhar numa região remota da Namíbia, na África, onde viviam etnias que precisavam de auxílio médico e nunca tinham ouvido falar sobre o evangelho. Durante quatro anos, Viriato e Judith se dedicaram a atender os doentes, fazer cirurgias e realizar visitas às aldeias para pregar a Bíblia.

De lá, eles partiram para Cambridge, na Inglaterra, a fim de continuar os estudos. Foi quando surgiu um convite da igreja para que abrissem um centro de vida saudável em Portugal. Da noite para o dia, os planos de retorno ao campo missionário foram trocados por um projeto na área de medicina preventiva. Por isso, em busca de capacitação, eles estudaram dois anos e meio no Wildwood Lifestyle Center & Hospital, um ministério de apoio da igreja no Tennessee (EUA) que há 70 anos oferece treinamento médico-missionário.

De volta à Europa, em 2002, e sem dinheiro para o projeto da clínica, o casal abriu um consultório em Lisboa. Logo as portas também se abriram para a realização das primeiras feiras de saúde. Essa foi a maneira encontrada por eles de apresentar os oito remédios naturais e conectar a igreja com as necessidades dos europeus. Em pouco tempo, a ideia se espalhou pelo continente, alcançando milhares de pessoas, e Viriato, que havia trabalhado como líder do departamento de saúde da Igreja Adventista em Portugal (União Portuguesa) e em 13 países da Europa (Divisão Inter-Europeia), foi chamado no ano de 2014 para atuar como diretor associado desse ministério na sede mundial adventista.

No mês em que as igrejas vão distribuir milhões de livros Viva com Esperança e organizar centenas de feiras de saúde, nada melhor do que conversar com um entusiasta desse projeto.

Como nasceram as feiras de saúde?

O projeto com oito estações sobre os remédios naturais nasceu na década de 1980, no Instituto Weimar, com a família Nelson. Eles usavam 24 painéis grandes pintados à mão para ilustrar. No entanto, os materiais eram muito pesados e caros. Porém, tudo mudou em 1999, quando o pastor Mark Finley pediu ao pastor Charles Cleveland, um amigo dele que trabalhava no Wildwood, que o ajudasse num evangelismo em Bucareste, Romênia. Nascia ali o modelo conhecido como expo-saúde na Europa e feira de saúde no Brasil (veja como organizar uma clicando aqui). Os painéis eram menores, mais leves, e os testes foram simplificados. Foi um sucesso! Em 2000, o pastor Cleveland me convidou para coordenar uma feira em Honduras e no ano seguinte organizamos uma em Atlanta, nos Estados Unidos.

Qual foi o impacto desses eventos na Europa?

Em 2002, chegamos a Portugal para estabelecer um centro de vida saudável, mas Deus tinha outro plano mais urgente até então desconhecido por nós. Fizemos a primeira feira na Ilha de São Miguel, nos Açores. Lembro-me de que questionei a Deus se apareceria alguém. No fim, em alguns dias, 650 pessoas visitaram a feira. Em 2003, a pedido da sede adventista de Portugal, realizamos quatro feiras para que servissem de modelo para todas as igrejas do país. Resultado: 6 mil pessoas visitaram nossos estandes naquele ano e mais 15 mil visitas passaram por 19 feiras realizadas em 2004. Prefeituras e shoppings chegaram a patrocinar alguns eventos. Logo os adventistas da Europa ocidental foram observar e aprender. Só na Romênia estima-se que já foram organizadas 500 feiras. Em Portugal, 120 mil visitantes passaram pelos eventos.

Nas feiras, como é apresentada a relação entre saúde e espiritualidade?

Há um estande que aborda o tema da confiança em Deus. Nele temos a oportunidade de falar com as pessoas sobre como a fé influencia a saúde. Demonstramos empatia pela dor delas e manifestamos interesse em orar por elas. Depois das feiras, realizamos vários seminários sobre nutrição, estresse e família. Nesse contexto, muitos aceitam estudar a Bíblia. É interessante ver que, mesmo em países muito secularizados como a Suécia e a Inglaterra, todos estão procurando sentido para a vida. O materialismo não lhes dá isso, e tampouco a espiritualidade filosófica. As pessoas estão procurando integridade, honestidade, respeito, sacrifício próprio, alguém em quem confiar. E Jesus é esse alguém por meio de sua igreja.

Qual tem sido a recepção ao livro missionário?

Tem sido uma grande bênção porque ele vai ao encontro das necessidades das pessoas. Fora da América do Sul, a resposta também tem sido muito boa. Porém, devemos pensar no livro mais como uma fonte de esperança e menos como um convite para as nossas reuniões. Cada livro tem uma mensagem que pode mudar a vida de quem o lê.

Por que em algumas regiões do planeta a mensagem de saúde é mais valorizada entre os adventistas?

Por razões históricas, culturais, econômicas, religiosas e pessoais. Nos Estados Unidos, por exemplo, a igreja foi abençoada pela presença de Ellen White, cuja mensagem incluía aspectos teológicos e práticos, como os de saúde. Em outras regiões, apesar de bem-intencionados, alguns missionários podem ter pensado que esse aspecto da mensagem não seria adequado para certos grupos. A reforma de saúde pode também ter sido apresentada de maneira absolutista e crítica, gerando rejeição. Por fim, existe a questão da vontade, porque a mudança de hábitos não é fácil.

Como abordar esse tema com equilíbrio?

Ter o conhecimento sobre a reforma de saúde e não fazer nada é indiferença. Por outro lado, exigir das pessoas mais do que elas estão preparadas para receber pode ser extremismo. Portanto, nosso papel é comunicar com tato aquilo que é construtivo.

Na prática, como viver a reforma de saúde?

A mensagem de saúde não tem que ver só com alimentação; ela inclui exercício físico, descanso e outros hábitos. Portanto, comece com aquilo que você pode fazer hoje. Pode caminhar durante 30 minutos em três dias na semana? Inicie com isso. Pode desligar o computador para ter um momento de culto com sua família e ir dormir mais cedo? Faça isso hoje mesmo. Pode beber mais água? Não deixe para amanhã. Deus está ao nosso lado para ajudar.

Tem se popularizado a dieta vegana. Qual é a diferença entre ela e o vegetarianismo?

O regime vegano tem como base evitar o sofrimento dos animais. A grande maioria dos adventistas vegetarianos não deixou a carne por esse motivo. Com base na Bíblia, nos escritos de Ellen White e na ciência, a Igreja Adventista recomenda uma alimetação vegetariana equilibrada, seja ela estrita ou ovo-lacto. No caso de quem ingere ovos e leite, deve-se fazê-lo com moderação. Para o vegetariano total, recomenda-se a suplementação de vitamina B12. Para ambos, ­recomenda-se que evitem frituras e produtos refinados e que comam verduras, hortaliças, leguminosas, frutas, cereais integrais e oleaginosas. O caminho é ter o melhor regime possível, nas circunstâncias em que se vive.

Seja nas metrópoles europeias ou no interior da África, qual é a importância da mensagem de saúde para a evangelização?

Todos procuram felicidade e paz. No entanto, estão quebrados física e emocionalmente. Quando se encontram com a personalidade de Cristo, são atraídos por ela. O principal desafio ao evangelismo não está fora da igreja, mas dentro de nós. Quando vivemos à semelhança de Jesus e perto dele, o evangelismo torna-se tão natural como respirar, porque ele vive em nós.

SAIBA MAIS

ENTRE OS HIMBAS

Viriato e Judith foram adotados como “filhos” do povo himba, na Namíbia. No Hospital de Opuwo, por quatro anos, eles foram responsáveis pela saúde de 40 mil pessoas. Por vezes eles atenderam mais de 100 doentes por dia. Posteriormente, os médicos contaram com a ajuda de um casal pastoral e um instrutor bíblico. Foi também no campo missionário que eles adotaram uma menina de oito anos, Muundja, e tiveram seu primeiro filho biológico, Daniel. Mais tarde, nasceria Clarisse, a caçula.

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