O efeito do apego

O impacto da mãe na saúde emocional da criança tem reflexos durante a vida toda

Fotolia_79892025Ser mãe não é fácil. É “padecer no paraíso”. Quando alguma coisa dá errado, a frase é conhecida: “Culpa da mãe”. De fato, a mãe (ou alguém que desempenhe esse papel) é fundamental na formação emocional do filho não só na infância, mas também na vida futura.

Os cuidados recebidos por uma criança em seus primeiros anos de vida são vitais para sua saúde mental. Como isso acontece? É simples. A mãe que proporciona uma vivência calorosa para o filho, com disponibilidade emocional que seja percebida por ele e que resulte em satisfação e prazer para ambos, está num bom caminho. Se a criança não experimenta esse tipo de relação, sofre de “privação da mãe”, o que gera efeitos devastadores.

A ausência da mãe por motivo de trabalho, viagem ou doença deve ser suavizada por um cuidador em quem a criança confie. Mesmo parcial, a privação da mãe gera angústia, carência de amor, sentimento de vingança, culpa e depressão. Casos graves resultam em distúrbios nervosos, personalidade instável, incapacidade de formar vínculos e estabelecer relações na vida adulta.

John Bowlby, famoso psicólogo britânico, tornou-se referência no tema da formação do apego e vínculo entre mãe e filho. Para ele, a criança se ­vincula especialmente a quem cuida dela. Atender às necessidades básicas, em última instância, resulta na sensação de segurança e pertencimento. Na vida adulta, isso se reflete na disposição para buscar proximidade com alguém e formar um laço duradouro com um parceiro. Bowlby desenvolveu uma teoria sobre a natureza do vínculo e classificou o padrão de apego em quatro tipos:

Apego seguro. É o tipo desejado de apego. As crianças choram e protestam quando a mãe vai embora e a saúdam alegremente quando ela retorna. Elas se apoiam na mãe como base segura; deixam-na para sair e explorar e retornam para se tranquilizar; buscam proximidade, são cooperativas e demonstram pouca raiva. Nesse tipo de relação, a mãe geralmente reage de forma atenciosa, rápida e consciente das necessidades da criança.

Apego evitativo. Nesse padrão, as crianças raramente choram quando a mãe sai e a evitam quando ela retorna. Irritam-se e não pedem ajuda quando precisam. Não gostam de ser tomadas no braço e detestam ainda mais ser largadas. Demonstram pouca partilha afetiva, pois sentem que não há apego. Geralmente, são rebeldes e têm baixa autoestima e autoimagem comprometida. A mãe demonstra pouca ou nenhuma resposta à irritação da criança; desencoraja o choro e encoraja a independência.

Apego ambivalente. As crianças ficam ansiosas mesmo antes de a mãe sair e ficam muito irritadas quando ela sai. Quando ela retorna, demonstram sua ambivalência buscando contato com ela, mas sem permitir o aconchego. Fazem poucas explorações e são difíceis de consolar. Não são acalmadas facilmente e são ansiosas porque a disponibilidade da mãe nunca é consistente.

Apego desorientado. As crianças apresentam comportamentos contraditórios. Cumprimentam a mãe vivamente quando ela retorna, mas depois se afastam ou se aproximam sem olhar para ela. Parecem confusas e amedrontadas. A mãe tem um papel muito negativo, com graves erros na comunicação. É o padrão menos seguro de apego e está associado a formas de abuso contra a criança.

Se você é mãe e deseja fazer o melhor pelo filho, procure ser sensível a ele. Favoreça a interação mútua; desenvolva a afetividade, a aceitação e o apoio emocional; converse olhando nos olhos; procure entender o que ele realmente quer dizer quando se queixa de algo; promova o toque físico com abraços, afagos e massagens; faça-o sorrir bastante; evite ficar longe dele por um período que ultrapasse três dias (em especial no caso de crianças até quatro anos); fale sério, mas não grite; cumpra o que promete; valorize as conquistas e evite a crítica. Lembre-se: a relação é uma construção constante, em todas as fases da vida. [Imagem: Fotolia]

TALITA BORGES CASTELÃO é psicóloga clínica, sexóloga e doutora em Ciências

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