Guerra dos tronos

A luta pelo controle do poder, intensificada no fim dos tempos, é um dos temas centrais do Apocalipse

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A expressão “guerra dos tronos” foi popularizada recentemente devido a uma violenta fantasia épica escrita por George R. R. Martin. A saga, pelo que se lê na imprensa, tem seduzido uma multidão de fãs ao apresentar o que a humanidade tem de pior. Os livros deram origem a uma das séries de TV mais caras da história, intitulada em inglês Game of Thrones. Imprópria para os cristãos, ela pode representar mais um passo para condicionar uma geração às estratégias do diabo no tempo do fim.

Esse enredo é ficção, mas uma guerra real pelo trono do Universo ocorreu há muito tempo. Felizmente, o lado luminoso venceu, e os rebeldes foram expulsos do Céu (Ap 12:7-9). Ocorre que o conflito teve novos desdobramentos, em outros cenários, e agora ganha intensidade e dramaticidade no fim dos tempos (v. 12).

O tema do trono permeia o Apocalipse, um mosaico dos grandes enfoques bíblicos, e mostra que os eventos retratados nesse livro que encerra o cânon incluem uma disputa mortal pelo poder, com repercussões eternas. No caso do oponente de Deus, o poder é apenas uma tentativa de controlar o mundo e receber adoração. Mas por que o trono ganhou tal destaque?

SÍMBOLO DE SOBERANIA

Trono é uma cadeira especial, ricamente ornamentada, tendo um assento alto, um encosto retangular e braços e pernas torneados, às vezes com figuras de animais, onde costumam sentar-se reis, monarcas, papas e outros dignitários poderosos. Em sentido abstrato, é uma metáfora para o poder real, um lugar de onde saem decisões e ordens, favores e sentenças, bênçãos e maldições, vida e morte.

A palavra vem do grego, com o sentido de assento ou cadeira com um apoio para os pés. No grego antigo, a expressão Dios thronos era usada para descrever o “suporte dos céus”, o eixo do mundo. Desde a antiguidade, reis e divindades sentados em tronos são comuns na iconografia do Oriente Próximo.

De acordo com Homero, os aqueus costumavam colocar tronos vazios nos palácios reais e nos templos para que os deuses pudessem sentar-se neles, caso desejassem. Por sua vez, os romanos tinham um trono para o imperador e um para a deusa Roma. Estátuas dela eram colocadas sobre os tronos, que se tornavam centros de adoração. O problema é que desses tronos não poderia surgir nenhuma ajuda. O auxílio também não podia vir dos tronos gravados nas moedas romanas e associados a vários deuses, tampouco dos tronos vazios, com apenas um capacete, símbolo da guerra e do governo.

Bispos representantes da Igreja Católica, da Igreja Ortodoxa e da Igreja Anglicana, entre outras, também se assentam em um trono, a cathedra, que representa sua autoridade formal sobre o rebanho. O trono do papa (a Cathedra Romana) é localizado na Basílica de São João de Latrão, a catedral do bispo de Roma. Contudo, nenhum deles pode realmente defender os súditos.

No contexto bíblico, o trono tem um lugar de destaque. No Antigo Testamento, em que o termo “trono” aparece 135 vezes, vemos muitas referências ao trono de Deus como símbolo de seu poder e personificação de sua justiça, especialmente nos Salmos. “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de equidade é o cetro do teu reino”, diz o poeta (Sl 45:6). “Justiça e direito são o fundamento do teu trono; graça e verdade te precedem”, acrescenta (Sl 89:14). “Nos céus, estabeleceu o Senhor o seu trono, e o seu reino domina sobre tudo”, lemos em outro lugar (Sl 103:19).

O Altíssimo tem um trono esplendoroso, e alguns profetas tiveram o privilégio de contemplá-lo. Em sua visão espetacular, Isaías (6:1-3) viu “o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono”, circundado por serafins. Usando linguagem parecida, Jeremias (17:12) diz: “Trono de glória enaltecido desde o princípio é o lugar do nosso santuário.” Com palavras pitorescas, Ezequiel (1:26, NVI) descreve: “Acima da abóboda sobre as suas cabeças havia o que parecia um trono de safira, e, bem no alto, sobre o trono, havia uma figura que parecia um homem.”

Ao redor do trono divino sempre estão seres servindo, louvando e adorando aquele que vive para todo o sempre, o único digno de receber toda a glória e honra. Durando mais do que as estrelas, o trono divino está firme “desde a antiguidade” (Sl 93:2) e “subsiste de geração em geração” (Lm 5:19). Além de ser fundamentado na justiça e revestido de santidade, ele é o depósito dos infindáveis tesouros celestiais.

MOLDURA CONCEITUAL

Se o trono é mencionado em muitos lugares da Bíblia, é no Apocalipse que ele ganha destaque e centralidade. Das 62 vezes em que a palavra “trono” aparece no Novo Testamento, 47 se encontram nesse livro, sendo que 36 vezes (76,6%) se referem ao trono de Deus. Você acha que isso é coincidência?

“Estruturalmente, a parte visionária do livro (4:1–22:5) começa e termina com visões que fortemente enfatizam a centralidade do trono: a primeira no contexto celestial (4:1–5:14) e a última no contexto terrestre de uma nova criação (22:1-5)”, escreveu Laszlo Gallusz num estudo recente publicado no Journal of the Adventist Theological Society. “Essa inclusão sugere que o livro tenha sido organizado dentro da moldura das visões do trono.”

A visão da sala do trono, em Apocalipse 4 e 5, com seu duplo foco no trono de Deus (capítulo 4) e do Cordeiro (capítulo 5), concentra 19 menções ao trono em 25 versos. Como disse Elisabeth Schüssler Fiorenza em seu livro Revelation: Vision of a Just World, essa visão estabelece “o fundamento retórico e provê as imagens simbólicaschave para tudo o que vem a seguir”. Para Gallusz, que é professor no Seminário Teológico de Belgrado (Sérvia), “o status que o Cordeiro recebe no capítulo 5 se torna inteligível somente em relação ao trono divino”.

A primeira coisa que João viu depois que a porta do Céu se abriu foi o trono (4:2), o que pode ser uma forma de indicar a mudança para a esfera celestial na visão. “Portanto”, conforme sublinha o teólogo, “o trono de Deus é retratado em Apocalipse 4 como o eixo do mundo, o centro imóvel de toda a realidade”. Deus e o Cordeiro estão no centro porque sãos os criadores de tudo, efetuaram a salvação da humanidade, garantem a justiça no Universo e merecem a adoração de todos os seres. O Cordeiro (arnion), principal título cristológico no livro, aparece 29 vezes, sendo 28 delas aplicadas a Cristo, que é o fator decisivo para a solução do conflito cósmico.

Como se fosse um arco-íris, o Apocalipse retrata uma série de círculos concêntricos, mostrando Deus e Cristo no centro, depois os quatro seres viventes, os 24 anciãos, uma hoste de anjos e os redimidos de todos os tempos e lugares. As expressões “ao redor do trono”, “rodeando o trono” e equivalentes (4:3, 4, 6, 8; 5:11; 7:11), tradução dos termos gregos kyklothen e kyklo (“círculo”, “anel”), sugerem um arranjo circular. Essa ideia de que o Céu é “diagramado” em círculos concêntricos com um trono no meio não é exclusividade do Apocalipse, pois aparece também nos livros apócrifos de Enoque.

As cenas de tronos em Apocalipse envolvem aspectos do ambiente do culto (vindos da tradição litúrgica judaica) e do mundo político (voltados ao contexto greco-romano). Os hinos de louvor, que aparecem em vários lugares do livro e acompanham seus eventos principais, indicam adoração. Em seu livro Revelation’s Hymns, lançado neste ano, Steven Grabiner argumentou que o tema do conflito cósmico é fundamental para a compreensão da narrativa do Apocalipse, e os hinos devem ser lidos nesse contexto. O conflito começou no templo celestial, onde a soberania absoluta de Deus foi desafiada, e os hinos de louvor ao Criador ocorrem nesse ambiente. Por sua vez, o ato de lançar as coroas diante do trono divino (4:10), indicando que apenas Deus merece toda honra, pode ser compreendido em contraposição aos cerimoniais reais helenísticos e romanos, em que os conquistados depositavam suas coroas aos pés do conquistador (Tácito, Anais 15.29). Por isso, o trono está ligado aos temas da adoração e da disputa pelo poder, coisas que formam o epicentro dos eventos finais.

A ideia de que o motivo do trono estrutura todo o conteúdo do Apocalipse, como defende Gallusz, precisaria de um estudo mais aprofundado, mas não há dúvida de que esse é um dos temas centrais do livro. Não por acaso, a partir do capítulo 4, o autor retrata Deus como ocupando o trono celeste nada menos do que 12 vezes, empregando seis formas gramaticais diferentes.

O trono não tem que ver apenas com o lado político da guerra, mas com a vindicação do caráter de Deus. A leitura do Apocalipse e da história religiosa do mundo a partir do plano da salvação, típica dos evangélicos, precisa ser completada por essa dimensão do grande conflito (ver Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, p. 68). Uma perspectiva começa com o mundo e termina com o fim dele. A outra começa antes da criação e continua na eternidade.

VOCÊ NO TRONO

O trono divino revela claramente o poder de Deus, mas também sua santidade e seu amor. Por isso, ele está ligado aos principais eventos do plano da salvação. Conforme destacado por Gallusz, “as visões do trono aparecem em cinco contextos no Apocalipse: nas cenas do templo celeste, na descrição do ‘dia da ira’, na resolução do conflito cósmico, na cena do julgamento milenial e na visão final da nova criação”.

Esses aspectos colocam outros grupos do Apocalipse em relação direta com o trono de Deus, seja na categoria de aliados (em que a esfera de ação é o Céu) ou na categoria de adversários (cuja esfera de ação é a Terra). A besta, que tem seu próprio trono (16:10), o que indica que ela tenta usurpar o poder de Deus, seguindo o espírito de Satanás, entra na segunda categoria.

Na visão adventista, besta é o poder romano cristianizado, ou o cristianismo romanizado. A vitória do cristianismo sobre seu rival, o paganismo, criou um império alternativo. A ambição pelo poder brilhou nos olhos de alguns líderes dos primeiros séculos e eles se uniram a um império que criava seus próprios deuses. Surgiu então a igreja imperial. No livro Igreja: Carisma e Poder, lançado em 1981 e que o levou a ser silenciado pelo Vaticano, Leonardo Boff criticou a hierarquia “piramidal”, “personalizada”, “cósmica e sagrada” da igreja de Roma, em que a voz do superior é a voz de Deus.

Falando da besta do mar descrita em Apocalipse 13, identificada por uma série de intérpretes como a Roma cristã, Jacques Doukhan escreveu em seu livro Secrets of Revelation: “Por trás da máscara de religiosidade esconde-se a aspiração totalmente humana pelo poder. Deus não tem importância para a igreja. É tudo um jogo político.” A aparente democracia do Vaticano na atualidade é vista por muitos como apenas uma estratégia para recuperar o poder e a influência de outros tempos. Isso pode demorar, pois Roma “pensa em séculos”, mas é o alvo final.

A questão não é apenas estar no trono, pois no Apocalipse Jesus promete que os vencedores poderão sentar-se com ele em seu trono (3:21). Os santos receberão autoridade para julgar e se assentarão em tronos (20:4). A questão é sentar-se no trono para tentar tomar o lugar que pertence exclusivamente a Deus e a Cristo.

Ao longo do livro, o trono serve para destacar a legitimidade do poder divino e a vindicação do caráter de Deus, pois o livro se encerra com as relações restauradas. No fim do Apocalipse (22:1-5), numa linguagem típica da criação e do Jardim do Éden, incluindo o rio e a árvore da vida, o fim da maldição e a vida novamente na presença de Deus, o conflito termina e tudo volta ao estado original. O trono de Deus (partilhado pelo Cordeiro), que aparece como a fonte dessas bênçãos (v. 1), estará no meio da cidade (v. 3), sem opositores e com milhões que celebram a vitória.

“A cena visionária final também resolve a questão do poder, que é o assunto central no livro”, observa corretamente Gallusz. “Ela retrata o lado vitorioso do conflito cósmico, os legítimos ocupantes do trono, mas ao mesmo tempo ressalta a diferença fundamental entre a natureza do governo de Deus e a do governo dos poderes terrestres. Enquanto o regime da besta é voltado para si e nega a vida, o reinado de Deus promove a vida, pois busca o bem-estar da criação.”

No novo mundo pós-conflito, Deus será o centro de toda a criação outra vez, e todos se regozijarão ao redor de seu trono. Se o trono de justiça foi usado para vencer e julgar, agora o trono de graça será a fonte de eterna felicidade. A melhor notícia é que Deus está no trono e sempre estará. O trono não está vago. O Universo não é governado por um déspota, mas pelo Rei amoroso e justo. Na verdadeira guerra dos tronos, o lado bom vence.

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

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  • Anna Claudia

    Sério que vocês fazem um post falando dessa porcaria? isso é pornô puro, não é adequado para ninguém que se diz cristão !

    • Olá, Anna Claudia. Por isso, o autor faz questão de ressaltar no primeiro parágrafo do texto que a série mencionada de passagem é “imprópria para os cristãos”. Abraço!