Ecos da criação

O que a igreja tem a mostrar ao mundo sobre a preservação do planeta

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Se há quase dois mil anos o apóstolo Paulo já afirmava que toda a criação gemia e estava com dores de parto (Rm 8:22), hoje o planeta está no limite. Para se ter uma ideia, segundo a agência meteorológica da ONU, 14 das 15 temperaturas mais quentes já registradas ocorreram no século 21. Isso sem falar em outros fenômenos climáticos, como enchentes avassaladoras ou estiagens prolongadas que afetam a vida de milhões de pessoas. Que o digam os paulistanos, que enfrentam a pior crise hídrica de sua história.

Diante de tantos sinais de alerta, os cristãos também parecem despertar para a necessidade de um compromisso mais efetivo com a ecologia. Embora a responsabilidade ambiental ainda não esteja na lista de prioridades de muitas denominações, o fenômeno das “igrejas verdes” parece ser uma questão de tempo. Na tentativa de despertar a consciência ecológica no meio religioso, valem até mesmo leis de incentivo. É o que vem acontecendo no Rio de Janeiro, onde um projeto de lei, que tramita na Assembleia Legislativa, pretende criar o “selo igreja verde”. A ideia, proposta pela deputada Márcia Jeovani, é que a Secretaria do Meio Ambiente conceda anualmente a certificação aos templos que promoverem campanhas, debates e ações de preservação na comunidade, além de reduzir o consumo de água e energia.

Algumas organizações cristãs vêm dando o exemplo nesse sentido. A ONG A Rocha Brasil é uma delas. Inspirada no projeto A Rocha, criado em Portugal no início dos anos 2000, o movimento se estabeleceu oficialmente no Brasil em 2006 a partir de membros da Igreja Batista de Indaiatuba, no interior de São Paulo. Um dos seus objetivos é estimular o engajamento evangélico com a causa socioambiental. Por meio da literatura, a ONG busca esclarecer sobre o tema e, principalmente, motivar os fiéis à ação. “Um dos nossos objetivos é contribuir com publicações sobre o tema para desmistificá-lo, torná-lo mais acessível a todos e então sensibilizar e mobilizar a igreja”, esclarece a bióloga Raquel Arouca, coordenadora de projetos na ONG. Uma das publicações organizadas pelo grupo é o livro Assim na Terra Como no Céu (Ultimato, 2011) que reúne experiências concretas de ações socioambientais realizadas por igrejas Brasil afora.

O trabalho inclui ainda a realização de encontros, seminários e a produção de materiais informativos. A ONG também ficou conhecida por encabeçar o projeto Igrejas Ecocidadãs, que foi impulsionado pela Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, realizada em junho de 2012 na capital carioca. Na ocasião, o grupo participou com o projeto na Cúpula dos Povos, evento organizado pela sociedade civil paralelamente à conferência. Desde então, a iniciativa se espalhou para várias cidades brasileiras.

ABRINDO CAMINHO

A Igreja Adventista abriu o caminho para a participação evangélica em eventos como esse. Há exatos 23 anos, na Rio-92, a denominação foi a única do meio evangélico a participar oficialmente do evento. Além de indicar um representante para as reuniões da ONU, os adventistas tiveram participação no Fórum Global, realizado paralelamente, e promoveram ações socioambientais durante o evento.

Essa participação também trouxe reflexos internos. Foi a partir dali que uma sequência de votos foi tomada pela sede mundial adventista reforçando a visão da igreja sobre ecologia. Esses documentos foram publicados no livro Declarações da Igreja (CPB).

Agir em favor do planeta é algo que está no DNA da Igreja Adventista, uma vez que ela entende o cuidado com a criação como uma parte importante de sua filosofia e missão. Uma prova disso é que duas de suas crenças fundamentais – o sábado e a mensagem de saúde – estão diretamente relacionadas com a questão ambiental.

Os próprios escritos de Ellen White sobre saúde, meio ambiente e qualidade de vida estavam à frente de seu tempo, o que levou a autora a ser reconhecida pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo como vanguardista no discurso de saúde e sustentabilidade quase 100 anos depois de sua morte. Esse reconhecimento resultou em uma homenagem prestada à escritora na Universidade Aberta do Meio Ambiente e da Cultura da Paz (Umapaz) em 2013.

DA TEORIA PARA A PRÁTICA

Bons exemplos de responsabilidade ambiental também são ensinados nas escolas adventistas. No fim de 2014, o Instituto Adventista Cruzeiro do Sul (IACS), localizado em Taquara (RS), decidiu fazer algo em prol de uma comunidade que vive nos entornos de um lixão. Por diversas razões, esse depósito de resíduos a céu aberto afeta diretamente a vida da instituição. Uma delas é o mau cheiro. O lixão também prejudica o rio que passa nos fundos da propriedade do colégio, o Rio dos Sinos, que já é considerado pelo IBGE o quarto mais poluído do Brasil. Em épocas de enchentes, uma grande quantidade de resíduos acaba sendo depositada no terreno do internato.

Isso fez com que a comunidade escolar pensasse em uma forma de mudar as más condições do ambiente e a realidade dos moradores. O primeiro passo foi realizar um mapeamento das condições de vida das 30 famílias que vivem nos entornos do lixão e atendê-las em suas necessidades básicas, a partir da distribuição de materiais de higiene, fraldas descartáveis e alimentos.

ECOPONTO

A proposta, no entanto, é ampliar horizontes. Pelo fato de o lixão ser uma área de descarte de materiais como baterias e pilhas, que contêm elementos tóxicos, a escola se tornará um ecoponto de coleta de lixo eletrônico. “Esse programa de coleta seletiva será desenvolvido em parceria com a prefeitura local”, explica o diretor do colégio, João Cesi.

Com o objetivo de integrar o projeto ao currículo dos alunos, os professores das disciplinas de Ciências e Biologia vão enfatizar em sala de aula o tema da preservação e organizar um concurso de fotografia envolvendo os estudantes. “O objetivo do concurso é incentivar o aluno a perceber o ambiente em que vive. É fundamental que os estudantes tenham esse olhar para começar a fazer a diferença na comunidade onde estão inseridos”, afirma a coordenadora pedagógica, Ana Cláudia Nunes.

Outra ação importante ocorrerá no dia 7 setembro, quando professores e alunos se mobilizarão para a recomposição de matas ciliares no Rio dos Sinos. Eles plantarão mil mudas de manacá-da-serra, uma espécie nativa da região Sul do Brasil.

SALVANDO A AMAZÔNIA

ONGs ligadas à igreja também surgiram para somar. Uma delas é a Ação Social Voluntária Amazônia (Asvam), que nasceu em 2007 com o intuito de melhorar as condições de vida, o meio ambiente e a saúde das pessoas que vivem em regiões de difícil acesso no Amazonas.

ONG formada por profissionais adventistas já construiu mais de 30 banheiros em comunidades remotas da Amazônia. Foto: Fernando Borges
ONG formada por profissionais adventistas já construiu mais de 30 banheiros em comunidades remotas da Amazônia. Foto: Fernando Borges

Uma das contribuições do projeto é a construção de banheiros e fossas. “A gente tem chegado em comunidades que usam a mata como banheiro. Quando vêm as enchentes, esses dejetos contaminam as águas e geram um ciclo de doenças. Já chegamos a encontrar resistência por parte de alguns moradores ao tentar mudar essa realidade. Mas, com o tempo, eles percebem a melhora na qualidade de vida”, conta o norte-americano Bradley Robert Mills, presidente da ONG.

A educação tem sido uma das formas de levar os ribeirinhos a reconhecer que os rios e florestas consistem na casa deles e que, por isso, não faz sentido degradar o seu habitat. Esse trabalho de conscientização é feito em parceria com escolas municipais. “A gente só desenvolve projetos que os moradores estejam dispostos a comprar a ideia”, acrescenta Bradley.

Além dos 34 profissionais voluntários que atuam em tempo integral desenvolvendo diversos projetos na área de saúde, educação e geração de renda, hoje a ONG também conta com a ajuda de participantes vindos não só da região, mas de outros estados e países para missões de curta duração.

“Mesmo como cidadãos do reino dos Céus, precisamos mostrar ao mundo lições de cidadania e responsabilidade ambiental aqui na Terra”, acredita Bradley, que há quase oito anos deixou o trabalho de enfermeiro nos Estados Unidos e veio para o Brasil com a esposa e um filho de dois anos para ser voluntário na Amazônia.

DESAFIOS DA DUPLA CIDADANIA

Embora a igreja esteja (re)descobrindo seu lado verde, alguns adventistas ainda têm dificuldade de conectar a missão adventista com a preservação do planeta, conforme mostrou Arthur Schwarz, PhD em Ecologia e professor da Southwestern Adventist University, durante palestra realizada na Conferência Internacional sobre Bíblia e Ciência, em agosto de 2014, no sul de Utah (EUA). Para o pesquisador, o dilema do envolvimento adventista com a questão ecológica parte da seguinte indagação: afinal, até que ponto devemos preservar a Terra, já que ela será restaurada (Rm 8:20, 21)? Schwarz, que serviu por dez anos como missionário na China e Uganda, onde desenvolveu projetos socioambientais, não têm dúvidas de que a esperança na nova Terra não nos dá uma “licença de exploração” a fim de terminarmos logo o trabalho, nem torna a preservação do meio ambiente inútil à luz da breve volta de Cristo.

Infelizmente, segundo acrescentou a teóloga Jo Ann Davidson, professora na Universidade Andrews, durante a mesma conferência, “quando falhamos na tarefa de cuidar da natureza, a popularidade da evolução avança”.

Na opinião do Dr. Stephen Dundar, do Departamento de Biologia da Universidade de Loma Linda, “o ponto é que fomos chamados para cuidar da Terra em nome do dono dela”, conforme sugere Gênesis 2:15. Dundar é um dos autores da publicação mais recente e abrangente sobre ecologia produzida pelos adventistas em nível mundial: Entrusted: Christians and Environmental Care (Adventus, 2013), que oferece respostas a 23 questões fundamentais, reforçando a visão bíblica sobre o tema. O livro também cumpre um papel importante no sentido de combater ideologias progressistas que tendem a fazer do ambientalismo uma religião.

Organizada por Stephen Dunbar, L. James Gibson e Humberto M. Rasi, renomados pesquisadores adventistas, a obra reúne artigos de educadores, ambientalistas, teólogos e cientistas de várias partes do globo. Além de conceitos teológicos, os autores procuram mostrar como os cristãos podem responder com ações práticas à degradação do nosso planeta. Nesse sentido, o leitor encontra sugestões do que pode ser feito tanto no âmbito individual quanto no coletivo (veja o infográfico) e até mesmo uma demonstração da viabilidade econômica de projetos de conservação ambiental.

Não restam dúvidas, segundo conclusão encontrada no próprio livro, de que os adventistas têm muito a dizer ao mundo sobre “mordomia ambiental”. Nossa responsabilidade, entretanto, não é apenas com um discurso ecologicamente correto, mas principalmente com a demonstração prática dos ensinamentos bíblicos.

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Márcio Tonetti é editor associado da Revista Adventista

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