Liberdade religiosa fragilizada

Episódios recentes nos lembram que a falta de liberdade religiosa também é um problema no Brasil, afetando inclusive crianças e adolescentes

liberdade-fragilizada-artigo-site-RADe acordo com a declaração universal dos direitos humanos, “toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular”.

Se a citação acima fosse levada ao pé da letra, não veríamos tantas manifestações de intolerância religiosa que vêm se tornando cada vez mais frequentes no mundo. E o Brasil não está livre desse problema. No dia 14 de junho de 2015, por exemplo, Kailane Campos, de 11 anos, foi atingida na cabeça por uma pedra na saída de um culto afro. Inconformadas com esse ato de violência registrado na Vila da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, pessoas de diferentes religiões foram às ruas no último domingo, 21, para protestar.

Segundo um levantamento feito pelo site G1 com base em dados do Disque 100, que recebe telefonemas anônimos sobre vários tipos de violência, o Rio de Janeiro foi a unidade da federação com o maior número de discriminação religiosa contra crianças e adolescentes entre 2011 e 2014. Nesse período, foram registrados 16 casos.

Infelizmente, muitas dessas manifestações de intolerância partem de pessoas que se dizem cristãs. No caso do episódio envolvendo a menina carioca, testemunhas afirmaram que o objeto foi lançado por um grupo de evangélicos. Tais atitudes contrariam, porém, os ensinamentos do cristianismo que, desde a sua origem, tem procurado preservar esse valor fundamental. No livro Fé & Liberdade, John Graz lembra que “a liberdade religiosa tem uma tradição no cristianismo”. Tertuliano, que viveu entre 160 e 220 d.C., foi o primeiro autor a usar as palavras libertas religionis (liberdade religiosa) no início do 3º século.

Assim, qualquer ato de imposição, violência ou discriminação está longe dos princípios cristãos, que prezam pela tolerância, respeito e amor. Ninguém tem o direito de forçar outra pessoa a aceitar suas crenças a qualquer custo, pois isso fere o livre-arbítrio concedido por Deus aos seres humanos.

Intolerância velada

Outro ponto que merece ser discutido no Brasil no que diz respeito à liberdade religiosa foi levantado recentemente pelo jornal A Tribuna, do Espírito Santo, que publicou reportagem sobre casos de candidatos a emprego eliminados em entrevistas por causa de religião. Segundo o consultor de carreiras Elias Gomes, mencionado na matéria, aproximadamente 0,5% dos candidatos são eliminados por esse motivo. “Mas o número”, de acordo com ele, “é ainda maior, já que a religião é levada em conta na hora da contratação de uma forma velada”.

“Há religiões que restringem o horário de trabalho. Por isso, às vezes, a empresa pergunta qual é a religião do candidato. Outras fazem de forma mais sútil perguntando se ele tem disponibilidade de horários”, acrescenta a gerente da Center RH, Eliana Machado, que também foi consultada pelo jornal.

Os adventistas do sétimo dia se identificam com situações dessa natureza em função dos desafios enfrentados em relação à guarda do sábado. Mas, ao mesmo tempo que a igreja tem incentivado seus membros a ser fiéis a esse princípio bíblico, testemunhando  mesmo em circunstâncias difíceis, ela também tem procurado orientá-los sobre como agir.

Defender a liberdade religiosa é algo que também está ligado às origens do adventismo. Uma prova disso é que, em 1893, líderes da organização criaram a Associação Internacional de Liberdade Religiosa (IRLA), que continua cumprindo um papel fundamental organizando debates e fóruns para discutir o assunto e contribuir para que esse direito continue sendo exercido livremente.

CÉLIO BARCELLOS é pastor em Serra (ES)

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