Consciência missionária

Chegou a hora de retribuir o esforço daqueles que deram a vida para espalhar o evangelho em terras sul-americanas
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Os missionários formam parte da estratégia de Deus para transformar pessoas e culturas inteiras. Créditos da imagem: Fotolia

Em 1985, ano em que eu estava para me graduar em Teologia, escrevi para a sede mundial da Igreja Adventista falando de meu desejo de ser missionário num país do Oriente Médio. Enoch de Oliveira, vice-presidente da denominação, em tempos pré-internet, enviou-me uma carta dizendo que o país estava fechado para missionários, mas eu deveria começar o trabalho em meu próprio país e, quem sabe, um dia isso seria possível.

O sonho de ser missionário no Oriente não se tornou realidade. Se o desejo era legítimo, o tempo parecia incerto. Mas, em 2015, vi esse sonho se cumprir na vida de vários casais, talvez mais bem equipados para a missão. Deixando as marcas dos pés sobre um mapa, numa cerimônia cheia de simbologia idealizada pela sede sul-americana da igreja, eles partiram sem saber se voltarão. Suas marcas não são de celebridades estáticas numa calçada da fama para atrair a veneração dos admiradores, mas de “anônimos” que partiram para anunciar as boas-novas, quem sabe com as palavras do hino 523 reverberando na mente: “Envio a ti aos campos da seara, / semear, ceifar, sem honras receber; / sofrer por mim ingratidão e escárnio; / contigo estou, terás o meu poder.”

Para documentar essa epopeia e refletir sobre seu significado, o editor Wendel Lima, um apaixonado pela missão, escreveu a matéria de capa deste mês. Em abril já falamos sobre missão, mas agora a perspectiva é diferente. O foco é o envio de missionários para o exterior. Se há cem anos a América do Sul recebia missionários, agora chegou a vez de enviá-los, todos patrocinados por instituições da igreja. Elogiar a visão que motivou essa iniciativa é pouco. É preciso se envolver no projeto, lá ou aqui mesmo. As bênçãos serão incontáveis tanto para os que estão recebendo quanto para os que estão enviando os missionários.

Você pode achar que 25 famílias não farão diferença, mas jamais subestime o que Deus pode fazer por meio de alguém que leva Jesus no coração. Com base em minuciosa análise de dados históricos e estatísticos, o sociólogo cristão Robert Woodberry descobriu que a influência dos missionários protestantes foi fundamental para o surgimento das democracias estáveis ao redor do mundo. No premiado artigo “The Missionary Roots of Liberal Democracy”, publicado na American Political Science Review em 2012, a partir de sua tese de doutorado, ele mostrou como a presença dos missionários incentiva a alfabetização, a publicação de materiais, a educação em massa, a liberdade religiosa e a transformação pessoal. O mito do missionário colonizador, tão difundido pelos intelectuais seculares, foi triturado pelas novas análises. No entanto, se os benefícios sociais parecem inquestionáveis, a maior bênção de todas é a salvação em Cristo, pois quem tem Jesus tem tudo o que é necessário para fazer a vida florescer.

Os missionários têm o poder de mudar culturas inteiras. Não nos esqueçamos de que o Ocidente foi moldado pelo cristianismo levado por Pedro e Paulo, entre outros, todos originários do Oriente, que perdeu a visão de Cristo com o tempo e agora precisa recuperá-la. Esses apóstolos foram enviados por Jesus com a missão de salvar e transformar o mundo, assim como ele mesmo foi enviado pelo Pai (Jo 17:18). Cristo não chama pessoas para ficar, mas para ir. Não foi por acaso que ele usou o verbo “enviar” sete vezes em sua grande oração missionária em João 17.

No Novo Testamento há 206 referências ao termo “enviar”, cujo verbo principal em grego (apostellein) ocorre 136 vezes, sendo 97 nos evangelhos. Vem desse verbo o substantivo “apóstolo” (de apostolos), palavra mencionada 80 vezes no Novo Testamento, principalmente nos escritos de Paulo
(35 vezes) e de Lucas (34 vezes). Os termos “apóstolo” (de origem grega) e “missionário” (de origem latina), embora não sejam sinônimos, têm quase o mesmo sentido de “alguém enviado”. Porém, enquanto “apóstolo” ressalta o status e a autoridade, “missionário” focaliza a atividade.

Depois de Cristo, o maior modelo missionário é o apóstolo Paulo, que usou o mesmo padrão holístico de Jesus (Lc 4:18, 19). Nos seus 35 anos de pregação, entre a conversão em 31/32 na estrada de Damasco e a morte em Roma em 67, Paulo se dedicou ao evangelismo em pelo menos 15 lugares. Ele não realizou apenas as três viagens missionárias que vemos nos mapas da Bíblia. Calcula-se que tenha viajado mais de 15 mil quilômetros em missão. E ele se tornou cada vez mais ousado, sonhando em fincar a cruz no coração do império.

Nossa ousadia não deve ser menor do que a de Paulo. Isso significa uma ampliação da visão missiológica, o que tem ocorrido no adventismo. Contudo, será que a visão individual dos membros também está se ampliando? Você não foi chamado para ficar, mas para ir.

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

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