Homenagem para um ícone da arte cristã

Exposição resgata o legado de Heber Pintos (1942-2008), que marcou época com a criação da Turma do Nosso Amiguinho e ilustrações para diversas publicações adventistas

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Exposição fez parte do 1º Encontro com a Arte do Unasp, campus São Paulo. Foto: Wilson Azevedo

Quem gosta da revista Nosso Amiguinho sabe que ela possui uma longa trajetória. No início da década de 1970, a turminha entrou em cena e, desde então, conquista crianças e adultos de diferentes gerações. Noguinho, Luíza, Cazuza, Sabino, Quico e o cãozinho Azeitona nasceram na mente e na ponta do lápis de um artista raro. Heber Pintos tinha talento nato e sua principal fonte de inspiração era o relacionamento com Deus.

“O Heber era uma pessoa que vivia uma religião prática. Estudava muito. Concluiu Teologia em 1967 e isso o ajudou muito nos trabalhos que fazia. Ele era uma pessoa totalmente dependente de Deus e reconhecia que o seu dom vinha dEle”, afirmou sua esposa, Ingrid Pintos, durante a abertura do 1º Encontro com a Arte do Unasp, campus São Paulo.

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Exposição reuniu trabalhos de 14 artistas adventistas. Foto: Wilson Azevedo
O evento, que aconteceu de 16 a 18 de junho, reuniu obras de 14 artistas que fizeram parte da história do centro universitário, que celebra 100 anos em 2015. Heber Pintos teve espaço reservado na exposição como artista e ex-aluno do seminário teológico quando a instituição ainda era conhecida como IAE (Instituto Adventista de Ensino).

Amplo legado

Além da Turma do Nosso Amiguinho, Heber Pintos ilustrou uma infinidade de publicações, incluindo livros, lições da Escola Sabatina, capas e páginas de revistas. Algumas de suas peças originais foram emprestadas pela Casa Publicadora Brasileira (CPB) para serem exibidas ao público que prestigiou o 1° Encontro com a Arte.

A editora adventista foi o local em que Heber trabalhou por mais tempo, tornando-se bastante conhecido no meio adventista. Mas antes de se dedicar exclusivamente à Casa, sua atuação como freelance ao longo de 17 anos também o levou a ficar conhecido externamente.

Em 1980, por exemplo, quando ainda morava com a família no Uruguai, sua terra natal, Heber criou o mascote da Copa de Ouro ou Mundialito de Futebol. A competição, organizada pela FIFA, foi sediada em Montevidéu e marcou os 50 anos da Copa do Mundo de Futebol, reunindo todas as seleções campeãs até então. O trabalho de Heber foi escolhido entre outras 1.500 propostas.

exposicao-no-unasp-heber-pintos-7Ingrid conta que depois disso o artista recebeu diversos convites para trabalhar em agências de publicidade argentinas e uruguaias, além das propostas feitas por empresas brasileiras, sobretudo de São Paulo. Porém, recusou todas essas oportunidades, pois trabalhar para Deus era sua prioridade. Antes de assinar contrato de trabalho efetivo na CPB, o que aconteceu em 1986, ele ainda ilustrou algumas publicações da editora Abril e fez trabalhos para a revista Náutica. Seu longo currículo também inclui a passagem pela Escola Panamericana de Artes como professor por dois anos.

No contexto adventista, uma de suas contribuições para a arte cristã foi a ilustração do livro Vida de Jesus, de Ellen G. White, cuja versão foi publicada no início da década de 1980 em inglês, francês e espanhol pela editora adventista norte-americana Pacific Press.

Em tempo integral

Para quem começou a trabalhar fazendo desenhos para ser projetados em slides usados em estudos bíblicos, séries evangelísticas e pelo ministério infantil, a pregação do evangelho através da arte ganhou novos horizontes quando ele passou a trabalhar em tempo integral na CPB.

Foi Ingrid quem o apresentou à editora. Em 1968, quando se conheceram, ela exercia a função de secretária na CPB. Na época, a sede da instituição ainda ficava localizada em Santo André, na região do ABC paulista. Ao longo de 38 anos de casamento ela apoiou esse ministério, que exigia muitos sacrifícios. Aliás, Ingrid conta que era comum encontrá-lo tarde da noite tentando traduzir em imagens seus insights.

Obra-prima
Embora seja difícil classificar entre tantas obras de arte uma que seja a obra-prima de Heber Pintos, Ingrid considera especial o retrato de Jesus publicado na capa da Revista Adventista de julho de 1992. Desenhada a lápis e em preto e branco, a expressão do rosto de Cristo leva à reflexão. “Acho que essa obra foi fruto de um de seus principais momentos de inspiração. De qualquer ângulo, os olhos de Cristo acompanham quem está olhando a imagem. E fico feliz em saber que pessoas tenham sido atraídas a Cristo através das imagens que ele fez”, expressa.

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Uma das ilustrações preferidas da esposa do artista. Foto: Wilson Azevedo
Capa da edição de julho de 1992 ilustrada por Heber Pintos.  Créditos: acervo Revista Adventista
Capa da edição de julho de 1992 ilustrada por Heber Pintos. Créditos: acervo Revista Adventista
Ao observar o rosto de Cristo que faz parte do monumento “Jesus, o Mestre dos Mestres”, inaugurado no dia 9 de maio de 2015 como marco do centenário do Unasp, campus São Paulo, Ingrid percebeu grande semelhança com o retrato de Jesus desenhado por seu marido há décadas atrás. O artista plástico, Dêvson Lisboa, autor da obra, confirma: desde menino ele é um admirador das obras de Heber e admite que a coincidência nos traços do rosto de Cristo pode ter sido uma referência que ele guardou desde a infância.

“As obras do artista Heber Pintos foram referência na formação de diversos artistas que passaram pelo Unasp”, afirma Cleide Oliveira, curadora do 1º Encontro com a Arte. Entre os artistas que tiveram seus trabalhos expostos no evento muitos cresceram observando o trabalho de Heber ou foram contemporâneos dele. Além de Cleide e Dêvson, Gidalti Junior, Eduardo di Pardi, Dominicio de Oliveira, Valentim Keppk, Ramon Carvalho, Noemi de Oliveira, Maria Angélica de Luca e Luiz Antonio de Luca (in memoriam), também fazem parte desse grupo.

Os artistas Taeko Yoshimura, Eduardo Santos e Edson Guedes, que participaram da exposição, também assistiram à homenagem póstuma a Heber Pintos e reconheceram seu legado e influência.

“Foram quarenta anos de dedicação à obra. Eu acho que uma imagem fala mais que mil palavras e ele deixou milhares de imagens”, conclui Ingrid.

MURILO PEREIRA atua na assessoria de comunicação do Unasp, campus São Paulo

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  • Neiva Naujokat

    Homenagem mais que justa a este artista usado poderosamente pela mão do Senhor! Penso! apenas que esta exposição deveria percorrer algumas cidades do Brasil. Nossos jovens precisam conhecer um trabalho lindo e inspirado como foi o dele