Ellen White e o Brasil

Pesquisa inédita revela detalhes da relação da escritora e de seus familiares com o Brasil
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Às 15h40 de uma sexta-feira, dia 16 de julho de 1915, aos 87 anos, chegou ao fim a jornada de 70 anos de ministério de Ellen White. Créditos: Ellen White Estate
Precisamente há cem anos, no dia 16 de julho de 1915, faleceu na Califórnia (EUA) Ellen White, pioneira da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Ao longo de aproximadamente 70 anos de trabalho ativo, Ellen White escreveu em torno de cem mil páginas acerca de praticamente qualquer tema relevante ao desenvolvimento físico, mental e espiritual.

No Brasil, existem 118 títulos de sua autoria, sendo o português a segunda língua em que seus escritos foram mais traduzidos (atrás apenas do espanhol). Aliás, seu livro mais conhecido e traduzido no mundo, Steps to Christ (1892), foi o primeiro livro de Ellen White traduzido para a nossa língua[1]. Apenas três anos depois do lançamento dessa obra nos Estados Unidos, o material foi traduzido pelo imigrante recém-converso ao adventismo, Guilherme Stein Jr[2].

Última residência de Ellen G. White, em Santa Helena, Califórnia (EUA). Funcionou como escritório administrativo do White Estate até 1938. Ali chegaram as correspondências vindas do Brasil. Créditos: Ellen White Estate
Última residência de Ellen G. White, em Santa Helena, Califórnia (EUA). Funcionou como escritório administrativo do White Estate até 1938. Ali chegaram as correspondências vindas do Brasil. Créditos: Ellen White Estate
Contudo, o leitor mais atento das obras de EGW certamente percebeu que ela nunca citou o Brasil em seus escritos. Os motivos parecem ter sido os mais diversos: o país ainda não estava na órbita de influência da Europa e dos Estados Unidos no século 19 e início do século 20, embora desde 1823, a partir da chamada Doutrina Monroe, já houvesse interesse dos Estados Unidos pela hegemonia da América do Sul. Ainda assim, para a grande maioria dos estadunidenses, o Brasil era percebido como um exótico país, terra de índios e negros onde a língua oficial era o espanhol.

Tendo isso em vista, pode parecer surpreendente o fato de que ninguém menos que José Bates se converteu no Brasil em 1824, quando ainda era marinheiro, por ocasião de suas viagens comerciais a bordo do Empress. Assim ele escreveu em The Autobiography of Elder Joseph Bates (Steam Press, 1868, p.193): “Em meu contato entre essas pessoas, que eram todas católicas, não achei ninguém para conversar sobre religião. […] Sentia um forte desejo de encontrar algum lugar para meditação e retiro para libertar minha alma e dar vazão para meus sentimentos interiores e tinha a impressão de que, se pudesse penetrar na densa floresta, poderia em certa medida encontrar alívio. Uma oportunidade se abriu para mim. Com a companhia de minha Bíblia, saí da cidade e segui a praia até encontrar uma mata virgem onde pudesse entrar. Ali desfrutei de liberdade em oração além de qualquer coisa que já havia experimentado antes. Foi de fato um lugar celestial com Jesus Cristo.  Quando meus negócios permitiam, costumava gastar a tarde em retiro em algum lugar nessas matas; e as vezes por temer répteis geralmente subia em uma grande árvore, acomodando-me em segurança num dos seus galhos, desfrutando da mais preciosa ocasião em ler as Escrituras, cantando, orando e louvando ao Senhor.”

A família White deve ter lido sobre os brasileiros e seus hábitos através do diário de Bates. Afinal, desde aproximadamente 1844, eles eram companheiros. No diário é descrito o costume popular de “malhação do Judas”, a fabricação de farinha de mandioca e os malefícios do hábito do consumo da pinga. Em 1846, já aposentado da marinha, Bates aceitou o dom profético de Ellen, sendo companheiro do casal White nos primeiros tempos do adventismo.

Ellen White não concluiu seus estudos formais e não compreendia outras línguas além do inglês. No entanto, isso não diminuiu seu interesse e preocupação com o ministério além-mar, onde a mensagem do advento era desconhecida, chegando oficialmente na Europa na década de 1870 através de John Nevins Andrews. Na Alemanha, em outubro de 1887, teve contato pessoal com duas famílias, Lindermann Doerner[3], que migraram posteriormente para o Brasil, já adventistas, onde se estabeleceram no Sul do país.

Frederick W. Spies (1866-1935), presidente da Conferência União Brasileira, encontrou-se com Ellen G. White em 24 de agosto de 1909, em Council Grove, Kansa (EUA). Créditos: Flávio Araújo Garcia
Frederick W. Spies (1866-1935), presidente da Conferência União Brasileira, encontrou-se com Ellen G. White em 24 de agosto de 1909, em Council Grove, Kansas (EUA). Créditos: Flávio Araújo Garcia
Em 1909, em seu último discurso em uma sessão da Associação Geral, em Takoma Park, Washington, entre 13 de maio e 6 de junho, aos 82 anos, ela proferiu sua conhecida frase acerca da Bíblia: “Recomendo-vos este livro”[4]. Ao percorrer o longo caminho de volta da costa leste para a oeste, na pequena cidade de Council Grove, Kansas, em uma campal para imigrantes alemães, no dia 25 de agosto, encontrou-se com Frederick W. Spies (1866-1935), teuto-alemão que era presidente da Conferência União Brasileira e único delegado representando o Brasil. Abordando Atos 2, Ellen pregou sobre a importância das línguas para o avanço da obra. Ela ficou em Kansas durante quatro dias, onde falou quatro vezes, três delas em inglês e uma vez para os irmãos alemães, provavelmente traduzida por Spies.[5]

Ele foi importante figura da igreja no Brasil, trabalhando inclusive como gerente da Casa Publicadora Brasileira. Frederick W. Spies está sepultado no cemitério de Vila Assunção em Santo André, São Paulo. Um detalhe interessante é que Spies, John Lipke, Augusto Pages e Guilherme Stein Jr. trocaram mais de 50 cartas com W. C. White, filho da pioneira, entre 1901 e 1929 em Santa Helena, Califórnia.

James Edson White, o outro filho do casal, apoiou o trabalho de evangelização dos negros no sul dos Estados Unidos com a impressão da Cartilha Evangélica, traduzida para o português em 1898. Esse livro, uma das primeiras cartilhas protestantes de alfabetização no Brasil, foi impresso nos Estados Unidos e vendido pelos colportores nacionais antes do estabelecimento da Casa Publicadora Brasileira.

O neto de Ellen, Arthur L. White (1907-1991), foi secretário do White Estate durante 41 anos e esteve no Brasil duas vezes (1952 e 1962), promovendo o legado da avó.

Arthur L. White, neto de Ellen White, esteve duas vezes no Brasil (1952 e 1962). No Colégio Adventista Brasileiro, em 1962, Arthur participou como professor do curso de Extensão de Teologia da Associação Geral. Ele é o terceiro (da direita para a esquerda) que está sentado. Créditos: Flávio Araújo Garcia
Arthur L. White, neto de Ellen White, esteve duas vezes no Brasil (1952 e 1962). No Colégio Adventista Brasileiro, em 1962, Arthur participou como professor do curso de Extensão de Teologia da Associação Geral. Ele é o terceiro (da direita para a esquerda) que está sentado. Créditos: Flávio Araújo Garcia
A partir deste brevíssimo resumo, podemos destacar a importância de Ellen White para o Brasil, bem como as relações da profetisa com um país que, embora pouco expressivo em sua época, se tornou uma das “potências” do adventismo. Hoje, por iniciativa de membros e amigos da igreja, diversas cidades brasileiras nomeiam praças e ruas em homenagem a Ellen White[6].

Elder Hosokawa, mestre pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é coordenador do curso de História do Unasp, campus Engenheiro Coelho. Fabio Augusto Darius é doutor pela Escola Superior de Teologia (EST) e atua como professor do curso de História no Unasp, campus Engenheiro Coelho

[1] Traduzido para 150 línguas, Steps to Christ é considerado o décimo quarto livro com maior tiragem no mundo, acumulando 60 milhões de exemplares.

[2] STEIN Jr., Guilherme. A voice from Brazil. The Home Missionary. Julho, 1895, p. 135.

[3] DELAFIELD, D. A. Ellen G. White in Europe. Washington, D. C.: Review and Herald Publishing Association, 1975, p. 282. Lindermann e Doerner são as famílias pioneiras da IASD na Alemanha (1870) e no interior do Rio Grande do Sul (1896), ainda no final do século 19. GRAF, Huldreich H. Travels in Rio Grande do Sul. The Missionary Magazine. Junho, 1896, p. 239 e 240.

[4] AAMODT, T. D. (Ed.) Ellen G. White: American Prophet. New York: Oxford University Press, 2014, p. 149.

[5] WHITE, W.C. At the Iowa and Kansas Camp-Meetings. Advent Review and Sabbath Herald. 6 de janeiro 6, 1910, p. 9.

[6] Uma das primeiras iniciativas do poder público em homenagem à pioneira adventista ocorreu em 1999, na capital paranaense. No bairro do Ahú, um jardinete recebeu o nome dela. Em 8 de abril de 2013, em Franca (SP) um logradouro também foi inaugurado em homenagem a Ellen White. Outro fato recente foi o decreto municipal nº 10.734, assinado em 9 de junho de 2014, na capital mineira, que atribuiu o nome da escritora a uma praça no bairro Solar do Barreiro. Vale lembrar ainda que Ellen figura na galeria de retratos da Universidade Aberta do Meio Ambiente e da Cultura da Paz (Umapaz), no Ibirapuera, na capital paulista. No dia 20 de dezembro de 2013, a escritora foi reconhecida como vanguardista no discurso sobre saúde e sustentabilidade.

VEJA A GALERIA COM OUTRAS IMAGENS HISTÓRICAS

Para saber +                                                            

Entre os dias 24 e 27 de agosto, a 4ª Semana de História do Unasp, campus Engenheiro Coelho, vai tratar sobre o contexto histórico-teológico de Ellen White, apresentando pesquisas inéditas sobre a relação da pioneira com o Brasil.

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  • Fernando Dias

    Um detalhe interessante não mencionado, é que, além de Spies, outro obreiro que trabalhou no Brasil pôde visitar Ellen G. White: o pastor Manuel Soares.

  • Vanderlei Vianna

    Matéria de alto nível. Parabéns! O autor não menciona o local do Brasil em que José Bates aportou. Certa vez eu estava com o pastor Alberto Timm na estação das Docas e Ver-o-Peso em Belém do Pará e ele comentou seu sentimento de que Bates tenha visitado algum Porto do Norte do Brasil. Gustaría de saber se o autor tem alguma fonte que indique o local

    • Olá, Vanderlei. Obrigado pelo contato. Estamos encaminhando sua dúvida para os pesquisadores. Abraço

    • Olá, Vanderlei. Veja a resposta do professor Elder Hosokawa:

      Joseph Bates aportou em Recife (PE), Cabedelo (PB), Salvador (BA), Rio de Janeiro, Desterro (SC). Como tinha experiência em alto mar, viajava direto da Virgínia para Cabo Verde (imediações do continente africano) por conta dos ventos e correntes marítimas e de lá chegou no Recife.

      Em sua segunda viagem para a América do Sul (22/01/1822-20/03/1822) de Baltimore (imediações de Washington DC) até o porto do Rio de Janeiro, levou 57 dias de viagem. (BATES, Joseph. Autobiography, 1868.) Não existe menção nas suas várias viagens pela América Central e pela América do Sul a passagem pelo porto de Belém.

      Outro obreiro adventista L.C. Chadwick passou pelo Brasil a pedido do filho de Ellen G. White (W.C.White). Este fez visita detalhada pelo litoral, mas passou direto e descreveu o Rio de Janeiro em 30 de junho de 1891 … Quem fez descrições mais detalhadas foram os pastores Nels Pedro Nielsen, L. Halliwell e Oliver Montgomery na primeira metade do século XX.

      O porto de Belém fica recolhido à sudoeste da ilha do Marajó o que atrasava e aumentava os custos de viagem para Montevideo/Buenos Aires que era o destino da maioria das linhas comerciais da época. Somente com a fase da borracha durante a IGM o porto ganhou expressão comercial no circuito internacional. Sua importância era regional ou dentro da geopolítica da colonização portuguesa de segurança de fronteiras e disputas Espanhóis (Peru metais) X Portugueses (“drogas” medicinais) do norte e escoamento da produção local por comerciantes judeus locais.

      O adventismo chega ao Norte do Brasil pela fronteira com a Venezuela com o missionário Ovid Davis em 1906 atuando entre os índios de Roraima (Pacaraima/Tauepang) na região que faz divisa com o Pará e Amazonas.

      As primeiras referências sobre adventistas na região Norte datam de 1911 e foram citadas por F.W. Spies. Em 1912, num curso de colportagem, um jovem paraense fez o seu treinamento desejando iniciar o trabalho na região amazônica…Isso antes de A. Gedrath e H. Mayhr, (1927) J.L.Brown, L.Halliwell (1931).

      1911 – Spies menciona existir um grupo de fiéis que ainda não foram visitados por missionário adventista.[1]

      1912 – Segundo Lipke, num curso de colportagem em setembro na Bahia um rapaz do Pará concluiu o treinamento desejando iniciar o trabalho na região amazônica.[2]

  • Roberval Taylor

    Apenas uma observação: Os livros de Ellen G White foram escritos originalmente em Inglês, portanto não poderiam ter sido “traduzidos” para a língua nativa em que foram originalmente escritos ! Assim, a língua portuguesa seria a SEGUNDA e não a Terceira língua em que seus escritos foram mais traduzidos, ficando atrás apenas da língua espanhola ! Concordam ? abraços a todos.

    • Obrigado pela observação, Roberval. Efetuamos a correção. Abraço!

      • Angélio Rocha

        Angélio Rocha
        Mas na matéria consta corretamente a lingua portuguesa como SEGUNDA e não terceira lingua dos escritos mais traduzidos da autora.