Tesouro inesgotável

As contribuições de Ellen White para a teologia do adventismo abrangem vários aspectos

Pode Ellen White ser considerada uma teóloga? Ao longo dos anos, pessoas têm respondido a essa pergunta partindo de diferentes perspectivas. Alguns argumentam que os teólogos são apenas aqueles que interpretam a Bíblia de uma forma técnica (exegética ou sistematicamente), e que Ellen White não se encaixa nessa categoria. Mas outros creem que teólogos são também os que contribuem com conceitos teológicos úteis, e nesse sentido ela cumpre plenamente a expectativa.

Sem entrar nessa discussão, reconhecemos que os escritos de Ellen White são uma mina extremamente rica de conceitos teológicos. Este artigo destaca apenas cinco desses conceitos.

A BÍBLIA COMO SUA PRÓPRIA INTÉRPRETE

O compromisso de Ellen White com o princípio protestante de a “Bíblia como sua própria intérprete” é evidente em muitas de suas afirmações. Por exemplo, ela declara que, no fim dos tempos, Deus terá um povo que vai manter “a Bíblia, e a Bíblia só, como padrão de todas as doutrinas e base de todas as reformas. As opiniões de homens ilustrados, as deduções da ciência, os credos ou decisões dos concílios eclesiásticos, tão numerosos e discordantes como são as igrejas que representam, a voz da maioria – nenhuma dessas coisas, nem todas em conjunto, deveriam ser consideradas como prova em favor ou contra qualquer ponto de fé religiosa. Antes de aceitar qualquer doutrina ou preceito, devemos pedir em seu apoio um claro ‘Assim diz o Senhor’” (O Grande Conflito, p. 595).

1-biblia Em relação à forma pela qual a Bíblia deve ser estudada, encontramos um interessante equilíbrio entre a compreensão exegética de determinado texto bíblico e a analogia geral das Escrituras. De uma perspectiva mais exegética, Ellen White escreveu: “Bem pouco benefício, porém, se tira de uma leitura apressada das Escrituras. Pode-se ler a Bíblia inteira e contudo deixar de reconhecer-lhe a beleza ou compreender-lhe o sentido profundo e oculto. Uma passagem que se estude até que seu sentido seja claro à mente e evidente sua relação para com o plano da salvação é de maior valor do que a leitura de muitos capítulos sem ter em vista nenhum propósito definido e sem adquirir nenhuma instrução positiva” (Caminho a Cristo, p. 90).

Com ênfase na analogia das Escrituras, ela acrescentou: “Quando pesquisar as Escrituras com fervoroso desejo de aprender a verdade, Deus lhe comunicará seu Espírito ao coração e lhe impressionará a mente com a luz de sua Palavra. A Bíblia é seu próprio intérprete, uma passagem explicando a outra. Mediante a comparação de textos referentes aos mesmos assuntos, você verá beleza e harmonia com que nunca sonhou. Não há nenhum outro livro cujo manuseio fortaleça e amplie, eleve e enobreça tanto o espírito como o Livro dos livros” (Testemunhos Para a Igreja, v. 4, p. 499).

O compromisso de Ellen White com “a Bíblia como sua própria intérprete” é igualmente evidente na forma com que ela permitiu que a Bíblia se autointerpretasse. Por exemplo, ela interpretou a semana da criação (Gn 1-2), a queda de Adão e Eva (Gn 3), o dilúvio universal (Gn 6-8), a destruição de Sodoma e Gomorra (Gn 19:23-29), o êxodo (Êx 1-19) e a história de Jonas (Jn 1-4) como fatos históricos confiáveis, exatamente como os escritores do Novo Testamento os consideram (ver Alberto R. Timm, “Sola Scriptura and Ellen White: Historical Reflections”, em Merlin D. Burt, Jiri Moskala e Alberto R. Timm [eds.], The Gift of Prophecy in Scripture and History, a ser publicado em 2015). Além disso, os escritos dela funcionam como “um filtro profético de origem divina”, capaz de remover as falsas interpretações artificialmente impostas à Bíblia, permitindo que a Palavra de Deus interprete a si mesma e influencie nossa vida com sua mensagem transformadora.

A MOLDURA DO “GRANDE CONFLITO”

2-conflitoUma das mais significativas contribuições teológicas de Ellen White é sua compreensão do grande conflito cósmico-histórico entre
o bem e o mal, conforme descrito em sua visão de 14 de março de 1858 (ver Primeiros Escritos, p. 145-295) e expandida nos cinco volumes da série “O Conflito dos Séculos”: Patriarcas e Profetas (1890); Profetas e Reis (1916); O Desejado de Todas as Nações (1898); Atos dos Apóstolos (1911); O Grande Conflito (1888, revisado em 1911). Ela descreveu esse conflito como havendo iniciado no Céu com a rebelião de Lúcifer, prosseguindo ao longo da história humana e terminando com a final erradicação do pecado e de todos os pecadores impenitentes (ver Ap 12).

Para Ellen White, o estudante da Bíblia “deve aprender a ver a Palavra como um todo, e bem assim a relação de suas partes. Deve obter conhecimento de seu grandioso tema central, do propósito original de Deus em relação a este mundo, da origem do grande conflito, e da obra da redenção. Deve compreender a natureza dos dois princípios que contendem pela supremacia, e aprender a delinear sua operação através dos relatos da história e da profecia, até à grande consumação. Deve enxergar como esse conflito penetra em todos os aspectos da experiência humana; como em cada ato de sua vida ele mesmo revela um ou outro daqueles dois princípios antagônicos; e como, querendo ou não, ele está mesmo agora a decidir de que lado do conflito estará” (Educação, p. 190).

Com seu ponto focal no caráter de Deus como expresso na lei, esse conflito provê uma moldura teológica para as contínuas disputas entre a verdade e o erro, entre “os que guardam os mandamentos de Deus” e os que adoram “a besta e a sua imagem” (Ap 12:17; 14:9-12). Nessa disputa, Satanás levou muitos cristãos a crer “que a lei dos Dez Mandamentos também havia morrido com Cristo” na cruz (Primeiros Escritos, p. 215), e que “as reivindicações de Cristo são menos estritas do que uma vez creram” (Testemunhos Para Ministros, p. 474). Em realidade, “Satanás quer que todo transgressor da lei de Deus pretenda ser santo” (Evangelismo, p. 597). A moldura do grande conflito não provê nenhum espaço para compreensões ecumênicas e/ou pluralistas das verdades bíblicas.

O SISTEMA DOUTRINÁRIO

3-arvore-doutrinasOutra importante contribuição teológica de Ellen White é sua compreensão da mensagem adventista como formando um sistema doutrinário harmônico e coerente. Ela declarou: “A verdade para este tempo é ampla em seus contornos, de vasto alcance, abrangendo muitas doutrinas; estas, porém, não são unidades destacadas, de pouca significação; são unidas por áureos fios, formando um todo completo, tendo Cristo como o centro vivo. As verdades que apresentamos da Bíblia são tão firmes e inabaláveis como o trono de Deus” (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 87).

Ellen White se referiu às três mensagens angélicas de Apocalipse 14:6-12 como três degraus de acesso à “sólida plataforma inamovível” da verdade para o tempo do fim (Primeiros Escritos, p. 258, 259). Para ela, o santuário de Daniel 8:14 foi a chave que “desvendou o mistério do desapontamento de 1844” e revelou um sistema “completo de verdades, ligadas harmonicamente entre si” (O Grande Conflito, p. 409, 423). Consequentemente, ela considerou esses dois assuntos como temas fundamentais da mensagem adventista, “perfeitamente apropriados para esclarecer o passado movimento adventista e mostrar qual é nossa presente posição, estabelecer a fé do vacilante e dar a certeza do glorioso futuro” (Primeiros Escritos, p. 63).

CENTROS TEOLÓGICOS CONCÊNTRICOS

4-jesus-centroRichard M. Davidson descobriu nos escritos de Ellen White sete componentes doutrinários que ela chamou de “centro” ou um sinônimo desse termo: a criação, o conflito cósmico, o caráter de Deus, o plano da redenção, Cristo, a cruz e o santuário. Para Davidson, que escreveu sobre o assunto num capítulo do livro Christ, Salvation, and the Eschaton, publicado pela Universidade Andrews em 2009, esses centros não estão isolados uns dos outros, mas todos formam parte de um completo sistema de verdades, com um “centro multifacetado” envolvendo “círculos concêntricos”. Usando uma ilustração mais comum, esses círculos podem ser comparados às várias camadas de uma cebola partida ao meio. Todas as camadas são centros, dependendo da perspectiva pela qual se olha.

Mas devemos reconhecer que todos os círculos concêntricos convergem em Cristo e sua obra expiatória. Assim, Ellen White podia afirmar apropriadamente que “Cristo é o centro de toda verdadeira doutrina” (Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes, p. 453). Em realidade, “Cristo, seu caráter e obra, é o centro e a circunferência de toda verdade. Ele é a cadeia que liga as joias de doutrina. Nele se encontra o inteiro sistema da verdade” (Nossa Alta Vocação, p. 11). “Todas as grandes verdades das Escrituras se centralizam em Cristo; devidamente compreendidas, todas levam a ele. Seja Cristo apresentado como o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim do grande plano da redenção” (Evangelismo, p. 485).

A teologia cristocêntrica de Ellen White é bem expressa na seguinte declaração: “Há uma grande verdade central, que sempre devemos conservar em mente no estudo das Escrituras: Cristo, e ele crucificado. Todas as demais verdades são revestidas de influência e poder correspondentes à sua relação com este tema. É unicamente à luz da cruz que podemos discernir o exaltado caráter da lei de Deus” (em Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 6, p. 1207).

ESBOÇO PROFÉTICO DO TEMPO DO FIM

5-volta_de_jesusUma quinta importante contribuição teológica de Ellen White é seu significativo esboço profético dos eventos do tempo do fim, como encontrado em seu clássico livro O Grande Conflito e na compilação dos seus escritos intitulada Eventos Finais (1992). Suas exposições das profecias bíblicas são extremamente significativas para nosso mundo que se transformou em um imenso mosaico filosófico, ideológico e religioso, com mais de 45 mil denominações cristãs diferentes.

As predições de Ellen White incluem, por exemplo, o rápido crescimento do espiritismo (Primeiros Escritos, p. 262-266); o fortalecimento do papado (O Grande Conflito, p. 563-581); a popularização dos reavivamentos pentecostais e carismáticos (ibid., p. 464); e a “tríplice aliança” entre o catolicismo romano, o protestantismo e o espiritismo (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 451). Uma leitura de O Grande Conflito nos deixa com a impressão de que ele foi escrito há apenas alguns meses. O mundo está assumindo cada vez mais a configuração geral predita por Ellen White há mais de um século.

É tranquilizador saber que Deus está conduzindo a história ao seu vitorioso clímax, quando todos os santos e as hostes celestiais se alegrarão com o cumprimento da tão acalentada promessa: “O grande conflito terminou. Pecado e pecadores não mais existem. O Universo inteiro está purificado. Uma única palpitação de harmonioso júbilo vibra por toda a vasta criação. Daquele que tudo criou emanam vida, luz e alegria por todos os domínios do espaço infinito. Desde o minúsculo átomo até ao maior dos mundos, todas as coisas, animadas e inanimadas, em sua serena beleza e perfeito gozo, declaram que Deus é amor” (O Grande Conflito, p. 678).

Os escritos de Ellen White são realmente uma rica mina de conceitos teológicos. Ela chama nossa atenção para (1) a Bíblia como sua própria intérprete; (2) o grande conflito cósmico-histórico como a moldura teológica para a compreensão da história humana; (3) o harmônico e coerente sistema doutrinário das verdades bíblicas; (4) os centros teológicos concêntricos focalizados em Cristo e sua obra expiatória; e (5) o esboço profético do tempo do fim, indicando o caminho para o reino eterno.

Muitos leitores honestos e sinceros têm sido estimulados pelos escritos de Ellen White a fazer da Bíblia o verdadeiro fundamento de sua fé e prática, bem como a fortalecer seu relacionamento pessoal com Cristo como Salvador e Senhor. Muitas bênçãos estão envolvidas na promessa: “Crede no Senhor, vosso Deus, e estareis seguros; crede nos seus profetas e prosperareis” (2Cr 20:20). Cada um de nós precisa receber essas bênçãos. [Ilustrações: Paula de Passos]

ALBERTO R. TIMM é diretor associado do Ellen G. White Estate

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