Com autoridade

Deus transformou uma garota extremamente frágil em sua porta voz para o tempo do fim
Mais do que nunca, a voz profética que orientou a igreja em sua formação precisa ser ouvida. Créditos da imagem: Fotolia e Ellen G. White Estate
Mais do que nunca, a voz profética que orientou a igreja em sua formação precisa ser ouvida. Créditos da imagem: Fotolia e Ellen G. White Estate

Ellen White é um fenômeno. Considerando suas condições iniciais, sua vida foi nada menos do que um milagre, seu ministério nada menos do que prodigioso e suas conquistas nada menos do que espetaculares. Contrastar a vida dela e de outros pioneiros com as nossas comodidades é um bom antídoto contra reclamações.

Em todo o período de seu ministério, ela enfrentou dificuldades. A pobreza inicial do casal White parecia insuportável. Às vezes, eles sobreviviam com centavos. Nos primeiros momentos, seu patrimônio cabia numa mala de viagem.

A mensageira falou muito de saúde e do poder de Deus, mas não estava imune às aflições que assolam os simples mortais. Fraqueza, dificuldade para respirar, problema de estômago, paralisia, reumatismo e perda da consciência são alguns dos males registrados em seus diários e escritos. Isso sem falar nos ataques do inimigo.

Desde o início de suas visões, ela temia se orgulhar e cair no desfavor divino. Contudo, o anjo garantiu que o Senhor a sustentaria e, se ela corresse esse risco, ele a manteria humilde por meio das aflições. Assim como o poder de Deus se aperfeiçoava na fraqueza do apóstolo (2Co 12:9), no trabalho de Ellen a fragilidade se apoiava no poder de Deus.

As próprias visões a deixavam exausta, até porque não era fácil transmitir mensagens de reprovação, em especial para líderes poderosos. Por isso, Tiago White relatou na Review and Herald em 1868: “A senhora White já disse mais de vinte vezes […] que, se ela pudesse escolher entre ter outra visão e ir para a sepultura, preferiria a sepultura.” Mas, em cada passo, Deus a sustentou.

Apesar dos sofrimentos, ela era bem-humorada. O estereótipo de uma mulher sempre séria não passa no teste da realidade. Por exemplo, a nora dela narrou um incidente ocorrido quando voltavam da Austrália, em 1900. O navio parou em Samoa, a certa distância da praia, e as mulheres, com seus vestidos compridos, foram carregadas pelos fortes samoanos. Depois de ser transportada, Ellen White sentou-se numa grande rocha. Ao ver a nora ser carregada, cheia de pose, ela riu tanto que caiu da pedra.

O fato de não vermos Ellen White sorrindo nas fotografias, conforme sugere George Knight, deve-se a uma questão técnica: até 1880, o lento processo de fotografar exigia que as pessoas ficassem imóveis durante um bom tempo, e era mais fácil manter a cara séria do que sorrindo.

Se Ellen olhasse para suas realizações, ou as realizações de Deus por meio dela, teria motivo para sorrir. Ela ajudou a criar e moldar um sistema editorial mundial, a mensagem e as instituições de saúde e a filosofia educacional adventista e seu sistema escolar. Além disso, contribuiu para o aprimoramento das doutrinas da igreja, incluindo o próprio conceito da Divindade.

Para uma menina que tinha medo de orar em público, o caminho trilhado por Ellen levou-a muito longe também na esfera da oratória. Em agosto de 1876, num acampamento em Massachusetts, mais de 15 mil pessoas chegaram de trem para ouvir o sermão dela sobre temperança. Na noite seguinte, mil dos “mais finos e seletos moradores da cidade” lotaram o auditório em Haverhill novamente, o que a fez se sentir mais honrada do que a rainha da Inglaterra.

Se quando ela começou a falar sobre suas visões as pessoas ouviam mais por curiosidade, até porque as mulheres não costumavam se apresentar em público, no fim ouviam para escutar a voz da autoridade. Para alcançar as multidões, ela desenvolveu duas vozes: mezzo soprano para conversação e a “voz do estômago” (abdominal) para a pregação. Acima de tudo, ela falava com a voz do Espírito de Deus, o que compensa qualquer fragilidade.

O adventismo fundamenta suas crenças na Bíblia. Mas o que seria dele sem o dom de profecia? É possível que, sem as visões, os conselhos e o sacrifício de Ellen White, além do esforço de mais alguns pioneiros, a Igreja Adventista não existisse.

Neste mês em que celebramos cem anos do legado de fé da mensageira do Senhor, aproveite para ler as matérias desta edição e os escritos dela. Num momento em que há tantas vozes confusas no mundo, não deixe de ouvir uma voz clara e que tem autoridade.

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

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