O peso da liderança

A responsabilidade, os desafios e os sonhos de um pastor que recebeu de Deus a tarefa de liderar 2,3 milhões de adventistas
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O que mais embranquece os cabelos e aumenta as olheiras de Erton Köhler não são as viagens nem a quantidade de reuniões, mas o peso de tomar decisões cruciais. Créditos da imagem: DSA/Fotolia

A rotina do pastor Erton Carlos Köhler, 47 anos, natural de Caxias do Sul (RS), parece ser a de qualquer outro dos mais de 4 mil ministros adventistas que atuam na América do Sul. Ele acorda cedo, tem seu momento devocional, toma um rápido desjejum e sai para as atividades que exerce como presidente da sede sul-americana da igreja, uma das 13 Divisões que coordenam o trabalho da denominação ao redor do mundo. Mas essa rotina só parece igual.

O pastor Köhler tem uma responsabilidade diferenciada, pois sobre ele e seus colegas de administração recaem, de certa forma, as decisões sobre os rumos de uma organização que gera impacto na vida de mais de 2,3 milhões de adventistas no Brasil, Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile, Bolívia, Peru e Equador.

Para conseguir conciliar as funções de administrador, cristão e pai de família, Köhler precisa ser altamente disciplinado. E quem o conhece sabe que ele é. Normalmente, mesmo depois de viagens extenuantes (e estima-se que em torno de 75% do ano ele esteja fora de Brasília), o líder mantém o ritmo de acordar entre 5h30 e 6 horas. A primeira grande luta é a de não deixar de fazer, por conta da agenda gigantesca de compromissos, a chamada comunhão pessoal, que, no caso dele, significa ler a Bíblia, a Lição da Escola Sabatina, o devocional Meditações Diárias e um trecho dos livros de Ellen White, além do culto familiar. Köhler ainda encontra tempo para postar no seu perfil do Twitter frases que resumem sua percepção sobre o texto lido. “Faço isso, em primeiro lugar, por causa de mim. Dessa maneira, analiso melhor o trecho da Bíblia que acabei de ler”, comenta. O presidente da Divisão cultiva o hábito diário, compartilhado por dezenas de funcionários da organização e membros da igreja, de comentar com a hashtag #RPSP textos bíblicos nas redes sociais. A iniciativa remete ao projeto Reavivados por Sua Palavra, cuja segunda fase foi iniciada no dia 12 de julho.

Köhler admite que o desjejum costuma ser muito rápido. Geralmente, algo prático, o que quase sempre inclui castanhas-do-pará. Quando está em Brasília, é dele a responsabilidade de levar a filha Mariana, 9 anos, para a escola que estrategicamente está situada bem ao lado da sede da igreja. Com toda essa rotina regrada, ele consegue chegar diariamente às 7h30 para o culto em que todos os servidores da Divisão participam de segunda a sexta-feira antes de iniciar suas atividades.

ATENÇÃO, DEDICAÇÃO E EXIGÊNCIA

É lá que a realidade do pastor Köhler se torna bastante diferente da dos outros pastores. Enquanto muitos, especialmente os que servem em distritos, ainda têm mais algum tempo para planejar o dia e até investir algumas horas em leituras e preparo para visitas e pregações, o presidente da Divisão já tem uma agenda pesada à sua espera quando entra na sala.

E o escritório retrata essa realidade. Principalmente depois de um período de viagens, é comum repousarem sobre sua mesa livros, papéis, DVDs, CDs e até cartas que aguardam um parecer, uma resposta, uma opinião. Isso tudo depois que esse material todo passa pela avaliação do assistente da presidência, pastor Benjamin Belmonte, e da secretária Elisabeth Peres. “Uma das primeiras coisas que faço, ao começar o dia, é limpar essa mesa. Não consigo ficar mais do que dois dias com as coisas pendentes. Geralmente, dou o encaminhamento necessário e respondo o que precisa ser respondido.”

Só que o pastor Köhler, como um líder atualizado e conectado com a tecnologia, ainda tem que responder a dezenas de e-mails diários, mensagens no Whatsapp e inclusive pelo Twitter. Para não esquecer nada, ele tem o hábito de anotar tudo o que precisa fazer, tanto em agenda impressa como em virtual. E vai combinando o que tem nas duas e “riscando” o que já foi feito. O volume de atendimento de materiais que chega até Köhler é enorme e ele assegura que aquilo que depende especificamente da sua palavra normalmente é respondido em um curto espaço de tempo.

A maior parte do dia é tomada por reuniões e atendimento pessoal ou por telefone a líderes dos departamentos da sede, administradores de Uniões, autoridades e quem realmente precisar falar com o presidente da Divisão. “O que mais embranquece os cabelos e aumenta as olheiras não são as viagens nem a quantidade de reuniões, mas esse peso emocional, essa tarefa diária de ter que tomar decisões cruciais para o avanço da igreja em um continente. Porém, Deus vai nos dando forças para assumir isso”, comenta, com a experiência de quem está na função desde outubro de 2006.

O líder adventista reconhece que é bastante exigente com o cumprimento de prazos e com detalhes que, na sua ótica, fazem a diferença para se poder afirmar que foi feito o melhor para Deus. Há 13 anos, escreve mensalmente artigos para a Revista Adventista e fica satisfeito em dizer que só deve ter falhado poucas vezes em termos de prazo. Costuma mexer mais de dez vezes no texto antes de considerá- lo pronto. E faz isso também com os materiais que recebe de outros. Passar algum conteúdo escrito por seu crivo é sempre um desafio que os pastores que trabalham com ele enfrentam.

O desgaste do cargo envolve ainda falar todas as semanas em três idiomas (português, inglês e espanhol) coisa que se compara somente ao trabalho de grandes CEOs (Chief Executive Officer), ou diretores executivos de corporações multinacionais, sem falar em outras atividades como viajar pelo mundo inteiro, escrever para diferentes sites e publicações impressas ou mesmo gravar vídeos, pregar duas ou três vezes por dia em eventos e ter sempre uma palavra de ânimo quando abordado por membros ou pessoas que desejam conhecer mais sobre a igreja. Ou seja, parece até algo surreal para estar sobre os ombros de uma pessoa.

Mas Erton Köhler encara isso com a convicção de que Deus conduziu totalmente sua vida até hoje a fim de que pudesse assumir essa grandiosa tarefa. Filho do pastor Arno Köhler (já aposentado e que também liderou a denominação em algumas regiões do Brasil), o então menino, com dez anos de idade, chegou a acompanhar, certa vez, uma reunião administrativa da igreja presidida pelo pai. Ele ficou embaixo da mesa e lembra até hoje de nomes e do que se falou de cada pessoa que estava sendo avaliada para determinadas funções. No passado, mais resignado, Köhler aprendeu pelo exemplo do pai o que muitos anos depois lhe serviria na liderança. Foi ainda nessa época que pregou seu primeiro sermão durante um campori de desbravadores da região Sul do Brasil, em Florianópolis (SC). O sermão durou históricos 3,5 minutos.

Outra prova do desígnio de Deus para Köhler foi seu casamento, em 1992, com a enfermeira Adriene, com quem tem dois filhos: Mariana e Matheus, com 15 anos, que estuda atualmente em um dos internatos adventistas em Goiás.

Ele não hesita em dizer que a esposa abriu mão de sua profissão para ser uma total auxiliadora no ministério do marido. “Ela é quem cuida das coisas da casa, até das finanças da família, para que eu possa me dedicar do jeito que faço à causa de Deus. Sem a abnegação dela e igual amor pela igreja de Deus, eu não conseguiria fazer o que faço”, admite.

LEITURAS E SONHOS

Por conta da atividade, Erton Köhler nunca desliga o celular e ali se informa sobre o que se passa no mundo. Mas ele tem suas leituras específicas. Gosta de ler sobre liderança, religião e história, e prefere como gênero as biografias. Mantém anotações disso tudo para uso em sermões ou palestras. Assegura que aprende muito ao ler a respeito dos erros e acertos de grandes homens e mulheres. Abraham Lincoln e Steve Jobs foram dois biografados que lhe chamaram a atenção. O primeiro por sua superação e ousadia ao reescrever a história; e o segundo por sua visão de inovação e busca permanente da excelência.

Aliás, Köhler tem o costume, há mais de duas décadas, de guardar informações e ideias sobre todas as áreas da igreja. E isso ele iniciou em arquivos de papel e pastas. Apesar de ter exercido, por muitos anos, a função de líder do Ministério Jovem em diferentes níveis da denominação, sempre acreditou que precisaria saber mais sobre todas as frentes de ação da igreja. “Uma igreja saudável não é unilateral, mas ampla”, ensina.

Quando tem folga, realmente gosta de ler e dormir. O sono é algo que falta devido a tantos compromissos e viagens (às vezes, a poltrona do avião se transforma em local de recuperação das energias). Também gosta de fazer caminhadas, de preferência, com a esposa.

Sobre sonhos e metas para o futuro, pelo seu olhar é possível deduzir que muitas ideias fervilham na sua mente. Assegura que, quando idealiza algum projeto ou programa, pensa sempre no membro comum e nos líderes que precisa motivar e inspirar.
Ao tentar resumir o que ainda crê que pode ser feito, em sua terceira gestão à frente da igreja na América do Sul (ele foi reeleito no dia 6 de julho na assembleia mundial em San Antonio, Texas), fala em consolidar a tendência de integração com o foco na missão e de simplificar o programa geral da igreja. Espera que isso se concretize a fim de que qualquer pessoa possa assimilar facilmente o que a igreja deve ser e fazer no cumprimento da missão bíblica. “Quero trabalhar para termos um calendário mais simples a fim de que os pastores locais possam desenvolver os projetos de forma adaptada em cada lugar”, almeja.

Seu sonho, sintetizado em uma expressão, consiste em fortalecer a ideia de uma igreja mais relevante, tanto para a comunidade quanto para os membros, o que inclui dar mais atenção para as novas gerações: crianças, adolescentes e universitários. “Só que eu sei que essa relevância não acontecerá apenas por conta da força institucional. Precisamos ser mais fortes espiritualmente para que a igreja realmente faça a diferença no mundo. E então veremos Jesus voltar”, comenta.

FELIPE LEMOS é jornalista

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