Ensinando o bê-á-bá

Projeto desenvolvido em templos adventistas ajuda a reduzir índice de analfabetismo

Quando a família real portuguesa chegou ao Brasil em 1808, a população da colônia era composta por cerca de 99 por cento de analfabetos. Mesma com a proclamação da República, a realidade não mudou muito. “Em 1889, o índice de analfabetismo ainda era de 80%. Só uma em cada seis crianças com idades entre seis e 15 anos frequentava a escola”, conta o jornalista e escritor Laurentino Gomes, autor da trilogia 1808, 1822 e 1889.

Se no contexto da América protestante até mesmo os negros escravizados eram alfabetizados para ler a Bíblia e participar dos cultos, conforme observa o autor (assista à entrevista na íntegra), na América católica isso não aconteceu. Principalmente no caso do Brasil, a maioria da população foi mantida no analfabetismo.

A falta de prioridade na área educacional deixou marcas profundas que ainda hoje acompanham o país. Embora nos últimos duzentos anos o índice de analfabetismo caiu de 99 para 9 por cento, o número de brasileiros que ainda não sabe ler nem escrever é de 14,6 milhões, segundo constatou o último censo do IBGE.

As regiões Nordeste e Norte são as que apresentam os maiores desafios (veja o gráfico). Entre os dez estados com as taxas mais elevadas de analfabetismo está o Acre, onde 15,9 por cento da população com mais de dez anos de idade é analfabeta, de acordo com o levantamento do IBGE.

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Índice de analfabetismo, segundo dados do censo do IBGE (2010).

Apesar de ter vivido um passado de prosperidade econômica durante o ciclo de extração da borracha, a região que pertenceu à Bolívia até 1904 herdou um sistema de ensino formal precário. A falta de professores qualificados fez com que boa parte da população acreana recebesse apenas o suficiente para ler e escrever o próprio nome.

Hoje concentrada em pequenas cidades do interior e nas zonas rurais, a maior parte dos habitantes do Estado vive da agricultura de subsistência. Para as crianças e jovens dessas localidades, estudar continua sendo um grande desafio. A falta de oportunidades leva muitos deles a deixar familiares e migrar para cidades maiores, como foi o caso de Maria Osmarina Marina da Silva Vaz de Lima.

Mais conhecida como Marina Silva, a senadora e ex-ministra do Meio Ambiente só foi alfabetizada aos 16 anos de idade. Filha de um seringueiro e de uma dona de casa, ela viveu em situação precária em um seringal. Contrariando a tendência de um futuro pouco promissor, Marina Silva deixou a região e seguiu para a capital, Rio Branco, onde foi alfabetizada pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) – leia mais sobre a história dela, aqui.

Revertendo os índices

Nos últimos anos, diversas iniciativas governamentais vêm tentando erradicar o analfabetismo que ainda envolve cerca de 65 mil acreanos. Um dos projetos mais recentes é o programa “Aprendendo com as Letras”, que espera reverter o índice de analfabetos para menos de 4% até 2018.

Por meio dessas iniciativas, até mesmo pessoas como seu José da Silva Nascimento, de 68 anos, tem tido a oportunidade de estudar. Ele chegou a completar a quarta série aos 20 anos de idade, mas, na luta pela sobrevivência, precisou trocar a escola pelos seringais. Com muito sacrifício, criou os 13 filhos, sempre tentando incentivá-los a frequentar a escola.

Atualmente morando na capital, seu José é o aluno mais velho de uma turma de 44 estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Estadual Zuleide Pereira de Sousa. Em junho deste ano, sua história se tornou conhecida na região onde mora, quando ele recebeu destaque em uma reportagem publicada pelo jornal A Gazeta do Acre.

Enquanto alguns colegas de classe buscam conhecimento para crescer no mercado de trabalho, seu José tem uma motivação diferente. Ele está entusiasmado com o fato de que o aprimoramento da leitura poderá lhe dar condições de entender melhor a base da sua fé. “Em função da idade, posso até não conseguir outro emprego, mas melhor do que ter uma faculdade é poder estudar a Bíblia”, garante.

Há aproximadamente um ano, José é membro da Igreja Adventista do bairro Santa Helena. Mesmo com pouca escolaridade, uma de suas paixões é dar estudos bíblicos. Ele acredita que, com o retorno à escola, novos horizontes devem se abrir para a sua missão.

Aprendendo com as (sagradas) letras

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No interior do Acre, professores voluntários dedicam dois dias na semana para ensinar pessoas a ler e escrever. Templos adventistas se tornaram a base do serviço para a comunidade. Foto: Leonardo Leite

Na tentativa de ajudar a reduzir as taxas de analfabetismo no estado e de mudar o quadro educacional que envolvia os próprios membros da denominação, a igreja se uniu em 2013 ao projeto “Mova Alfa 100”.

Três templos adventistas de Sena Madureira, a terceira cidade mais populosa do Acre, foram transformados em salas de aula às terças e quintas, recebendo jovens e adultos da comunidade. “Ao chegar à cidade e conhecer as igrejas, percebemos que 25 por cento dos membros não eram alfabetizados. Foi então que procuramos os coordenadores do projeto ‘Alfa 100’ para propor uma parceria”, explica o pastor Bruno Barbosa, líder local.

As denominações evangélicas, em geral, ainda tem um grande desafio pela frente no que diz respeito à redução do número de analfabetos que se encontram dentro das igrejas. Para se ter uma ideia, o último censo do IBGE identificou mais de 1,6 milhão de evangélicos entre 20 e 69 anos nessa condição.

No caso da Igreja Adventista no Acre, a disposição para contribuir com uma mudança de cenário foi encarada como parte de sua missão. O envolvimento com o programa de alfabetização vem ganhando força a cada ano. Em fevereiro de 2014, quando o projeto começava a dar os primeiros passos, a Revista Adventista chegou a publicar uma reportagem sobre o assunto. Hoje, segundo os voluntários adventistas responsáveis pela iniciativa na localidade, boa parte dos adventistas de Sena Madureira que eram analfabetos já tem domínio da leitura e da escrita.

Segundo Barbosa, também já foi possível perceber que a alfabetização dos membros também contribuiu para o fortalecimento espiritual dessas pessoas, uma vez que os fiéis passaram a ler a Bíblia individualmente a ensinar seus familiares sobre o livro sagrado. “É gratificante ver hoje os membros mais participativos, lendo, ministrando estudos bíblicos, testemunhando para os familiares e se envolvendo como líderes da igreja”, afirma o pastor.

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Bertoldo Silva esteve entre os primeiros beneficiados pela parceria entre a Igreja Adventista e o projeto “Alfa 100” do governo estadual. Foto: Leonardo Leite

O casal Bertoldo e Eleonor Silva está entre os que já foram beneficiados. Depois de passar pelo curso, que tem duração de oito meses, eles contam que estão vivendo uma realidade bem diferente: “O que sinto é felicidade em saber que agora posso ler a Bíblia, cantar os hinos do Hinário Adventista e ajudar na obra do Senhor”, expressa Eleonor.

No entanto, o projeto não atende apenas os adventistas. Com a iniciativa, as igrejas se tornaram um espaço de serviço para a comunidade. Valcicley Silva já atuou como um dos professores voluntários. Durante aproximadamente um ano, ele ajudou os estudantes também fora da sala de aula. Nas horas vagas, o docente visitava os alunos a fim de oferecer orientações bíblicas para as famílias. Essa foi uma das formas que ele encontrou de reforçar o aprendizado adquirido em classe e, ao mesmo tempo, ensinar a Bíblia. “Fico emocionado em ver vários deles entregando a vida a Deus por influência do projeto”, declara o educador.

A exemplo do que vem acontecendo no Acre, projetos de alfabetização podem ser uma forma de tornar a igreja mais relevante em outras regiões do país que também concentram elevadas taxas de analfabetismo. Afinal, atender as necessidades das pessoas, a começar pelas mais básicas, faz parte do bê-á-bá do evangelismo. [Márcio Tonetti, equipe RA / Com colaboração de Eriany Uchôa e Leonardo Leite]

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