Missão urbana

Centro de influência é inaugurado em Itajaí. Cidade que foi a porta de entrada do adventismo no Brasil ainda apresenta grandes desafios evangelísticos

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Espaço alugado no centro da cidade de Itajaí oferecerá diversos serviços para a população. Com abordagens sobre saúde e meio ambiente, centro de influência deve abrir portas para a missão na cidade mais rica de Santa Catarina. Créditos da imagem: Daniel Gonçalves]

Um novo centro de influência da Igreja Adventista abriu suas portas na última quinta-feira, 10 de setembro, numa importante cidade do Sul do Brasil: Itajaí. O município catarinense que recebeu as primeiras literaturas adventistas que chegaram em solo brasileiro no século 19 passa a contar com um espaço multiuso, que deve oferecer serviços para a comunidade em diversas áreas e até um restaurante vegetariano.

Apesar de sua relação histórica com o adventismo no Brasil, Itajaí ainda apresenta grandes desafios evangelísticos. Segundo dados da sede administrativa que atende a região (Associação Catarinense), Itajaí possui dois distritos pastorais que reúnem 1,4 mil membros, o que representa 0,6% da população do município, estimada em 201 mil pessoas. Isso significa que a cada 143 habitantes um é adventista – uma média bem acima da nacional, que é de um adventista para cada 133 habitantes.

Entre os fatores que tornam esse lugar um campo missionário desafiador está a sua realidade socioeconômica. Embora Itajaí não seja a cidade mais populosa no território catarinense, o município é o que possui a maior renda per capita e o segundo maior PIB do Estado (além de ocupar a 29ª posição no ranking das maiores economias do país). O boom econômico verificado especialmente a partir da década de 1970 passou a exigir da igreja novas estratégias para alcançar públicos secularizados.

Levando em conta a cultura e os hábitos da população local, a liderança da igreja decidiu criar um centro focado principalmente na saúde e na proteção ambiental. “O centro de influência vai ser uma maneira de atrairmos pessoas com uma abordagem de saúde, qualidade de vida e preocupação com o meio ambiente”, explica o pastor Marcelo Coelho, diretor responsável pelo espaço.

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Espaço dará ênfase nos oito remédios naturais. Créditos da imagem: Daniel Gonçalves

A própria estrutura do local foi pensada para ser uma referência em sustentabilidade na região. O espaço traz, por exemplo, um sistema de captação de água da chuva com capacidade para 10 mil litros. Esse reservatório será usado para descargas dos banheiros, para lavar calçadas e regar jardins. A ideia é que o projeto também seja usado como modelo nas aulas do curso que será oferecido à população mostrando como é possível reaproveitar a água da chuva em ambientes domésticos.

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Aberto de segunda à sexta-feira em horário comercial – e também no turno da noite, a fim de se adequar à agenda de quem trabalha durante o dia -, o centro de influência situado na rua Dr. Pedro Ferreira, número 225, no centro de Itajaí, deve começar oferecendo seis cursos. Um deles será ministrado por uma nutricionista que ensinará como aproveitar restos de alimentos, que costumeiramente vão para o lixo, para fazer receitas saudáveis.

Além disso, também serão ofertados cursos de conversação em inglês, uma vez que essa foi uma das necessidades identificadas na cidade portuária.

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Além de aulas de culinária vegetariana, o Espaço Vida e Saúde conta com um restaurante. Créditos da imagem: Daniel Gonçalves
A lista de serviços oferecidos no chamado Espaço Vida e Saúde também inclui um restaurante vegetariano com capacidade para 70 pessoas, que servirá almoço de segunda à sexta-feira. A área de aproximadamente 2.500 metros quadrados agrega ainda lojas com produtos da Superbom e da Casa Publicadora Brasileira.

Segundo o pastor Marcelo Coelho, a maioria dos projetos no espaço comunitário contará com o apoio de voluntários.

Dentro do plano original

Multiplicar os centros de influência em cidades com mais de 200 mil habitantes tem sido uma das ênfases da liderança mundial adventista nos últimos anos, conforme lembra o diretor do espaço inaugurado em Itajaí.

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Presidente mundial dos adventistas participou da inauguração do Instituto Base Gênesis, no centro de São Paulo, em maio deste ano. Créditos da imagem: Márcio Tonetti
Não foi por acaso que na última visita ao Brasil, em maio deste ano, o presidente mundial dos adventistas dedicou espaço na agenda para a cerimônia de abertura de um centro de influência no coração da maior metrópole brasileira. Segundo ele, alcançar as pessoas dessas regiões é um dos principais desafios da denominação no cenário contemporâneo. “Por isso, temos tentado desafiar a igreja em todo o mundo para que entre nos planos que são descritos no Espírito de Profecia, a fim de alcançar pessoas nas grandes cidades”, disse Wilson enquanto participava da inauguração do Instituto Base Gênesis na Praça da Sé, no centro da capital paulista, um projeto que foi estabelecido com o objetivo de atender estrangeiros, refugiados e diversas “tribos urbanas”.

Em sua palestra no "I Will Go", congresso internacional realizado no Unasp nos dias 10 a 12 de setembro, Abdala falou sobre os centros de influência na missão urbana. Créditos da imagem: Ellen Lopes
Em sua palestra no “I Will Go”, congresso internacional realizado no Unasp nos dias 10 a 12 de setembro, Abdala falou sobre centros de influência na missão urbana. Créditos da imagem: Ellen Lopes
O pastor Emílio Abdala, que lidera os departamentos de Evangelismo e Missão Global da igreja no Estado de São Paulo, tem pesquisado nos escritos de Ellen White sobre o conceito e a história dos centros de influência, a fim de extrair modelos para o evangelismo em grandes cidades paulistas. Durante uma palestra realizada na última quinta-feira, 11 de setembro, no Congresso Internacional de Universitários Voluntários, o “I Will Go, ele relembrou alguns dos textos da profetisa que fazem referência ao tema e explicou o contexto de algumas dessas citações.

Uma das obras de Ellen White que trazem o termo “centros de influência” é o livro Testemunhos Para a Igreja, onde ela afirma que: “Devemos fazer mais do que temos feito para alcançar as pessoas de nossas cidades. Não devemos construir grandes edifícios nas cidades, mas, repetidas vezes, foi-me esclarecido que devemos estabelecer em todas as nossas cidades pequenas instalações que se tornem centros de influência” (vol. 7, p. 115).

Conforme lembra Abdala, Ellen White falou sobre a necessidade de multiplicar “centros de influência” num contexto crucial da história do adventismo, em que a igreja e suas instituições estavam concentradas em Battle Creek. Sob orientação divina, ela mostrou que a presença adventista deveria chegar a lugares que até então haviam sido negligenciados. Ele destaca também que, para a pioneira, a criação de espaços que ajudassem a propagar a mensagem do advento nas grandes cidades deveria incluir um leque de atividades. “Sua concepção de centros de influência incluía escolas, hospitais, restaurantes vegetarianos e outras abordagens que vem sendo usadas hoje”, ressalta.

O pastor explica que, antes mesmo do fim do século 19, algumas tentativas de implantação de centros de influência começaram a ser registradas na América do Norte. A primeira delas foi um projeto encabeçado por John Harvey Kellogg na cidade de Chicago e que tinha forte ênfase na saúde. “No entanto, o modelo apresentou alguns problemas. Além de ser insustentável financeiramente em função dos altos custos para a manutenção de clínicas e de um barco, a iniciativa não estava com o foco certo. O projeto se tornou um ministério puramente social, que competia com a assistência do governo. O evangelismo ficou de lado. Aliás, para Kellogg, não importava a denominação que estava por trás”, observa Emílio Abdala. Entre as razões que levaram Ellen White a não apoiar o modelo também estava o fato de Kellogg ter feito da saúde o foco principal desse trabalho e não um “braço” da mensagem.

O exemplo citado pelo Dr. Emílio Abdala se encaixa na observação feita pelo presidente da igreja na América do Sul, pastor Erton Köhler, quanto ao objetivo dos centros de influência: “É preciso que haja preocupação não apenas em servir, mas em salvar. Precisamos seguir o método de Cristo de maneira completa”, disse durante a inauguração do “Instituto Base Gênesis”.

Nesse sentido, conforme definiu recentemente Gary Krause, diretor mundial da Missão Adventista, em palestra realizada durante um evento organizado pela Associação Paulistana, os centros de influência devem ser entendidos como espaços comunitários que servem de plataforma para aplicar o método de Cristo: misturar-se com as pessoas, atender suas necessidades, ganhar a confiança delas e então convidá-las para seguir a Jesus.

Gary reforçou que, num contexto em que aumenta cada vez mais o preconceito de muita gente contra templos e igrejas organizadas, esses espaços têm a vantagem de ser um “território neutro, sem o ranço negativo que a igreja tem” para esse público.

Mas, para que sejam efetivos dentro do plano estratégico das missões urbanas, conforme observa Abdala, é imprescindível que os centros de influência tenham o foco na missão, sejam autossustentáveis, dependam de trabalhos voluntários e tenham abordagem diversificada. [Márcio Tonetti, equipe RA / Fotos: Daniel Gonçalves]

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