O oitavo rei

Paralelos entre o dragão e as bestas de sete cabeças apontam novas hipóteses para os símbolos de Apocalipse 17

O-Oitavo-Rei

Nos anos recentes, os símbolos de Apocalipse 17 têm desafiado os intérpretes. A multiplicidade de interpretações, incluindo as de Ranko Stefanovic, Jon Paulien e Ekkehardt Müeller, reflete a complexidade da visão.

As interpretações que identificam a besta escarlate com Roma papal (Ap 13:1) ou o diabo esbarram num problema claro: por fim (Ap 17:16), a besta escarlate odeia e destrói a meretriz. Nesse caso, o papado ou o diabo se levantariam contra si mesmos.

Ver a figura da besta de sete cabeças a partir do contexto do Antigo Testamento pode nos ajudar a entender o enigma. Além disso, a pressuposição de que Apocalipse 12, 13 e 17 são visões paralelas deve ser levada em conta. Nos três capítulos, João descreve um símbolo comum: uma fera de sete cabeças e dez chifres que se reconfigura a cada nova visão.

A BESTA NO ANTIGO TESTAMENTO

João emprega a palavra grega therion (“besta”) 38 vezes. O termo é usado pela versão grega do Antigo Testamento para traduzir o hebraico chay, que se refere a animais e feras (ver Gn 1:24; Sl 49:10).

Entretanto, a palavra therion também é usada como metáfora em profecia. Ezequiel diz que, no cativeiro, as “ovelhas” de Israel foram “espalhadas” e se tornaram “pasto para as feras [theria] do campo” (Ez 34:5). Prevendo a restauração, ele diz que Deus as congregaria “dos diversos países” (v. 13) e acabaria com “a besta ruim [therion] da terra” (v. 25, ARC). Então, garante: “E saberão que eu sou o Senhor, quando eu quebrar as varas do jugo e as livrar das mãos dos que as escravizam. Já não servirão de rapina aos gentios, e a besta-fera da terra nunca mais as comerá” (v. 27, 28, ARC).

Assim, Ezequiel se refere às nações que escravizavam Israel com a metáfora da “besta”. O fim de cativeiro, quando Deus quebrasse o “jugo” de servidão, resultaria na destruição da “besta”.

Isaías também profetizou o fim do cativeiro com linguagem paralela: “Naquele dia, o Senhor tornará a estender a mão para resgatar o restante do seu povo, que for deixado, da Assíria, do Egito, […] de Sinar [Babilônia]” (Is 11:11, 12; cf. Mq 7:12). Nessas profecias, therion é uma metáfora para o Egito, Assíria e Babilônia, os inimigos que impuseram o cativeiro ao povo da aliança. A palavra therion também é usada para os quatro animais de Daniel 7.

Assim, o Antigo Testamento oferece um pano de fundo para a figura da “besta” vista por João.

Além da palavra therion, João empregou 13 vezes o substantivo grego drákon, “dragão”, e quatro vezes ophis, “serpente”, em referência aos inimigos de Deus.

Curiosamente, a metáfora do dragão também é usada em referência ao Egito e Babilônia. Falando do êxodo, o salmista afirmou: “Tu dividiste o mar pela tua força; quebrantaste a cabeça dos monstros das águas. Fizeste em pedaços as cabeças do leviatã” (Sl 74:13, 14). O salmista empregou de forma intercambiável os termos hebraicos tannyin e livyathan (drákon na Septuaginta) em referência ao Egito.

Nos versos 13 e 14, ele usou a palavra hebraica ro’sh, “cabeças”. O fato de as cabeças do monstro serem quebradas pelo Senhor faz lembrar a promessa de que o Filho da mulher “esmagaria” a cabeça da “serpente”, do hebraico nachash (Gn 3:15; ophis na Septuaginta).

Isaías e Ezequiel também se referiram ao Egito com a figura do tannyin, ou “dragão” (Is 51:9, 10; Ez 29:3; 32:2). Jeremias chamou Babilônia de tannyin (drákon na Septuaginta), o qual esmagou Judá (Jr 51:34, 36, 37).

Isaías visualizava o fim do cativeiro em termos do “dia do Senhor” (Is 2:12; 10:20; 11:11; 34:8), quando “o Senhor castigará com a sua dura espada, grande e forte, o dragão, serpente veloz, e o dragão, serpente sinuosa, e matará o monstro que está no mar” (Is 27:1). Aqui, livyathan e tannyin (drákon na Septuaginta) são interpretados como a “serpente”, que é nachash (ophis na Septuaginta), termos gregos empregados por João.

Por que o dragão ainda seria destruído pelo Senhor, se no êxodo ele já havia quebrado suas cabeças? A explicação do anjo de que cada cabeça da besta é um “rei” (Ap 17:9) indica que a besta de sete cabeças é uma entidade que tem sete ou oito vidas. Cada vez que Deus quebra um poder temporal que oprime seu povo, isso equivale à queda de um dos sete ou oito reis principais. Isso ocorre, portanto, diversas vezes ao longo do grande conflito. Jon Paulien afirma que “a imagem de uma besta de sete cabeças representa uma besta que vive, morre e torna a viver sete ou oito vezes”.

Assim, a figura descrita por João como um dragão ou uma besta de sete cabeças parece ser uma reprodução de therion, tannin e livyathan bem como de ophis (a serpente) do Antigo Testamento.

SETE IMPÉRIOS

Nessa perspectiva, os profetas proveem a identificação das primeiras entidades referidas pelo anjo: Egito, Assíria e Babilônia. Daniel ampliou essa lista ao acrescentar, após Babilônia, a Pérsia, Grécia e Roma como poderes opressores do povo da aliança (Dn 7:3-7, 11, 17, 19, 23; 8:4). O Apocalipse, por sua vez, retrata com a imagem do dragão (Ap 12) o império romano, e com a figura da besta (Ap 13) o império dos papas. Nesse caso, resta o oitavo rei a ser identificado.

A fera de sete cabeças era uma figura mitológica. “Na mitologia cananeia, ‘leviatã’ era uma serpente de sete cabeças que lutava contra os deuses e as forças do bem”, lemos no Comentário Bíblico Adventista (v. 4, p. 206). Ao empregar a imagem, os profetas não estavam endossando a mitologia dualista e maniqueísta. Na verdade, eles “desmitologizaram os mitos do monstro marinho ao retratar a vitória do Deus de Israel sobre as forças demoníacas do mal que em diversas manifestações tentavam destruir o povo de Deus”, diz Alan F. Johnson no volume Revelation (p. 524), do Expositor’s Bible Commentary.

João viu que a meretriz estava “montada” na besta escarlate (Ap 17:3) e “sentada” nos “sete montes”, que são os sete impérios (Ap 17:9). O verbo grego usado nesses versículos é kathemai, que implica domínio e governo. Esse verbo foi usado por João 14 vezes em referência a Deus e a Cristo, que se assentam no trono celestial (ver Ap 4:2, 3; 5:1; 7:10, 19:4, 21:5). A meretriz estava “sentada como rainha” (Ap 18:7), naturalmente no trono dos reis/impérios. A besta escarlate não ostenta diademas, o que sugere que o poder dos sete reis, no momento enfocado na visão, é exercido pela mulher.

Assim, sete reis/impérios “carregaram” a mulher ao longo da história, dando suporte à religião falsa. A meretriz é acusada do sangue de “santos, apóstolos e profetas” (Ap 18:20). Entretanto, o poder empregado contra esses mártires não é da mulher, mas da besta ou dos reis sobre quem ela domina.

Apesar de o dragão e as bestas terem sete cabeças que representam sete impérios, o anjo afirmou que um oitavo “rei” é previsto, como se implantado tardiamente na besta. “A besta que era e não é, também é ele o oitavo rei, e procede dos sete” (Ap 17:11).

O sentido pode ser de que a besta seja cada uma das sete cabeças/reis, mas é também um oitavo rei. Interpretar que a própria besta seja o oitavo rei (ver Ap 17:11, NVI) deixaria sugerido que ela não é cada um dos sete reis anteriores. Isso implica separar a besta de suas próprias cabeças.

Sendo que o adjetivo ogdoós (oitavo) é masculino, ele pode ser relacionado aos “reis” (grego basileus, plural masculino). Nesse caso, seria mais natural ver o “oitavo” como mais um rei/império histórico do que como a própria besta, cujo gênero é neutro (Ap 17:10, 11). Além disso, a besta não pode “proceder” dos impérios nem ser “um” deles, já que ela é maior do que eles.

O fato de o anjo dizer que cinco reis já haviam caído, um existia e outros dois ainda viriam (v. 10) sugere uma relação consecutiva e de semelhança entre os oito reis.

Se o oitavo rei é semelhante aos sete anteriores e sobre ele também a mulher estará montada, esse deve ser também um poder político-militar. Como o último poder histórico a “carregar” a meretriz, ele precisa ser capaz de formular decretos e perseguir os dissidentes da religião falsa em nível global. Assim, no clímax do conflito, a meretriz deverá encontrar outro rei/império com o qual também manterá a mesma relação de prostituição espiritual (Ap 17:2; 18:3).

O OITAVO REI

Quem seria o oitavo império a dar suporte à religião falsa, no contexto do fim, quando uma nova união de Igreja e Estado criará um regime de intolerância?

As visões paralelas “recapitulam e ampliam o assunto já apresentado”, acrescentando “detalhes ausentes no relato anterior”, como explica William Johnsson no Tratado de Teologia Adventista (p. 886, 887). Se as visões do dragão e das duas bestas (Ap 12, 13 e 17) são paralelas assim como Daniel 2, 7 e 8, então elas devem cobrir em linhas gerais o mesmo período histórico, com as mesmas entidades, sendo visões cumulativas e interdependentes.

Nesse caso, em Apocalipse 12, a visão trata do conflito entre Cristo e Satanás desde a cruz até a crise final, com a perseguição do remanescente. Mas há um foco específico, em que o dragão é símbolo do império romano; ou seja, o destaque seria a atuação da sexta cabeça. Em Apocalipse 13:1-10, o período histórico enfocado é a Idade Média, com a atuação da sétima cabeça, que altera a lei de Deus (ver Ap 13:10; 14:12). Quando essa cabeça é ferida, a besta cessa de atuar (13:3). Em Apocalipse 17, com a mulher montada na besta escarlate, o foco parece ser a relação entre Igreja e Estado, e o contexto histórico específico seria o clímax escatológico, com a atuação do oitavo rei.

Dispondo as visões em paralelo, quanto às entidades representadas pelo dragão e as bestas, temos a seguinte configuração:

Apocalipse 12: O dragão persegue a mulher pura e Cristo (v. 4); nisso, ele representa especificamente Roma imperial. Mas ele também persegue a mulher por 1.260 anos (12:6, 14) e, assim, representa também Roma papal. No tempo do fim, ele persegue o remanescente (12:17); e, nisso, representa ainda a mesma a besta de dois chifres (13:15-17).

Apocalipse 13: A besta recebe o trono do dragão (Ap 13:2), isto é, ela sucede Roma imperial, e persegue os santos por 1.260 anos (13:5); assim, ela representa Roma papal. Mas, no fim do tempo, ela ganha um aliado, a besta de dois chifres que emerge da “terra” (13:11), onde a mulher pura fora socorrida após os 1.260 anos (12:16). Assim, esta segunda besta representa um poder político do Novo Mundo que apoiará a primeira em perseguir os que não têm a marca da besta. Nessa aliança entre as duas bestas, elas passam a representar a mesma entidade já retratada nas ações do dragão contra o remanescente (12:17).

Apocalipse 17: A besta escarlate (v. 9-10) representa cinco impérios já caídos no tempo de João, o que existia (Roma imperial) e o sétimo que ainda viria (Roma papal). Entretanto, ela também representa um oitavo (v. 8), um último poder consecutivo aos sete anteriores, sobre o qual a meretriz estará montada na crise final. Nisso, ela pode representar o mesmo poder retratado pela besta de dois chifres.

COOPERAÇÃO

Uma relação de cooperação é destacada entre os dois últimos reis. No clímax do conflito, a besta de dois chifres faz uma imagem à primeira besta e restaura sua ferida (13:14); nisso, a segunda besta se coloca a serviço da primeira. A besta escarlate “carrega” (17:7) a meretriz na qual esta está “montada” (v. 3). A besta de dois chifres lidera os que “habitam na terra” (13:14) ou os “reis do mundo inteiro” (16:14) contra Deus e seu povo no Armagedom. A besta escarlate lidera os “reis” da Terra em sua investida contra o Cordeiro na peleja final (17:14).

Assim, nesses cenários, é prevista uma coalizão de poderes seculares, a serem liderados, segundo o cenário de Apocalipse 13, pela besta de dois chifres e, segundo Apocalipse 17, pela besta escarlate na fase do oitavo rei.

O oitavo rei, portanto, deverá ser um aliado do sétimo em prover o poder político-militar que este perdeu no fim da Idade Média. João diz que a segunda besta “faz que a terra e os que nela habitam adorem a primeira besta” (Ap 13:12). Assim, uma relação de cooperação entre os dois últimos reis já estava estabelecida em Apocalipse 13. Tal relação é possível pela união da Igreja com o Estado. Essa união é representada em Apocalipse 13 pela cooperação entre a besta de dois chifres e a primeira besta, e em Apocalipse 17 pela mulher (poder religioso) montada na besta (poder político-militar).

Ao descrever a segunda besta, João disse ter visto “outra besta emergir da terra” (Ap 13:11). Apesar de uma parecer leopardo e a outra cordeiro, ele não usa o adjetivo heterós (“outro”, mas diferente). De fato, a segunda besta é a única que repete o fenômeno observado na sétima cabeça: a união de Igreja e Estado, sendo ela mesma definida em termos de uma “imagem da besta”. Assim, a expressão usada por João, allo therion (13:11), indica que a segunda besta é da mesma natureza da primeira.

Sendo que as cabeças da besta escarlate de Apocalipse 17 representam sete reis/impérios mundiais (Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia, Grécia, Roma e Roma papal), o oitavo rei pode ser, portanto, o mesmo poder representado pela besta de dois chifres em Apocalipse 13:11.

O anjo diz que a besta escarlate (poder político-militar), apoiada pelos dez reis, por fim, destruirá a meretriz (poder religioso). No desfecho do conflito, a proclamação final das três mensagens angélicas no alto clamor (Ap 14:6-10; 18:1-3) provocará o desmascaramento da meretriz e contribuirá para sua queda, cujo clímax se dará na sexta praga (ver Ap 16:12; 17:15).

Assim, as nações outrora unidas em favor da Babilônia não só deixarão de apoiá-la, mas se voltarão contra ela para destruí-la (17:16). Dentre as nações seduzidas pela meretriz, a mais forte é aquela representada pela besta de dois chifres, que lidera toda a coalizão política do fim do tempo. Esse poder político-militar parece preencher os requisitos do “oitavo rei”.

A despeito da tribulação resultante da emergência desse poder, a profecia garante que os “eleitos e fiéis” vencerão juntamente com o Cordeiro (Ap 17:14).

Esse quadro bíblico permite, assim, ter uma visão mais clara desses símbolos do Apocalipse.

VANDERLEI DORNELES, pastor e jornalista, é doutor em Ciências pela Escola de Comunicação e Artes (USP), onde defendeu tese sobre os aspectos mitológicos da cultura norte-americana. Autor dos livros O Último Império e Pelo Sangue do Cordeiro, entre outros, atua como redator-chefe associado na CPB

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