Testemunhando para toda tribo

Igreja distribui literatura para participantes dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, evento que reuniu nativos de mais de 20 países na cidade de Palmas (TO)
Tiro de arco e flecha
Primeira edição dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, que reuniu competidores de 25 países em Palmas (TO), oportunizou o contato da igreja com nativos de diversas etnias. Créditos da imagem: Miraldo Fag-tahn Oliveira

Entre os dias 23 de outubro e 1º de novembro, a cidade de Palmas (TO) foi palco de um evento inédito: os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas. A competição reuniu indígenas de 25 países. Entre eles, Estados Unidos, México, Canadá, Etiópia, Finlândia, Filipinas, Mongólia e Nova Zelândia. O objetivo principal do evento, segundos seus organizadores, é valorizar a diversidade cultural e possibilitar a integração e unidade de populações nativas que vivem em diferentes partes do globo.

Marcos Terena - coordenador dos Jmpi
Marcos Terena (ao centro), representante da Secretária dos Jogos Indígenas, recebe, por meio do pastor Miraldo Fag-tahn Oliveira (à esquerda), livros de Ellen White. Créditos da imagem: acervo pessoal

Ao longo do evento, integrantes do Ministério Nativo da Igreja Adventista do Sétimo Dia aproveitaram para estabelecer novos contatos e fortalecer o trabalho evangelístico que vem sendo desenvolvido pela denominação com povos nativos da região Centro-Oeste do país. Foram distribuídos exemplares do livro Viva com Esperança e da revista Quebrando o Silêncio. Além disso, integrantes da equipe que coordenou o evento receberam um presente especial: um kit contendo obras de Ellen G. White.

Nos últimos anos, a liderança da igreja nessa região do país vem fortalecendo sua atuação entre indígenas. Assim, o adventismo tem estabelecido raízes em novas etnias, continuando o legado de pioneiros como o pastor norte-americano Alvin Nathan Allen, que trabalhou com nativos do Alto Araguaia de 1927 a 1935. Embora o pastor Allen não tenha visto grandes resultados de sua obra durante os anos em que permaneceu na região, a semente lançada por ele rendeu muitos frutos em décadas posteriores.

Mesmo assim, o número de nativos adventistas no Brasil ainda é baixo se considerarmos a população existente nas reservas indígenas nacionais (Leia O Brasil indígena para saber mais a respeito da presença adventista entre indígenas). É claro que a igreja já tem envidado muitos esforços para proclamar a mensagem a toda nação, tribo e língua (Ap 14:6). No entanto, em relação à evangelização dos indígenas, precisamos reconhecer que há necessidade de fortalecer o planejamento e ampliar os investimentos, visando a desenvolver ações mais consistentes.

No livro Igreja Centrada (p.28), Timothy Keller argumenta que, “para alcançar as pessoas, precisamos valorizar e abraçar a cultura” delas. Do mesmo modo, a pregação do evangelho para os nativos requer, em primeira instância, que reconheçamos o “índio” com ser humano, que respeitemos sua cultura e que apresentemos o evangelho na sua língua.

Ciente dessa necessidade e da grande responsabilidade que isso representa, a igreja também tem tentado expandir fronteiras, de modo que a mensagem do advento chegue a culturas que historicamente tem ficado à margem do evangelismo. Recentemente, tive o privilégio de realizar o batismo de dez integrantes da etnia kaimbé no povoado de Massacará, localizado no município de Euclides da Cunha (BA). Este foi o primeiro batismo indígena realizado no território da Associação Bahia Central. No sul da Bahia também existem pataxós que abraçaram a fé adventista, além de termos notícias de vários outros nativos do Norte do Brasil que já aceitaram o evangelho.

Primeiro nativo da etnia javaé foi batizado em setembro deste ano. Créditos da imagem: Mirando Fag-tahn Oliveira
Primeiro nativo da etnia javaé foi batizado em setembro deste ano. Créditos da imagem: Mirando Fag-tahn Oliveira

No contexto da União Centro-Oeste Brasileira (UCOB), além do contato com os carajás da ilha do Bananal – onde funcionam três igrejas, que reúnem mais de cem membros batizados, e três clubes de desbravadores -, o evangelho também vem sendo pregado aos nativos apinajés. Uma das aldeias dessa etnia já conta com um clube de desbravadores. Outra boa notícia é que, em setembro deste ano, tivemos a benção de batizar o primeiro nativo javaé. E outras quatro pessoas desse grupo étnico estão se preparando para tomar a mesma decisão até o fim de 2015.

Contudo, frente aos desafios ainda existentes, é preciso criar um plano mais estratégico. Pregações públicas, entrega de materiais e visitas corriqueiras não bastam. É preciso contextualizar e viver os princípios bíblicos entre os povos nativos. As iniciativas que as instituições educacionais adventistas desenvolvem, a exemplo de projetos na área da saúde, realização da escola cristã de férias e reformas de escolas e postos de saúde, sempre serão bem-vindas. Porém, uma vez que essas missões de curta duração ocorrem de ano em ano, o processo fica longo.

O que a igreja está buscando é unir ações pontuais à atuação constante de membros que atuam nas proximidades dessas aldeias. Somado a isso, a organização também vem tentando criar um modelo de discipulado que gere missionários nativos para atuar no seu próprio meio de convívio familiar e tribal. As duas principais frentes que têm cumprido esse propósito são o clube de desbravadores e a educação adventista. Na cidade de Gurupi (TO), por exemplo, quatro jovens carajás receberam bolsa de estudo. A ideia é que, já a partir do Ensino Médio, eles sejam preparados para que, após concluírem a faculdade, retornem para servir seu próprio povo. Porém, para que eles permaneçam em nossas escolas, precisamos de ajuda financeira.

Outro grande desafio para o avanço da pregação entre indígenas é a produção de materiais em línguas nativas. Para se ter uma ideia, de acordo com a Sociedade Bíblica do Brasil, cerca de 100 etnias ainda não têm acesso às Escrituras no próprio idioma. Da mesma forma, temos carência de folhetos e outras literaturas evangelísticas nessas línguas. Enquanto descobrimos caminhos para preencher essas necessidades, precisamos orar pedindo que Deus amplie nossas fronteiras (ICr 4:10).

Por entendermos que o Ministério Nativo precisa ir mais longe, a partir do ano que vem esperamos chegar em lugares sem presença adventista ou que ainda possuem um pequeno número de membros da igreja. Nessa lista constam os guerreiros xavantes, que vivem no Estado do Mato Grosso, e os xerentes, no Tocantins. Levar o evangelho para esses grupos era um grande sonho que o pastor Allen não conseguiu realizar. Portanto, cabe a nós hoje continuar a missão em busca das “ovelhas perdidas da floresta”.

A cultura xavante é muito bem preservada. Transmitindo seus costumes de geração em geração, os nativos dessa etnia conservam muitas de suas tradições, como o rito de iniciação de meninos e meninas e a tradicional corrida de tora. O desafio para a igreja é mostrar que não queremos explorá-los ou destruir sua cultura, mas trazer um conhecimento que vai permitir que o seu povo viva mais e melhor.

No caso dos xerentes, já começamos a estabelecer os primeiros contatos. E a amizade tem sido uma das principais formas de conquistar a confiança deles. Além do trabalho que vem sendo realizado por membros da igreja local em algumas aldeias dessa etnia, também estamos buscando o apoio de instituições educacionais adventistas que estejam dispostas a colaborar através de programas de assistência na área educacional e da saúde.

Inovando em seus métodos, a partir do ano que vem a igreja também deve começar a investir em novos projetos para influenciar principalmente a juventude indígena. O esporte deve ser um desses meios. Pretendemos incentivar atividades como a prática da canoagem, arremesso de lança, atletismo e futebol. Ao mesmo tempo que desejamos valorizar sua cultura, tradições e costumes, queremos transmitir o amor de Cristo e seu plano de salvação que inclui toda a humanidade.

MIRALDO FAG-TAHN OLIVEIRA, pastor em Gurupi (TO), é o primeiro indígena a exercer o ministério com povos nativos no Brasil

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