Novo êxodo

Hoje há mais migrantes e refugiados do que em qualquer época da história. E a igreja não pode ficar indiferente à sorte deles

Novo-exodo-editorial-RA-novembro-de-2015-creditos-Foto-Robert-Atanasovski-AFP-PhotoImagine se, de uma hora para outra, você perdesse casa, carro, móveis, familiares, liberdade, dignidade, tudo. Seria trágico, não é? Mas essa é a triste realidade enfrentada por milhões de pessoas. Forçados por circunstâncias adversas a migrar de seu país, os refugiados perdem a pátria, a cidadania e a esperança.

No fim de 2014, segundo a agência da ONU para os refugiados (UNHCR, na sigla em inglês), havia 19,5 milhões de refugiados ao redor do mundo, sendo 14,4 milhões sob sua tutela. Porém, o total de pessoas desterradas forçosamente chegava a 59,5 milhões. A Síria se tornou a maior fonte de refugiados, ultrapassando o Afeganistão, campeão dessa estatística nas últimas três décadas.

Países em desenvolvimento abrigam hoje 86% dos refugiados. O destaque recente vai para a Turquia em números absolutos (1,9 milhão) e o Líbano em densidade de refugiados (1,2 milhão, totalizando 20% da população nativa). O problema afeta principalmente mulheres, crianças e jovens.

Perseguição, conflito, violência generalizada e violação dos direitos humanos são as principais causas para o êxodo dos refugiados. Contudo, a situação é agravada também pela pobreza. De acordo com um relatório divulgado pelo banco Credit Suisse, a metade mais pobre do globo mal possui 1% da riqueza mundial, enquanto os 10% mais ricos detêm 86% da riqueza e 1% dos que estão no topo controla 46%.

A magnitude da tragédia síria, sem paralelo nas últimas décadas, colocou o tema na pauta da Europa e nas manchetes da mídia. Localizado em uma geografia que experimenta mais conflito do que paz, massacrado pelo terror do Estado Islâmico e pelos bombardeios do ditador Bashar al-Assad, vitimado pelo uso cínico de armas de destruição em massa, o país se transformou rapidamente em terra de desgraças. E mostrou que o assunto é complexo e ambíguo. A questão vai além de ser legal e ilegal, cidadão e estrangeiro, documentado e sem documento. E a crise tem faces reais.

Vulneráveis, com uma história de traumas, os refugiados enfrentam desconfiança, solidão, isolamento, vergonha, medo, perda de liberdade e barreiras culturais. Dois temas que frequentemente emergem em conversas e pesquisas com os refugiados são a separação da família e a perda dos anciãos, já que a maioria deles fica para trás. Isso afeta o senso de referência, identidade e respeito.

No processo de amenizar a dor dos refugiados, muitas igrejas desempenham um papel central, embora isso nem sempre seja divulgado. E a Igreja Adventista, como mostra a matéria de capa, não tem ficado indiferente à sorte desses desafortunados, o que é motivo de louvor. Parafraseando Jesus em Mateus 25:35 (“era estrangeiro, e me hospedastes”), poderíamos dizer: “era refugiado, e me abrigastes”.

A ajuda da igreja aos refugiados está de acordo com a mensagem defendida por Ellen White no livro Beneficência Social, onde registrou: “Nunca houve tempo em que fosse maior a necessidade do exercício da misericórdia do que hoje” (p. 15). Segundo ela, quando os estrangeiros são bem-vindos “a um assento” em nossa sala e “um lugar” em nosso coração, “os anjos chegam muito perto, e acordes correspondentes ecoam no Céu” (Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, p. 25). Isso sem falar nas oportunidades missiológicas.

O discurso sobre os refugiados tem frequentado os territórios da antropologia, demografia, geografia, história, sociologia, filosofia, economia e política, entre outras áreas, mas agora começa também a visitar a teologia. Isso é importante porque o povo de Deus tem um histórico de ligações com o tema. Abraão foi migrante, os hebreus saíram do Egito no êxodo como migrantes e refugiados, Jesus foi “refugiado” no Egito, muitos líderes da igreja foram migrantes, o evangelho em si é migrante e refugiado (Mt 10:16-23).

O Apocalipse fala de um tempo em que poderes político-religiosos patrocinarão uma intensa perseguição, e o povo de Deus sofrerá em grande escala. Como refugiados do futuro em potencial, os adventistas devem tratar bem os refugiados do presente. Assim como milhões buscam uma pátria terrena estável, nós buscamos a pátria celestial de eterna felicidade.

Por isso, se o interesse profético faz parte do DNA adventista, o amor deve constituir seu legado. Nossa eclesiologia tem que ser profética e prática. A igreja deve refletir na Terra a bondade do Céu. Desenraizados no mundo, sem pátria, os refugiados precisam ser abrigados no reino de Deus. [Créditos da imagem: Robert Atanasovski / AFP Photo]

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

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  • EDER CRUZ

    Muito boa análise! Na verdade é em momentos como esses que devemos demonstrar a real “cara” do cristianismo. Já passou do tempo de ficarmos centrados em nós mesmos. Cristo nos convida a olhar para os que estão diante de nós em busca de uma ajuda, pois não sabem que rumo tomar.