Ameaça dentro de casa

No dia internacional de combate à violência contra a mulher, entenda como esse problema ainda afeta especialmente o Brasil e como a religião pode contribuir para uma mudança de cenário

Desde 1999, quando a Assembleia Geral da ONU instituiu oficialmente o 25 de novembro como o “Dia Internacional de Eliminação da Violência contra as Mulheres”, a cada ano novos levantamentos estatísticos revelam a seriedade do problema que se esconde em milhares de residências e se manifesta em todas as classes sociais. Um dos mais recentes foi divulgado neste mês pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). E o retrato da América Latina não é dos melhores.

Como mostra o Mapa da Violência 2015, os três países com os maiores índices de homicídios femininos, entre os 83 que aparecem no ranking, são latino-americanos: El Salvador, Colômbia e Guatemala. Com uma taxa de 4,8 para cada 100 mil habitantes, o Brasil é o quinto da lista. Para se ter uma ideia, em 2013 foram registrados no país 4.762 feminicídios, o que representa 13 mortes por dia. Outro dado que também assusta é o local das agressões: 27 por cento desses crimes são cometidos dentro da própria residência das vítimas. Isso porque, em muitas circunstâncias, os agressores são pessoas da própria família (veja o quadro abaixo).

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Porém, os assassinatos em razão de gênero são apenas a ponta do iceberg. É preciso levar em conta que a violência doméstica se manifesta de diversas maneiras. A Lei Maria da Penha, que já foi considerada pela ONU uma das três legislações mais avançadas do mundo nessa área e completa dez anos de existência em 2016, classifica cinco tipos de violência contra a mulher: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral (veja ao final da reportagem o quadro “Tipos de violência contra a mulher”).

Contudo, de acordo com levantamento da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República divulgado em março deste ano, a maioria das denúncias recebidas em 2014 através do telefone 180 – serviço criado em 2005 com objetivo de orientar e encaminhar as vítimas para atendimento judicial e policial -, foi de agressões físicas. Dos 52.957 relatos, 27.369 (51,98%) vieram de mulheres agredidas com socos, tapas, mordidas, pontapés e queimaduras.

Marcas da violência

A fisioterapeuta Cristina Lopes Afonso, de 49 anos, já fez parte dessas estatísticas. As cicatrizes que ela carrega no corpo são uma marca permanente dos danos que sofreu em meados da década de 1980. Na época, Cristina era uma jovem professora de Educação Física recém-formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e com perspectivas de um futuro promissor. Ela tinha acabado de ser aprovada num programa de mestrado na Alemanha e estava determinada a aproveitar essa oportunidade. Porém, não imaginava o que seu namorado seria capaz de fazer para impedi-la.

As manifestações de violência começaram com chantagens emocionais. “Ele não queria que eu falasse com as pessoas, dirigia em alta velocidade para me intimidar, me proibia de ir em determinados lugares. E o pior: arquitetava a situação de uma forma que eu não via aquilo como violência. Quando não há agressão física, a tendência é de que muitas mulheres não entendam a violência emocional como uma forma de agressão”, declara. Mas, pouco tempo depois, a violência psicológica deu lugar à agressão física. “Quando ele me agrediu, foi para matar”, recorda.

No dia 6 de fevereiro de 1986, no apartamento em que morava, Cristina foi vítima de um crime que comoveu o Brasil e repercutiu na imprensa nacional e internacional, sendo notícia no Fantástico e até no programa norte-americano de televisão 60 Minutes. O namorado jogou álcool sobre ela e ateou fogo na jovem, que teve 85 por cento do corpo queimado.

Vítima de um crime bárbaro na década de 1980, Cristina Lopes Afonso conseguiu dar a volta por cima e hoje auxilia outras mulheres que sofrem agressões. Foto: arquivo pessoal
Vítima de um crime bárbaro na década de 1980, Cristina Lopes Afonso conseguiu dar a volta por cima e hoje auxilia outras mulheres que sofrem agressões. Foto: arquivo pessoal

Pela falta de recursos médicos em Curitiba, Cristina foi levada pela família dela para a capital goiana, que era uma das referências no tratamento de queimaduras no país. “Mesmo assim, ao ver a minha situação, os médicos em Goiânia disseram que eu não tinha chance”, relembra. Contrariando os prognósticos, ela sobreviveu. Mas teve que enfrentar 24 cirurgias plásticas.

A história de Cristina Lopes Afonso se tornou um marco na luta pelos direitos da mulher no Brasil. “Foi o primeiro caso de tentativa de homicídio com vítima viva, em que o réu foi julgado pelo Tribunal do Júri e recebeu uma condenação exemplar”, afirma ao lembrar que, em 1989, num julgamento histórico, o agressor, que era médico, pegou 13 anos e 10 meses de prisão.

Logo depois do julgamento do ex-namorado, a professora foi morar em Goiânia, onde decidiu cursar Fisioterapia e criou o Núcleo de Proteção aos Queimados, uma organização especializada na recuperação de pessoas com queimaduras graves, inclusive de mulheres que passaram por agressões semelhantes a que ela sofreu.

Quase três décadas depois desse episódio dramático, a professora da Universidade Estadual de Goiás (UEG) se dedica a auxiliar vítimas da violência doméstica por meio das palestras que realiza por todo o território nacional. Ela também ajuda a promover materiais e campanhas educativas que alertam sobre o problema, além de contribuir, como vereadora em Goiânia, para a criação de políticas públicas de proteção à mulher.

Conscientização pelas letras

capa-do-livro---Depois-do-sim
Livro-reportagem pretende alertar a população sobre o problema da violência contra a mulher e ajudar as vítimas a buscar seus direitos.

Foi também com o objetivo de conscientizar sobre o tema, informar sobre as leis de proteção à mulher e humanizar as estatísticas que a estudante Jhenifer Costa, que cursa o último ano de Jornalismo no Unasp, campus Engenheiro Coelho, decidiu escrever o livro-reportagem Depois do sim. O trabalho de conclusão do curso, que será apresentado no dia 1º de dezembro, dá um panorama da violência contra a mulher no Brasil e no mundo, e mostra como o ciclo da violência doméstica é alimentado.

O trabalho acadêmico chama a atenção não só pela quantidade de dados, mas principalmente pelas histórias que relata. Dona Creuza Maria de Queiroz é uma das personagens. Durante 25 anos ela foi agredida pelo ex-marido.

Além de contar em detalhes as experiências dramáticas vividas por três vítimas da violência doméstica, Jhenifer também analisa alguns fatores que podem ajudar a coibir esse problema. Para ela, a família, a educação e a religião desempenham um papel fundamental tanto na prevenção quanto na recuperação das vítimas de agressões.

Ao falar sobre o terceiro aspecto, com base na opinião de vários especialistas, o livro considera que “a religião e a comunidade religiosa são vistas como fonte de recomeço, restauração e reabilitação” para muitas vítimas da violência doméstica. “Ao final de um relacionamento conturbado, algumas procuram a igreja para se reestruturar emocionalmente. É na religião que elas encontram apoio e forças para recomeçar. Por esse motivo, a crença em algo sobrenatural também ajuda a vítima a reerguer-se”, diz a obra (p.28).

CONFIRA A ENTREVISTA COM A AUTORA DO LIVRO-REPORTAGEM

Porém, como observa Jhenifer, nem sempre as vítimas conseguem compartilhar com outros o que estão vivendo, seja por medo de represália por parte do agressor ou do sentimento de vergonha que essa exposição pode gerar entre os membros da comunidade. A psicóloga Tereza Verrone, uma das fontes citadas no trabalho, acrescenta que “algumas religiões não estão preparadas para lidar com esse tipo de crime. Muitas vezes, os pastores aconselham a mulher a continuar tentando, a perdoar e a submeter-se ao marido, em vez de deixá-lo. Então, elas sofrem durante anos por causa da imagem falsa que exibem para a igreja” (p. 27).

nova edição da revista Quebrando o Silêncio discute a relação entre a violência doméstica e o consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas.
Nova edição da revista Quebrando o Silêncio discute a relação entre a violência doméstica e o consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas.

Apesar disso, a autora reconhece que algumas comunidades religiosas oferecem um importante apoio às vítimas de violência física, sexual e verbal, além de desenvolver programas e projetos que incentivam a denúncia e a participação da sociedade na luta pelo fim da violência contra a mulher. Um exemplo disso, segundo ela, é o trabalho feito pelos adventistas, por meio da campanha Quebrando o Silêncio, criada em 2002. Foi através dessa iniciativa, inclusive, que dona Creusa recebeu a assistência de que precisava.

Contudo, essas iniciativas ainda são pontuais, conforme mostra o livro. Além da necessidade de mais ações desse tipo, é importante que as igrejas estejam melhor preparadas para receber quem procura ajuda. “Elas exercem um papel fundamental. Por outro lado, muitas vezes não sabem como lidar com a situação”, pondera Jhenifer.

Para a advogada Damaris Moura, também citada no livro Depois do sim, as comunidades religiosas precisam “ajudar a vítima a se libertar de seus pesares” e “não estimular a vergonha e a culpa que ela já está sentindo” (p. 28).

MÁRCIO TONETTI é jornalista e editor associado da Revista Adventista (Com infografia de Eduardo Olszewski)

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