Muitas rotas, um caminho

Como transcender o abismo entre você e Deus

lightstock_101109_small_user_578947A ideia de buscar um nível mais elevado de espiritualidade é elogiável. Contudo, as rotas que pontuam o mapa religioso da atualidade podem confundir até os peregrinos mais sinceros. Embora o debate sobre o assunto seja menor no Brasil do que nos Estados Unidos e na Europa, pautamos o tema para esclarecer alguns aspectos. Temos que provar todas as coisas (1Ts 5:21), sabendo que, às vezes, o problema não está na totalidade do conceito, mas na mistura da verdade com o erro. Veja algumas trilhas problemáticas:
? Rota do espiritualismo. Fundado na suposição de que o ser humano tem uma alma imortal e evolui mesmo depois da morte, o espiritualismo surgiu ainda no Éden e prometeu um conhecimento mais profundo (Gn 3:5). Ellen White predisse que, no fim dos tempos, o protestantismo dará “uma das mãos ao poder romano e a outra ao espiritismo” (Eventos Finais, p. 131). Além disso, viu o comboio do espiritualismo, cujo condutor era o próprio Satanás na forma de um anjo de luz, “avançando com a velocidade do relâmpago” e no qual “o mundo inteiro” embarcava (Primeiros Escritos, p. 88). Essas previsões deveriam deixar cada pessoa em estado de alerta.
? Rota do isolamento. A partir do 3º século, milhares de monges fugiram para o deserto na busca de uma vida mais santa, dando origem ao monasticismo cristão. Atanásio escreveu que “o deserto se transformou em uma cidade”. Embora o movimento fosse bem-intencionado, o cristianismo não é uma religião de eremitas e ascetas. Em algumas circunstâncias, o deserto pode ser útil. Porém, não é preciso viver isolado para se levar vida santa.
? Rota do racionalismo. Apostando na razão para se chegar à verdade, trabalhando com intuição e dedução, o racionalismo se contrasta e rivaliza com o empirismo, que valoriza a experiência e a percepção sensória. Antigo, ele ganhou popularidade no século 17 e invadiu os domínios da religião. Até hoje tem adeptos. Entretanto, a razão por si só não dá conta de conectar o ser ao Criador. O conhecimento de fatos não muda o coração, embora a cosmovisão ajude a endireitar o raciocínio.
? Rota do sentimento. Talvez você nunca tenha ouvido falar de Friedrich Schleiermacher (1768-1834), mas ele teve grande influência no cristianismo ocidental. Chamado de “pai da teologia moderna”, o alemão definiu a religião como o “sentimento imediato do Infinito e do Eterno”. Contudo, essa abordagem tem problemas. O sentimento é parte da religião, mas não pode ser o centro dela. O cristianismo é um equilíbrio entre mente e corpo, razão e sentimento, ser e fazer.

“Às vezes, o problema não está na totalidade do conceito, mas na mistura da verdade com o erro”

? Rota do misticismo. Referindo-se inicialmente a rituais secretos e interpretações ocultas, o termo “misticismo” passou a denotar uma experiência direta/unitiva com o divino, algo não acessível pela percepção dos sentidos. Alguns preferem falar hoje em consciência mística. O misticismo está fora do âmbito bíblico. No entanto, o termo “experiência”, temido e descartado por alguns, tem feito parte do vocabulário de cristãos acima de qualquer suspeita. Tudo depende do uso das palavras.
? Rota do panteísmo. O livro The Living Temple (O Templo Vivo), escrito em 1903 pelo médico John Harvey Kellogg, ensinava o panteísmo e despersonalizava Deus. Com clareza, Ellen White advertiu a igreja a se afastar da influência exercida pelo livro, que apresentava “o alfa de heresias letais” (Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 200). Usando a metáfora de “um navio envolto em cerração” a caminho de um iceberg (p. 205, 206), a mensageira transmitiu a ordem divina: “Enfrentai-o!”

Há muitas outras rotas estéreis e perigosas, mas fiquemos com essas. O importante é saber que Jesus é o único caminho (Jo 14:6; At 4:12). E que, mediante o poder ilimitado do Espírito Santo atuando em nós e a revelação da Palavra iluminando nossos passos, podemos levar uma vida vitoriosa livre do sincretismo e acima da crítica, da suspeita e do temor. [Créditos da imagem: Lightstock]

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

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