Há um século formando pastores

Faculdade Adventista de Teologia do Unasp comemora cem anos de existência buscando ajustar currículo às necessidades da igreja no século 21
Pastor Erton Köhler: "Se a igreja é o que é no Brasil isso se deve em grande parte ao trabalho de pastores dedicados e usados por Deus que conduziram adequadamente a igreja fizeram".
Pastor Erton Köhler: “Se a igreja é o que é no Brasil isso se deve em grande parte ao trabalho de pastores dedicados e usados por Deus que conduziram adequadamente a igreja”.

A obra educacional exerceu um papel fundamental para o avanço do adventismo no mundo. Desde o início do movimento adventista, na segunda metade do século 19, o propósito da igreja ao implantar escolas foi formar missionários para levar a mensagem a toda nação, tribo, língua e povo. A abertura de seminários em vários lugares representou um importante passo nesse objetivo.

No início do século 20, o Brasil era um dos países com grande necessidade de uma escola que suprisse a carência de obreiros, especialmente pelo fato de que havia dependência quase que exclusivamente de missionários estrangeiros. Como menciona o Dr. Renato Stencel em sua tese doutoral intitulada História da Educação Superior Adventista: Brasil, 1969-1999, com o crescente avanço do adventismo na região, surgiu o interesse por parte dos líderes e dos membros da denominação em estabelecer “uma instituição preparatória que atuasse dentro do contexto social brasileiro e da língua materna, a qual era pouco falada entre os pioneiros da IASD, considerando que a maior parte de seus fundadores era de alemães” (p. 153-154).

Foto do Colégio Adventista em 1915
Créditos da imagem: Acervo da Memória Adventista

O pastor John Lipke se destacou entre os que trabalharam em favor da formação de missionários brasileiros. Foram recorrentes os artigos que ele escreveu para a Review and Herald sobre a necessidade de missionários no Brasil. Para ele, era mais vantajoso, inclusive em termos de custo, ter missionários do próprio país.

A formação ministerial adventista no território nacional começou no fim do século 19 com a implantação de uma escola preparatória de missionários na região de Gaspar Alto, em Brusque (SC), passou pela Escola Missionária de Taquari (RS) entre 1903 e 1909, e culminou com a abertura do Seminário Adventista, em 1915, no Capão Redondo, Santo Amaro (SP). O historiador Elder Hosokawa acrescenta ainda a contribuição dos cursos de colportagem ministrados pelo pastor Lipke em Santo André (SP) entre 1909 e 1914. Desse modo, passo a passo, ainda que de maneira lenta, a demanda por obreiros começou a ser suprida no território nacional.

Centenário-da-FAT-pastor-Ted-Wilson
Traduzido pelo pastor Milton Torres, presidente mundial da Igreja Adventista (à esq.) ressaltou o papel que os pastores formados no Brasil vêm tendo no contexto das missões mundiais. Foto: Márcio Tonetti

A história de cem anos da Faculdade Adventista de Teologia do Unasp (FAT) foi lembrada em uma programação realizada no Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP), no último sábado, dia 5 de dezembro. Além de contar com a presença de líderes da igreja para a América do Sul, o evento recebeu o pastor Ted Wilson, presidente mundial da organização.

Wilson lembrou que o seminário tem preparado pastores não somente para o Brasil, mas para o mundo todo. “As instituições brasileiras são dinâmicas e produtivas. E agora vocês estão enviando missionários para toda parte do globo”, ressaltou.

Resgate histórico

Entretanto, a faculdade que já formou ao longo de sua trajetória mais de 3,3 mil pastores, ajudando a moldar a história e o pensamento da igreja no país com o maior número de adventistas, não teve um começo fácil. A falta de professores foi um dos primeiros desafios enfrentados após a abertura do então Seminário Adventista nas imediações da capital paulista. No início havia apenas três docentes: John Lipke, John Boehm e Paulo Hening. O número de alunos também era pequeno. Consequentemente, o número de formandos ainda era insuficiente para atender um país de dimensões continentais. Nos dez primeiros anos de existência do Seminário, 11 alunos concluíram oficialmente o curso. 

Adaptações curriculares

Nos primórdios do que hoje é a Faculdade Adventista de Teologia a estrutura do curso, chamado inicialmente de “Curso Ministerial”, era muito diferente da que se tem hoje: os estudantes passavam apenas três horas em sala de aula e o restante do dia era dedicado para o trabalho na agricultura. A grade curricular tinha características similares às da educação básica. Para se ter uma ideia, em 1918 a relação de disciplinas incluía matemática, geografia, história universal, ciências naturais e até mesmo caligrafia. Por essa razão, alguns consideram que o curso ministrado pelo Seminário até 1918 não pode ser considerado Teológico, “se tomarmos em conta a generalidade do ensino, sem muita profundidade no ensino da Bíblia em si” (A educação adventista no Brasil, 2004, p. 131).

Primeira turma de formandos do curso de Teologia em 1922. Créditos da imagem: Centro White do Unasp
Primeira turma de formandos do curso de Teologia em 1922. Créditos da imagem: Centro White do Unasp

Foi a partir da década de 1930 que a estrutura curricular passou por mudanças mais profundas. “Entre 1930 e 1940 houve grandes mudanças na educação nacional. O aumento da população, o crescimento dos centros urbanos, o desenvolvimento da indústria e dos serviços, tudo isso acarretou um aumento generalizado pela demanda da educação. Os estudos em Teologia também tiveram grandes mudanças em sua matriz curricular”, explicou o pastor Emilson dos Reis, coordenador do seminário, durante um breve resgate histórico.

Uma das principais mudanças foi a inclusão de várias matérias com uma ênfase mais teológica, a exemplo de Grego e de um conjunto de disciplinas focalizando doutrinas bíblicas. Também foram feitos ajustes nas chamadas disciplinas complementares, de modo a atender as necessidades da igreja. Por outro lado, matérias como aritmética foram suprimidas, tornando o currículo mais enxuto.

Consolidação e crescimento

A década de 1950 trouxe mais avanços para o programa de formação de pastores e obreiros. Foi nesse período, conforme explica o historiador Elder Hosokawa, que o curso passou a ter, de fato, características de graduação em Teologia, passando, em decorrência disso, a se chamar FAT.

Novos-cursos-no-CAB-RA-dezembro-de-1955-p.-24
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Entre as iniciativas que também marcaram essa época podem ser citadas a implantação do “Curso Teológico de Extensão”. Conforme noticiou a Revista Adventista na edição de dezembro de 1955 (p. 24), o curso promovido durante as férias de verão permitia que obreiros que não haviam cursado Teologia, ou alunos que não haviam conseguido completar o curso, se formassem em poucos anos, dedicando 45 dias de estudo presencial por ano.

De acordo com Hosokawa, outro importante fato registrado durante a década de 1950 foi a ampliação do tempo de duração do curso, que passou a ser de quatro anos, em vez de três.

Por sua vez, as décadas de 1970 e 1980 foram marcadas pelo investimento do curso de Teologia na qualificação do corpo docente. “Sob a liderança do então diretor do Seminário Latino-Americano de Teologia (SALT), Mário Veloso, teve início o investimento na formação acadêmica de uma nova geração de professores. Sendo assim, os docentes começaram a ir aos Estados Unidos para fazer suas especializações na Universidade Andrews. Essa iniciativa foi fundamental para que, mais tarde, o curso teológico passasse a ter um corpo docente mais qualificado”, destacou o pastor Emilson dos Reis.

Mudança de endereço

Apesar dos avanços, surgiram também dilemas. Nos anos 1990, por exemplo, o local que antes se constituía um ambiente ideal para o estabelecimento de um seminário já não tinha mais as mesmas características. Com o passar dos anos, o bairro do Capão Redondo se urbanizou, deixando de ser o lugar pacato do início dos anos 1910.

Esses fatores alimentaram a ideia de criar um novo colégio no interior, cujo ambiente se aproximasse mais das recomendações expressas por Ellen G. White, pioneira da Igreja Adventista. O fato de o governo ter desapropriado parte das terras do então Instituto Adventista de Ensino (IAE), em São Paulo, e, mais tarde, o milagre da indenização dessas terras, foram considerados um sinal divino impulsionando a mudança, como lembrou Reis.

O pastor aposentado Edgard Ernesto Bergold, que se graduou na Faculdade Adventista de Teologia em 1956, acompanhou de perto esse processo de mudança. “Havia sido decidido inicialmente que seria comprada uma fazenda em Tatuí. Então, o colégio iria para perto da Casa Publicadora Brasileira. Porém, prestes a ser fechado o negócio, surgiu uma oportunidade ainda melhor. E decidiram que ali [na época, Engenheiro Coelho pertencia ao município de Artur Nogueira] seria o lugar mais apropriado para o novo projeto. Curiosamente, descobriu-se depois que o fazendeiro de Tatuí estava tentando vender sua propriedade para comprar justamente a propriedade em que hoje funciona o Unasp, campus Engenheiro Coelho”, relata o pastor que mora nas proximidades do campus.

VEJA MAIS DETALHES NA ENTREVISTA COM O PASTOR EDGARD BERGOLD

No entanto, a transferência do curso de Teologia para o interior do Estado foi gradual e os alunos foram preparados para essa transição. “O processo de mudança foi sempre bem avisado aos alunos. Duas ou três vezes o pastor Walter Boger veio até nossa sala e falou sobre a necessidade de se estudar num lugar condizente com o estilo de vida cristão, mais afastado da cidade. Fomos até conhecer o colégio antes da transição. Os alunos em geral compreenderam e aceitaram a mudança”, relembra o pastor Adolfo Suárez, atual coordenador da graduação em Teologia do Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP).

Mesmo assim, a transferência das turmas para o novo campus não ocorreu de uma única vez. Inicialmente, apenas os dois primeiros anos vieram para Engenheiro Coelho. Conforme lembra André Pasini, diretor financeiro e estudantil na época, a diretoria do novo campus estava ciente das implicações da transição, principalmente na área financeira. “Pela sua localização, o campus São Paulo permitia que os alunos pudessem ter meios de conseguir fundos para pagar seus estudos, mas na nova instituição não havia grandes cidades no entorno, gerando preocupações para muitos deles”, explica. Um dos caminhos encontrados foi aumentar o número de bolsas estudantis.

A falta de um prédio com salas de aula também foi outro fator que dificultou a mudança imediata. De acordo com registros do Centro da Memória Adventista, como solução paliativa, o atual Centro de Comunicação, que começou a ser construído em 1989, foi improvisado para comportar a biblioteca, duas salas de aula e outros espaços em que os professores podiam atender os alunos. Tudo isso ocorreu ao mesmo tempo em que era realizada a construção do edifício, que só foi inaugurado em 1992.

Outra grande preocupação no decorrer do processo de transferência tinha que ver com as dificuldades de estágio. Na capital paulista, a quantidade de igrejas facilitava o programa de estágio dos alunos do quarto ano. “Vale lembrar que a região de Campinas não tinha a grande quantidade de congregações adventistas que possui atualmente, e as que existiam não estavam acostumadas com teologandos atuando como auxiliares. Na tentativa de resolver parte do problema, o seminário adquiriu duas Kombis para facilitar o deslocamento dos estudantes. Até hoje o seminário possui veículos que são utilizados para essa finalidade”, observou o pastor Emilson dos Reis.

Reconhecimento do MEC

Em julho de 2003, a FAT obteve uma conquista fundamental ao ser reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC). Esse processo fez com que, finalmente, os futuros formandos pudessem ter um curso reconhecido, e, ao mesmo tempo, com a identidade adventista. 

Desafios contemporâneos

A Faculdade Adventista de Teologia entra agora em uma nova fase buscando se readequar aos novos tempos. “Estamos olhando para o passado, relembrando o que foi feito nesses cem anos, mas somos cientes de que temos um futuro cheio de desafios. O mundo mudou bastante e temos que nos adequar ao novo perfil dos membros”, reforça o pastor Emilson dos Reis.

OUÇA A ENTREVISTA COM O PASTOR EMILSON DOS REIS

Desse modo, um dos objetivos do seminário é aprimorar sua grade curricular com base nas necessidades emergentes da igreja. Como a ênfase na formação pastoral será uma das quatro áreas visadas pela organização adventista na América do Sul no próximo quinquênio, o currículo de outros seminários também deve passar por adaptações nesse sentido (saiba mais sobre o assunto aqui). “Essa ênfase vem em um bom momento. Como o curso está a serviço da igreja, nada mais natural trabalharmos em função dela”, afirma Adolfo Suárez, coordenador da graduação em Teologia do Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP) e presidente do Núcleo Docente Estruturante (NDE).

Alinhado com o plano da igreja, o curso de Teologia do Unasp pretende criar meios para que os pastores graduados pela instituição saiam preparados para fazer a ponte com as novas gerações. “Diante disso, estamos pensando em conversar com os professores sobre a linguagem e as ênfases que precisamos ter em sala de aula, tendo em mente que os alunos que passam pelo curso de Teologia vão trabalhar com essas novas gerações. Isso vai demandar um reaprendizado da nossa parte para estar em sintonia com a expectativa”, realça o pastor Suárez.

Um primeiro passo concreto que já vem sendo dado nessa direção é o projeto de produção de um livro com reflexões sobre o assunto (saiba mais sobre a iniciativa na entrevista abaixo). A obra, que deve ser produzida pelo corpo docente da FAT, pretende fornecer fundamentos para projetos que virão a seguir.

Segundo informa Adolfo Suárez, para 2016 também há a expectativa de ter pelo menos 16 grupos de pesquisa envolvendo as três ênfases da faculdade: bíblica, histórico-sistemática e aplicada. “Há pelos menos cinco grupos encabeçados por docentes em cada uma dessas linhas e queremos envolver todos os estudantes da graduação. Esse plano está sendo estruturado com base nas ênfases que a organização adventista na América do Sul pretende dar nos próximos cinco anos. Vamos nos concentrar nesses objetivos para que nossos grupos de pesquisa sejam reflexivos, mas tenham um objetivo em mente: criar instrumentos e estratégias para que a igreja possa avançar”, ressalta.

OUÇA A ENTREVISTA COM O PASTOR ADOLFO SUÁREZ

Ao mesmo tempo em que está buscando ser mais relevante e estar em sintonia com as novas demandas da igreja no século 21, a FAT quer manter sua identidade confessional e bíblica. Essa necessidade foi reforçada pelo presidente mundial da Igreja Adventista no sermão proferido durante o programa comemorativo. “Cem anos de formação do caráter de jovens e pastores! Isso foi possível somente porque nossa base continua sendo a segura Palavra de Deus”, frisou o líder mundial.

OUÇA TAMBÉM ESTA ENTREVISTA PARA SABER QUAIS AS NOVIDADES NA ÁREA DE PÓS-GRADUAÇÃO E SOBRE A POSSIBILIDADE DE RECONHECIMENTO DO MESTRADO OFERECIDO PELA FAT

MÁRCIO TONETTI é editor associado da Revista Adventista

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