O espírito do Natal

Crédito: kevron2001 / Fotolia
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O filósofo, professor e colunista do jornal Folha de S.Paulo, Luís Felipe Pondé, tem ganhado visibilidade no meio evangélico brasileiro, especialmente entre aqueles que discutem uma participação mais efetiva e equilibrada dos cristãos na arena pública nacional. Estudioso das raízes judaico-cristãs da cultura ocidental, Pondé lançou o livro Os Dez Mandamentos (+ um) em junho. Na obra, cujo título sugestivo pode soar blasfemo para alguns, ele lança um olhar filosófico sobre a relevância do decálogo hoje.

Embora Pondé declare ser um homem sem fé, inclusive no subtítulo do livro, sua obra é um grito que vem do lado de do muro, revelando a urgência por uma espiritualidade que tenha o que dizer para o mundo de hoje. Isso porque ele escreve a partir da perspectiva de um filósofo descrente, que tem procurado lançar luz no espaço público e participar do debate de temas importantes.

Do lado de do muro, nós, os crentes, infelizmente temos assumido uma espiritualidade cada vez mais individualista e medrosa, que foge da arena pública e se refugia no conforto dos iguais; enquanto deveríamos estar proclamando do lado de do muro, por palavras e obras, as boas-novas de salvação.

O grito de Pondé, o homem sem fé, é mais ou menos assim: “A vida espiritual é uma questão tão urgente que não deveria ser deixada apenas para os crentes. Sua urgência é tanto maior à medida que ela caminha lentamente para o desaparecimento e se torna como commodity no mercado de bens religiosos.” Sua angústia se dá porque, ao viver do lado declaradamente descrente, hedonista, ateu e desiludido da vida, o que ele vê na sociedade em geral é a espiritualidade dos extremos.

De um lado do espectro, as pessoas estão abandonando a espiritualidade, porque a consideram o ópio do povo, como os intelectuais, ou porque buscam o prazer imediato, como a maioria. No outro extremo do espectro estão os religiosos que mercantilizam a fé com base na teologia da prosperidade. A primeira opção é indesejável, enquanto a segunda é inaceitável. Ambas são inviáveis porque não entregam a felicidade que prometem. E são um desfavor para a humanidade, que anseia por uma terceira alternativa mais viável.

Talvez, o silêncio do lado de do muro se explique pelo fato de que boa parte dos crentes está iludida com o poder, o dinheiro, o status e a preservação da autoimagem. Uma versão pagã do cristianismo, resultado da independência de Deus, da arrogância e ignorância humanas.

Enquanto isso, do lado de , parece que Deus precisa levantar filhos de Abraão a partir das pedras para reinterpretar, ainda que de maneira inadequada aqui e ali, os mandamentos de Deus de maneira inteligível para uma sociedade que precisa conhecer o Salvador e os salvos. Nesse caso, o grito de Pondé se assemelha, de certa forma, aos dos sábios do Oriente que foram adorar Jesus. A ironia é que enquanto os israelitas dormiam, comiam, bebiam e davam-se em casamento, o Salvador nasceu discretamente em Belém.

Pondé parece reconhecer a letargia de muitos crentes, ao dar um “tapa de luvas” em todos nós, fazendo o que deveríamos fazer: entrar na arena pública para conversar de maneira equilibrada e corajosa com os descrentes, oferecendo soluções bíblicas para uma sociedade carente. Dessa forma, ser luz no mundo é articular a fé de maneira inteligível, não para quem vive do lado de como crente, mas para o que vive do lado de como descrente.

Enquanto a sociedade em geral se perde em vãs filosofias e parte dos cristãos se contamina com o tridente do comércio da fé, poder e dinheiro, somos convidados pelo homem sem fé a testemunhar de Cristo, inundando o mundo com esperança e amor procedentes do Eterno.

Como na incrível, e até engraçada, história da jumenta de Balaão, Deus parece ainda usar elementos inesperados como um homem sem fé para lançar um pouco de luz em uma sociedade anuviada pela confusão, incerteza e desesperança. Será que é preciso um indivíduo sem fé para traduzir espiritualidade em termos inteligíveis? Quanto a nós, os crentes do lado de , seguros em nossa doutrina bem costurada, parecemos não perceber, assim como Balaão, a loucura de conversarmos com jumentos. No fim das contas, é preciso se perguntar: afinal, quem é o jumento da história?

O grito de Pondé parece ser um apelo divino, que usa o que lhe é oportuno para oferecer salvação além do muro, ao mesmo tempo em que chama os crentes, teólogos ou não, dizendo: “Abram os olhos e vejam os campos! Eles estão maduros para a colheita” (Jo 4:35, NVI). Os campos estão maduros porque até as pessoas sem fé clamam pela espiritualidade bíblica.

Esse é o grito urgente pelo verdadeiro espírito do Natal: o modelo do evangelho encarnado oferecido pelo Deus que se fez ser humano na manjedoura em Belém. No nascimento, vida, morte e ressurreição do Emanuel vemos o paradigma da verdadeira espiritualidade bíblica: daquela que é centrada em Deus, está a serviço do próximo e resulta em satisfação e felicidade duradouras.

Neste Natal, presentes, viagens e confraternização têm seu lugar, mas a grande demanda é por amor que comunique a verdadeira espiritualidade por meio de pessoas que experimentam a transformação diária pela presença de Deus.

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