Ciência e fé se encontram

Cientistas, professores e teólogos se reúnem em São Paulo para apresentar pesquisas e evidências que confirmam o relato bíblico das origens

Encontro de criacionistas no Unasp, campus São Paulo, reuniu pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos. Foto: Murilo Pereira
Encontro de criacionistas no Unasp, campus São Paulo, reuniu pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos. Foto: Murilo Pereira

O Núcleo de Estudo das Origens organizou entre os dias 21 e 24 de janeiro o 8º Encontro Nacional de Criacionistas. O evento ocorre a cada três anos no Unasp, campus São Paulo, e atrai cientistas, professores, pastores, e outros interessados de todo o país. Com o tema “A Complexidade do Mundo Vivo e as Digitais do Criador”, o encontro atraiu mais de 350 participantes.

Logo no início da programação, o Dr. James Gibson, diretor do Geoscience Research Institute (Instituto de Pesquisa em Geociência), destacou as diversas evidências de design inteligente que podem ser encontradas no Universo. Para ele, uma abordagem mais ampla do Universo, abrangendo tanto o macrocosmo (as galáxias e sistemas solares) quanto o microcosmo (partículas quânticas e o DNA), é a melhor estratégia para discutir as evidências de um Criador inteligente.

Dr. James Gibson, diretor do Instituto de Pesquisa em Geociência (GRI, na sigla em inglês). Foto: Murilo Pereira
Dr. James Gibson, diretor do Instituto de Pesquisa em Geociência (GRI, na sigla em inglês). Foto: Murilo Pereira

O próprio surgimento do Universo, a atuação de forças universais (como a entropia), a regulagem precisa de todos os parâmetros e propriedades matemáticas que governam a matéria, as características especiais que permitem a existência da vida no planeta e a complexidade da linguagem e dos processos genéticos, são elementos que constroem um argumento convincente para a existência de um Criador.

Para ele, as dificuldades enfrentadas pelos evolucionistas para explicar a origem da vida, a reprodução sexual, o surgimento de novos órgãos, ou as características que são tão peculiarmente humanas, como a autoconsciência, a moralidade, a religiosidade e a capacidade de planejar atividades futuras, apenas reforçam a improbabilidade de um processo natural ter produzido a vida e toda a sua variedade.

Entre os palestrantes nacionais, Tarcísio Vieira, biólogo e doutorando em Química, discutiu a inviabilidade de algumas propostas para a origem espontânea da vida mais comuns e presentes nos livros adotados em escolas e universidades no Brasil. Ele argumentou que, embora seja possível produzir aminoácidos espontaneamente, como foi demonstrado, por exemplo, nos experimentos de Stanley Miller, em 1952, a organização dessas moléculas em moléculas maiores, de importância biológica (biopolímeros), como proteínas e enzimas, é inviável do ponto de vista químico.

Como proposto por muitos simpatizantes da ideia de uma origem espontânea da vida, sob as condições certas, dado tempo suficiente, a vida poderia ter surgido a partir de compostos orgânicos, como aminoácidos e proteínas, formados em um ambiente primordial. No entanto, Tarcísio mostra que a mera possibilidade da formação espontânea de aminoácidos não deveria ser associada à ideia de um suposto surgimento espontâneo da vida.

Segundo ele, é fato que fenômenos naturais, como relâmpagos e raios, podem, sob certas condições, produzir aminoácidos. No entanto, ele explicou que as características químicas dessas moléculas e as reações necessárias para a formação de proteínas, tornam quimicamente inviáveis quaisquer reações de agrupamento espontâneo de aminoácidos visando a formação de biopolímeros de interesse biológico. “Contudo, todas essas restrições e obstáculos são superados no ambiente celular dos seres vivos de forma muito inteligente, revelando a existência de projeto e intencionalidade”, afirmou o pesquisador.

Outra restrição discutida por Vieira teve que ver com os longos períodos de tempo sugeridos para a hipotética geração espontânea da vida. De acordo com ele, o processo de formação de moléculas orgânicas encontradas no RNA é muito instável nas condições propostas para a suposta Terra pré-biótica. “Conforme o próprio Miller confessou mais tarde, adenina, citosina, guanina e uracila ‘não poderiam ter sido utilizadas no início da vida na Terra'”, ponderou. Portanto, afirmar que a vida é fruto do acaso, da mera ação das leis naturais, concluiu Tarcísio, “não está em acordo com o conhecimento químico, sendo, na verdade, crença e superstição”.

Digitais do Criador

Esse elemento filosófico e religioso também foi destacado pelo Dr. Marcos N. Eberlin, professor titular do Instituto de Química da Unicamp, e o Dr. James Gibson, diretor do GRI. Para ambos, a ciência possui mais do que suficientes evidências que apontam para a existência do Ser inteligente que criou a vida no planeta. Mecanismos complexos como as nanomáquinas encontradas em amebas, a quantidade e complexidade das informações encontradas no DNA, ou a própria estrutura do Universo, servem de base para qualquer cientista que estiver aberto para a hipótese de um Criador.

No mundo vegetal, a complexidade dos processos de fotossíntese encontrados em todos os organismos vegetais do planeta aponta para um Planejador comum, conforme defendeu a Drª Queila de Souza Garcia, professora de Fisiologia Vegetal na Universidade Federal de Minas Gerais. Em sua fala, Queila empregou o argumento da complexidade irredutível para mostrar que, caso uma das reações químicas encontradas no processo de fotossíntese não funcionasse corretamente desde a criação das plantas, todo o processo entraria em colapso e as plantas morreriam.

Interpretação do Gênesis

O teólogo Richard Davidson . Foto: Murilo Pereira
O teólogo Richard Davidson, professor da Universidade Andrews, enfatizou a crença dos adventistas na interpretação literal da semana da criação. Foto: Murilo Pereira

O evento também contou com a contribuição de especialistas em Teologia, como o Dr. Richard Davidson, professor de Antigo Testamento na Universidade Andrews. Davidson mostrou que o cristianismo dispõe hoje de 50 métodos diferentes de interpretação bíblica, e que interpretar a Bíblia pode se tornar um verdadeiro “labirinto espiritual”. Para tanto, 10 princípios foram propostos por ele para auxiliar o intérprete da Bíblia quando confrontado com as últimas descobertas científicas. Esses princípios concedem à Bíblia o lugar de primazia no que diz respeito à busca pela verdade (sola Scriptura), e permitem que a Bíblia seja interpretada em sua totalidade (tota Scriptura). Empregando os princípios propostos, Davidson defendeu que os primeiros capítulos de Gênesis nos informam o quando, como, quem e o quê da criação. A leitura de Gênesis, portanto, não precisa ser poética nem mitológica, conforme advogam muitos intérpretes contemporâneos. Gênesis apresenta um relato literal da criação, informando como Deus deu forma ao planeta e o preencheu de vida.

Conforme o teólogo mostra, interpretar os dias da criação como longos períodos de tempo apenas acrescenta dificuldades à interpretação do relato que já tem provocado tantos debates teológicos nos últimos séculos. Em diversos textos da Bíblia, seus autores fazem alusão ao relato da criação, dando a entender que, o que está descrito ali é verdadeiro e literal. Interpretar o texto de Gênesis 1-3 de forma literal, tratando-o como um relato genuíno da criação, proporciona plena conformidade com o restante da Bíblia, como ressaltou Davidson.

Cronologia criacionista

Segundo admitiu a Dra. Suzanne Phillips, chefe do Departamento de Ciências Biológicas e da Terra na Universidade de Loma Linda, a maior dificuldade que o criacionismo ainda enfrenta reside na datação dos registros fósseis. Conforme a datação convencional, os fósseis de dinossauros e outros organismos que foram desenterrados por paleontólogos datam de milhões de anos – um quadro que não se encaixa com a cronologia criacionista. Apesar de os cientistas estarem pesquisando esse assunto há décadas, até agora nenhuma resposta satisfatória para o problema foi proposta.

Isso nos mostra que, a despeito das diversas dificuldades que o criacionismo enfrenta, existem bases sólidas para se acreditar no relato bíblico da criação e na existência de um Criador. Tanto o evolucionismo quanto o criacionismo se esforçam para explicar como a vida surgiu no planeta. Em ambas as teorias, existem lacunas que exigem o exercício da fé. Portanto, cada novo desafio deve servir de motivação para a contínua busca por elementos que clarifiquem nossa compreensão das origens. Nosso conhecimento deve avançar, e para isso, precisamos aprimorar nossas técnicas de pesquisa, aprofundar nossa argumentação e expandir nossa compreensão da revelação divina.

GLAUBER S. ARAÚJO é editor na Casa Publicadora Brasileira

 

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