Decodificando o universo

Cientista adventista que participou da descoberta das ondas gravitacionais explica a importância da pesquisa e o que ela revela sobre o Criador
Lisandro Staut
Pesquisadora da Universidade Andrews participou da descoberta que está mexendo com a comunidade científica. Foto: Tony Wittkowski
Pesquisadora da Universidade Andrews participou da descoberta que mexeu com a comunidade científica. Foto: Tony Wittkowski

A primeira detecção das ondas gravitacionais, uma descoberta que promete abrir uma nova era na astronomia, foi anunciada com repercussão mundial no dia 11 de fevereiro. Mas o que pouca gente sabe é que uma cientista criacionista e adventista trabalha há 15 anos nessa pesquisa. Tiffany Summerscales é professora associada de Física na Universidade Andrews (EUA), onde concluiu sua graduação em 1999. Ela entrou para a equipe de mais de mil pesquisadores do LIGO enquanto estudava o doutorado na Universidade Estadual da Pensilvânia. “Para mim, aprender mais a respeito do universo é muito inspirador, pois ele contém ecos da grandeza de Deus”, disse a cientista em entrevista à Adventist Review. No fim de semana passado, ela compartilhou um pouco do significado da descoberta com colegas e a alunos da universidade adventista na qual trabalha, na pequena cidade de Berrien Springs, em Michigan (EUA). O jornalista Lisandro Staut conferiu a apresentação e fez uma rápida entrevista com a pesquisadora.

Como foi compartilhar as conclusões desse estudo com na universidade em que estudou e onde trabalha hoje?

Foi muito bom poder contar para meus alunos e colegas de trabalho o que aconteceu, porque estou bem animada com o projeto e venho trabalhando nele há muito tempo. É maravilhoso ver todo esse esforço se materializando.

Como essa descoberta se relaciona com sua fé?

Essa descoberta mostra realmente que a criação não é só grande e vasta, mas também surpreendente. Quando você simplesmente olha para as estrelas, não consegue imagina que existem buracos negros, coisas grandes e eventos poderosos ocorrendo no espaço. Pois bem, essas ondas gravitacionais nos possibilitam ter uma nova visão sobre o Universo e um novo vislumbre sobre o Criador. Deus também é maravilhoso e surpreendente!

Por que escolheu a Física como área de trabalho? Era um sonho de criança?

Sempre gostei muito de aprender sobre a natureza. Adoro observar os pássaros e gosto de Ciências. No Ensino Médio, minha matéria escolar preferida era Matemática. Eu sabia que queria estudar Ciências, mas também gostava muito de matemática. Por isso, escolhi a Física, pois é a ciência que mais utiliza a matemática. Quando passei pela Universidade Andrews como estudante (1995-1999), tive a oportunidade de estudar todas as áreas da Física. Meu assunto preferido era a teoria da relatividade, porque era surpreendente e muitos dos resultados se mostravam imprevisíveis. Mas também tive a oportunidade de pesquisar com a doutora Margarita Mattingly, que foi minha orientadora e trouxe a colaboração da física de alta energia. Logo descobri que realmente gostava de estudar física em grupo, trabalhando assim com diferentes pessoas. Então, na pós-graduação, quando ouvi falar do LIGO (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory) achei que seria a combinação perfeita para mim: um projeto que trabalha com a teoria da relatividade e em grupo, com pesquisadores do mundo todo.

Conforme você conhece mais sobre o Universo, sente que suas crenças religiosas são desafiadas ou reforçadas? 

Penso que o Universo mostra coisas sobre as quais eu já havia pensado acerca de Deus. Que ele é grande, por exemplo. Acredito que alguns conflitos podem surgir se acharmos que já sabemos tudo o que ele tem feito e como tem feito. Porém, temos que estar dispostos a abrir a mente para as surpresas, porque Deus é muito maior do que todos os nossos pensamentos a respeito dele.

Qual é a importância dessa descoberta para a ciência?

É muito importante porque nos trará uma nova maneira de olhar para o Universo. Nós não sabemos ainda todas as implicações dela. Temos apenas alguma ideia dos objetos que queremos estudar com as ondas gravitacionais, como buracos negros e explosões de supernovas. Quando Galileu virou seu telescópio pela primeira vez para o céu e começou a ver a lua e suas crateras, ele entendeu apenas que estava vendo coisas novas. De lá para cá, usando telescópios, temos sido capazes de descobrir muito mais do que ele imaginava. Temos a mesma expectativa agora: descobrir muitas coisas que nem suspeitamos que existem.

Há muito dinheiro e pessoas envolvidas no projeto LIGO? Qual retorno é esperado para esse esforço?

No que estamos mais interessados é nessa nova forma de estudar a Astronomia e explorar o Universo. A pesquisa também é importante para compreender a teoria da relatividade de Einstein. Sabemos que ele previu essas ondas gravitacionais. Porém, ainda temos muita dificuldade para aplicar a teoria dele a fim de prever o que acontece quando a gravidade é muito forte, como nas proximidades de um buraco negro. Ainda não temos muita certeza de como as coisas funcionam lá. Por isso, esse estudo nos ajudará a avançar na pesquisa da Astrofísica e da própria Física Básica, ao entender melhor como a gravidade funciona.

Obviamente, existem pessoas que já questionam qual será o resultado prático ou tecnológico de tanto investimento. Esses benefícios já existem porque as empresas que desenvolveram as tecnologias para o LIGO já estão aperfeiçoando seus equipamentos. Além disso, os alunos apaixonados pela teoria da relatividade que participam conosco da pesquisa, desenvolveram novas técnicas durante o processo e foram contratados por diferentes empresas, como SpaceX e Google.

Hoje temos esses recursos para tentar verificar se Einstein estava certo. Mas o que ele tinha em mãos há cem anos para formular a teoria da relatividade?

Einstein era um teórico e matemático. Suas ferramentas, em grande parte, eram os cálculos e as coisas que imaginava. Foi o que ele chamou de experimentos mentais. Ele conhecia algumas contradições que existiam na Física daquela época, e tentou resolvê-las fazendo perguntas como “e se a velocidade da luz fosse o aspecto mais importante de uma constante? O que isso implicaria?”. Ele mesmo não fez muitos experimentos, mas desenvolveu cálculos para suas hipóteses. Depois que Einstein divulgou a teoria da relatividade geral, outros pesquisadores fizeram experimentos com base em seus cálculos e comprovavam o que a teoria afirmava.

Qual é sua parte na pesquisa do LIGO e como os alunos da Universidade Andrews estão envolvidos nisso?

Os alunos e eu trabalhamos, principalmente, com projetos que envolvem análise de dados. Fazemos parte do time que analisa os algoritmos dos computadores que retiram os dados dos detectores, procuramos pelo sinal e tentamos extrair as propriedades dele, como de qual local do céu veio a onda gravitacional, sua potência e forma. Isso é uma das coisas que fazemos. Estamos envolvidos também em outra frente de trabalho: a educação e divulgação. Hoje, eu tenho um aluno que está elaborando um jogo de computador para ajudar as crianças a compreender melhor a gravidade e os buracos negros, chama-se Chickens and Space. A ideia é a criança fazer buracos com as galinhas e a aprender sobre a gravidade. É muito bonitinho. Nosso grupo já trabalhou também na legendagem de alguns vídeos educativos do LIGO. E isso se torna mais fácil na Universidade Andrews, porque nosso campus tem grande diversidade cultural, com pessoas do mundo todo.

LISANDRO STAUT é jornalista e cursa o mestrado em Teologia na Universidade Andrews (EUA)

[Tradução: Lidiane Pinheiro de Souza]

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