Livros da morte

Como autores têm usado o poder da literatura para o mal enquanto outros levam vida e salvação por meio da página impressa

Ilustração: Eduardo Olszewski
Ilustração: Eduardo Olszewski

No contexto da literatura europeia e, mais especificamente, da literatura alemã, 2016 tem sido considerado o ano do livro Mein Kampf (Minha Luta). Inclusive, um raro exemplar da obra escrita por Adolf Hitler foi arrematada por 20.665 dólares em um leilão realizado nesta sexta-feira, 18 de março, nos Estados Unidos. A cópia leiloada foi encontrada por soldados americanos da 45º Divisão de Infantaria no apartamento do ditador alemão, em Munique, em maio de 1945. Segundo os responsáveis pela casa de leilões, provavelmente o exemplar tenha sido mantido por Hitler para seu próprio uso ou com o intuito de presentear algum admirador.

Setenta anos depois do suposto suicídio de Hitler, o livro entrou em domínio público no dia 1º de janeiro deste ano, e tem quebrado recordes de venda, figurando na lista dos best-sellers alemães desde o fim de fevereiro.

No entanto, Mein Kampf, a “bíblia do nazismo”, é caracterizada pela incitação ao ódio e ao racismo. Como consequência da aplicação prática de sua doutrina política, o livro autobiográfico e propagandístico de Hitler alimentou a ideologia que levou ao extermínio de seis milhões de judeus, bem como à perseguição a negros, ciganos, homossexuais e a outros grupos que não se enquadravam no ideal de uma suposta “raça pura”.

Outro livro da morte é O Manual Completo de Suicídio, de Wataru Tsurumi, publicado em 1993. Na obra, o autor ensina, de maneira sistemática, vários métodos de suicídio. Como desdobramento dessa terrível pedagogia, existem muitos registros de suicídio, nos quais o “manual” foi encontrado próximo ao corpo.

Com mais de um milhão de cópias vendidas, o livro de Wataru também se tornou um best-seller. No entanto, seis anos após seu lançamento, as autoridades japonesas cogitaram restringir a venda do livro, haja vista que em 1999, a taxa de suicídio entre os jovens de Tóquio aumentou 85% – e entre a população japonesa em geral houve um crescimento de 35%. “Nós temos recebido ligações de pessoas que seguiram as instruções do livro, mas falharam em se suicidar, estando sob grande dor”, afirmou na época Yukiko Nishihara, fundador de um serviço telefônico de emergência em Tóquio, em entrevista à BBC.

É pertinente lembrar que muito tempo antes, em 1774, a publicação do romance Os Sofrimentos do Jovem Werther pelo escritor alemão J. W. Goethe já gerou uma onda de suicídios entre os jovens. Em boa parte dos casos, as vítimas imitavam as características da morte do protagonista do livro. Devido a esse incidente, ainda hoje, na literatura psiquiátrica, o tipo de morte em que o suicida imita algum personagem midiático recebe o nome técnico de “efeito de Werther”.

Em suma, tanto Mein Kampf quanto o Manual Completo do Suicídio e Os Sofrimentos do Jovem Werther, entre várias outras literaturas que fazem apologia à destruição da vida, ou à autodestruição, são pregadores silenciosos que agem como legítimos livros da morte.

Livros que salvam

Enquanto alguns escritores têm usado sua influência para o mal outros levam vida e salvação por meio da página impressa, ajudando a reerguer o ser humano. Falo por experiência própria, pois testemunhei o poder de transformação dos bons livros.

No início do ano 2000, com um histórico de consumo de cocaína, maconha e álcool, eu estava numa condição de debilidade física e mental. Um dia tive uma forte sensação de taquicardia que me levou ao estado de pânico. Naquele momento, com apenas 22 anos de idade, pensei que seria o fim da linha. Porém, sobrevivi. E dali em diante comecei a repensar meus hábitos de vida.

Foi um momento de desespero e de procura por respostas. Naquela ocasião, o Espírito de Deus me fez lembrar do livro Nutrição Orientada, de Durval Stocler de Lima (publicado pela CPB), que havia lido quando criança. Essa obra foi distribuída pelos colportores na década de 1980. “Como o braço direito da terceira mensagem angélica, os métodos de Deus para tratamento da doença abrirão portas para a entrada da verdade presente” (Evangelismo, p. 516). Pude experimentar na prática o significado desse texto da escritora norte-americana Ellen G. White.

Pastor guarda livro publicado pela CPB que o influenciou a mudar de vida. Créditos da imagem: arquivo pessoal
Pastor mantém em sua biblioteca livro publicado pela CPB que o influenciou a mudar de vida. Créditos da imagem: arquivo pessoal

Ao seguir as instruções do livro, comecei a sentir uma grande mudança na minha condição mental. Diminuí o consumo de cafeína, açúcar e carne na dieta alimentar. Depois de ter iniciado essa reforma de saúde, também abandonei o ateísmo e comecei a acreditar em Deus através da simples observação da natureza. Como afirma o apóstolo Paulo, “os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas, de modo que esses homens são indesculpáveis” (Rm 1:20).

Em meados daquele mesmo ano, ouvi mentalmente uma voz que me disse: “Você é tão preocupado em ajudar as pessoas, mas não tem ajudado aquelas que mais precisam de seu auxílio: sua esposa e sua filha”. Até aquela ocasião, meu casamento havia sido uma farsa. Eu vivia em uma cidade e minha esposa em outra, tendo que carregar sozinha o fardo das responsabilidades familiares.

Ao ouvir aquela voz, fui imediatamente até minha casa e arrumei as malas. Meu objetivo era resgatar minha família. O único livro que levei para ler durante a viagem foi uma edição antiga do Vida de Jesus, de Ellen G. White. Em ocasiões anteriores, quando alguém olhava para minha biblioteca e perguntava sobre esta obra, eu dizia que era uma literatura sem valor e que não desse importância para ela. Mas, a partir daquele dia, passei a ver esse livro com outros olhos.

Em 2001, Jorselins Barbosa, um professor de matemática, pregou o evangelho para mim, e me presenteou com o livro O Grande Conflito. No ano seguinte, tomei a decisão de me batizar.

Mais recentemente, seguindo os passos de meu avô, Francisco Lago Souza, que trabalhou como colportor durante as décadas de 1970 e 1980, tive a oportunidade de dedicar cerca de oito anos da minha vida para evangelizar por meio da literatura. Na minha história, os livros da vida venceram os livros da morte.

FLÁVIO PEREIRA DA SILVA FILHO, mestre em Teologia Bíblica, é pastor e jornalista

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