Rainha do coração

A complexidade do papel da mãe se torna mais visível quando ela tem que dividir seu tempo entre os filhos e o trabalho fora de casa
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Alguns glamorizam o papel da mãe, mas a maternidade é uma tarefa cansativa e precisa ser mais valorizada. Créditos da imagem: Fotolia

No fim do ano passado, o jornal The New York Times tuitou que “uma mãe de 27 anos” estava vendendo mais álbuns do que se poderia imaginar. A referência era à cantora Adele e causou furor. “Que maneira sexista de descrever uma artista ganhadora do Grammy!”, protestou uma leitora. No entanto, para o desapontamento de muitas feministas, a cantora britânica afirmou, em uma entrevista, que encontrou na maternidade um novo sentido para a vida: “Quando me tornei mãe, senti que estava realmente vivendo. Passei a ter um propósito, o que eu não tinha antes.” E acrescentou: “Minha prioridade é ser mãe.”

Sem entrar no mérito da descrição, o fato é que ser mãe é uma das missões mais sublimes que qualquer mulher possa desejar, seja ela uma artista talentosa ou uma dona de casa. Afinal, a mãe, além de dar origem a uma vida, tem o poder de moldar o futuro. A influência da figura materna é decisiva em termos de qualidade e quantidade. Basta lembrar que todos os 7,4 bilhões de pessoas que vivem hoje e os estimados 108 bilhões que passaram pelo planeta têm algo em comum: mães.

Apesar disso, nem sempre o papel das mães é valorizado, forçando-as a buscar recursos no mercado de trabalho. Por exemplo, um estudo intitulado “The changing face of motherhood” revelou que um número cada vez maior de mães britânicas trabalha fora do lar. O total de mulheres com emprego em tempo parcial ou integral saltou de 16% em 1951 para 68% em 2011. Além disso, o trabalho tem contribuído para que o nascimento dos filhos seja adiado.

A média de idade das mães britânicas por ocasião do primeiro filho é de quase 30 anos, contra 23 na década de 1930. A mesma tendência é vista no Brasil.

Bebês são seres “inacabados”, ou em formação, e dependem muito das mães. Estima-se que uma criança requeira cerca de 13 milhões de calorias antes de se tornar independente em termos de nutrição. As mães geralmente dedicam duas vezes mais tempo ao cuidado dos filhos do que os pais. Isso sem falar nas outras tarefas domésticas.

O pior é que o cansaço e a preocupação não terminam quando a criança cresce. Se antes o ensino médio era a fase mais estressante para as mães, hoje é o ensino fundamental. Pelo menos é o que diz um novo estudo feito por pesquisadores da Universidade do Estado do Arizona (EUA), publicado em janeiro na revista Developmental Psychology.

E o que as mães ganham com isso? A maioria delas sente- se valorizada pela família, mas não pela sociedade, dizem os estudos. Embora algumas recebam agradecimentos dos companheiros e/ou filhos diariamente, em média o agradecimento ocorre a cada 20 dias.

Mães não são seres perfeitos. Algumas abandonam os filhos, limitam o espaço que eles precisam para crescer, ficam com medo, transmitem insegurança, ignoram as necessidades deles, competem e guerreiam, ferem e machucam. Mas, ao mesmo tempo, elas formam novas vidas, carregam o peso, sentem dor pelos filhos, os alimentam, confortam, educam, dão a vida por eles. Merecem grandes aplausos!

Para a filósofa e psicanalista búlgara Julia Kristeva, embora a ciência esteja ganhando domínio sobre o enigma da gestação, “a fertilidade feminina e a gravidez continuam a fascinar nossa imaginação”. Segundo ela, a maternidade, espécie de “santuário para o sagrado”, “está imbuída com o que sobreviveu do sentimento religioso”. Kristeva observa ainda que filósofos e psicanalistas parecem não se interessar tanto pela “função materna” talvez porque ela não seja exatamente uma função, mas uma paixão, “a única paixão não virtual e não sujeita à manipulação do espetáculo”.

A maternidade, que marca a vida da mulher como nada mais, é uma das esperanças que ainda restam. Num mundo cada vez mais sem carinho e sem referências morais e espirituais, as mães têm uma missão divina a cumprir. Não melhoraremos o planeta se não apoiarmos o papel das mães. Porém, aí vem o dilema: manter a carreira ou investir nos filhos? A matéria de capa desta edição, escrita pela mãe e jornalista Márcia Ebinger, discute a questão.

Hoje, muitas crianças agem como se fossem reis e rainhas, mas a verdadeira rainha é a mãe. O amor materno ainda é o protótipo e o modelo do amor autêntico. Aprenda com ele e o valorize!

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

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