Nobel dos cegos

Teólogo adventista é premiado por desenvolver uma técnica que ajuda deficientes visuais a aprender hebraico por meio do código braille

Pesquisador desenvolveu projeto para traduzir para o código braille os idiomas utilizados no texto bíblico original. Em 2010, Ray McAllister foi o primeiro aluno plenamente cego a concluir o programa de PhD em Antigo Testamento na Universidade Andrews (EUA). Crédito: Andrews/ Campus News

Ray McAllister, um ex-aluno cego da Universidade Andrews (EUA), criou um código braille para o hebraico, um dos idiomas bíblicos. A invenção lhe rendeu o prêmio Dr. Jacob Bolotin, considerado por muitos como o “nobel dos cegos”. Graduado em Teologia, McAllister foi o primeiro adventista a receber essa premiação, realizada no início de julho na nona edição da convenção. O prêmio é concedido pela Federação Nacional de Cegos (NFB), que presenteou o vencedor com 20 mil dólares.

O programa de premiação em dinheiro busca reconhecer indivíduos e organizações que contribuíram de forma notável para alcançar a integração plena dos cegos na sociedade norte-americana. “Minha oração é que esse prêmio me dê o reconhecimento que preciso para negociar com os estudiosos de todo o mundo a fim de ter acesso a certos materiais em texto”, ressalta o teólogo.

Jacob Bolotin, que dá nome à premiação, foi um médico cego que viveu em Chicago, de 1912 até sua morte em 1924. McAllister compõe um grupo de estudos de línguas e culturas semitas com Sarah Blake LaRose, tradutora profissional de braille, professora de hebraico e ex-colega de classe dele, e Matthew Yeater, atual presidente da NFB em Michiana (EUA). O grupo criou um código braille para as línguas bíblicas antigas a fim de que os alunos cegos possam estudar os textos religiosos em sua língua original, algo antes impossível.

Retrospectiva

Em 2010, McAllister se tornou a primeira pessoa totalmente cega a concluir um programa de Ph.D. com ênfase no Antigo Testamento, na Universidade Andrews. Depois disso, o pesquisador começou a desenvolver um projeto que utilizaria códigos de estilo do computador, como letras, números e sinais de pontuação para representar símbolos gregos e hebraicos. A tabela-base que ele utilizava foi desenvolvida em 2007 por Sarah, com todas as marcações técnicas.

Em seguida, o pesquisador utilizou um computador que iria converter os símbolos em cartas e mostrá-los em um display em braille – um dispositivo semelhante a pinos magnéticos que aparecem no formato do código. Porém, ele identificou que precisava de mais símbolos. Foi então que ele desenvolveu uma codificação adicional, útil, por exemplo, para identificar quando é preciso fazer uma pausa na leitura ou cantar o texto. “Uma vez que cantar é uma ação que uma pessoa cega pode desfrutar, senti a necessidade de preparar Bíblias com todos esses símbolos hebraicos”, explica. Para completar o trabalho, os símbolos foram revisados por outros colegas cegos.

Com a orientação de Sarah, o pesquisador concluiu o sistema para preparar os textos para os cegos. Utilizando a função de “localizar e substituir” de um editor eletrônico de texto, ele traduziu a Bíblia Hebraica Aleppo e outros documentos e inscrições semíticas para o braile.

Em 2014, McAllister e Yater realizaram parceria com uma empresa de software para converter documentos de várias línguas em braille, inclusive a partir do inglês, sem precisar da função “localizar e substituir”. Ele pontua que os sonhos são simples para o futuro do projeto. “Gostaria de ter mais textos em mais línguas antigas no formato braille. Não tenho ideia de como Deus vai conduzir isso, só sei que Ele me trouxe até aqui. O que está por vir será ainda mais que uma aventura”, acrescenta. McAllister também é fisioterapeuta e professor adjunto da Escola de Educação a Distância e Parcerias Internacionais da Universidade Andrews. [Tradução e adaptação de Camila Torres, equipe RA / Com informações de Danni Francis, da Universidade Andrews]

 

 

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