Fim e começo

Os sinais da volta de Cristo indicam que a história do mundo está chegando ao seu desfecho
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Créditos da imagem: Fotolia

Brexit, a palavra usada como marketing para a saída do Reino Unido da União Europeia, se transformou num sucesso entre os amantes da profecia. Mesmo antes do voto decisivo, ela já mobilizava os ânimos. De acordo com a revista The Economist, numa pequena cidade da Irlanda do Norte, um grupo de evangélicos foi para a rua principal com cartazes incentivando o voto pelo “sair” para que ninguém pusesse em risco sua alma ao optar por uma instituição política alinhada ao anticristo. O assunto também mexeu com os adventistas, pois somos uma igreja movida a escatologia.

Os reformadores magisteriais deram uma importância especial à escatologia, elaborando uma filosofia da história e identificando o lugar do papado na profecia. Mas foram os reformadores radicais que mostraram mais entusiasmo com a promessa do advento e, por meio de seus sucessores, ajudaram a manter viva essa esperança nos séculos seguintes. O adventismo veio para dar nova tonalidade ao assunto, refinando as ideias escatológicas.

A palavra escatologia vem do termo grego eschaton (“fim”) e significa o estudo sobre as últimas coisas. Ela tem conexão com o gênero apocalíptico, mas os termos não são sinônimos. Se o apocaliptismo tem que ver com um movimento social de reversão da ordem política, em que as pessoas marginalizadas passam a ter poder e as figuras poderosas e tiranas da ordem atual sofrem uma punição, a escatologia se concentra na interpretação das profecias ligadas ao futuro. Ao estudar e interpretar os últimos acontecimentos, ela nos ajuda a ter um vislumbre melhor dos planos de Deus. Aqui é bom lembrar que os últimos dias já foram inaugurados pela chegada de Jesus (Hb 1:2; 1Pe 1:20).

A literatura apocalíptica bíblica não foi produzida por figuras ou movimentos marginalizados da fé judaica, mas pelo próprio núcleo do estabelecimento religioso/sacerdotal. O alvo da literatura apocalíptica é mostrar os perigos (filosóficos e físicos), reafirmar a vitória do Céu, descrever a recompensa pela fidelidade e motivar os leitores a perseverar até o fim. O gênero apocalipse, longe de ser destituído de valor ético, prega o dia em que a ética vencerá o mal.

“Ser adventista e não sonhar com a volta de Jesus, não orar por esse dia e não trabalhar pelo estabelecimento de seu reino é brincar de ser adventista e simular ter esperança”

A escatologia é a conclusão lógica da criação, da salvação, da cristologia, da profecia, da missão e da teodiceia (a justificação do jeito de agir de Deus). É a esperança de um mundo melhor. Ela engloba os principais temas bíblicos e dá sentido aos rumos da história. Um Deus perfeito não pode deixar uma criação imperfeita prosseguir assim para sempre. O advento não acontecerá apenas para o ser humano, mas para toda a criação e todo o Universo.

Firmado nessa “bendita esperança” (Tt 2:13), o povo adventista une duas realidades em sua teologia: a protologia, doutrina das origens, e a escatologia, estudo das últimas coisas. Criação e nova criação, duas perfeições separadas por um período de catástrofe introduzido pelo pecado, fazem parte do mesmo horizonte. E a grande narrativa que conecta esses polos é a segunda vinda de Jesus. Esse evento glorioso está relacionado a tudo que já aconteceu e que acontecerá nos domínios de Deus. Sem a volta de Cristo, nada faria sentido. Há um significativo paralelo entre o início e o fim da Bíblia.

O adventismo é o guardião da esperança escatológica para o tempo do fim, sendo convidado a antecipar e profetizar a volta de Cristo novamente (Ap 10:11). Não vivemos apenas de passado, mas de futuro. Não olhamos apenas para a Terra, mas para o Céu. Ser adventista e não sonhar com a volta de Jesus, não orar por esse dia e não trabalhar pelo estabelecimento de seu reino é brincar de ser adventista e simular ter esperança.

Até que o sonho de eternidade se torne real, o povo do advento precisa nutrir constantemente sua esperança e preparar um povo para estar de pé no dia do Deus todo- poderoso. E, como enfatiza a matéria de capa desta edição, escrita a partir da efervescência despertada pelo movimento de uma peça no tabuleiro profético, é preciso saber ler os sinais, enxergar além do óbvio, entender as entrelinhas da história, perceber os caminhos do mundo e detectar a aproximação de Cristo.

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

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